<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0">	<channel>		<title>[musicblog.com.br] bandasdorockgauchoforever : <![CDATA[bandas do rock gaúcho forever]]></title>		<link>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br</link>		<description><![CDATA[bandas do rock gaúcho forever]]></description>		<language>br</language>		<copyright>Copyright (c) 2006, Hi-pi</copyright>		<generator>Hi-pi RSS 2.0 generator</generator>		<docs>http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss</docs>		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 21:15:36 +0200</pubDate>		<image>			<title>bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br</title>			<link>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br</link>			<url>http://static.blogstorage.hi-pi.com/musicblog.com.br/b/ba/bandasdorockgauchoforever/images/mn/1197390910_regular.jpg</url>		</image>		<item>			<title><![CDATA[Festival Gig Rock]]></title>			<description><![CDATA[<p>GIG ROCK - 7ª edição
 
Com shows de Pato Fu, Mallu Magalhães com participação especial de
Marcelo Camelo, Tenente Cascavel, Tonho Crocco, Graforréia
Xilarmônica, Bidê ou Balde e muito mais
 
Dia 7 de novembro a partir das 15h na Casa do Gaúcho</p>
<p>
 
Vem aí mais um GIG ROCK, conceituado festival realizado pela Beco
203 anualmente. Um casting de peso já está escalado pra maratona do
rock, que vai rolar na Casa do Gaúcho dia 7 de novembro, desde o
início da tarde até alta madrugada. Pato Fu, Mallu Magalhães - com
participação especial de Marcelo Camelo -, Tonho Crocco, Tenente
Cascavel, Bidê ou balde, Graforréia Xilarmônica, Walverdes,
Valentinos, FENX, Gullivers e Os Efervescentes são as atrações
confirmadas. E mais: duas bandas uruguaias, a Dante Inferno e
Hablan por la espalda estarão aqui abrindo os trabalhos para uma
iniciativa bacana. É que o festival terá uma versão na nossa
simpática vizinha Montevidéu em março de 2010, numa parceria da
Beco 203 e da LIGA Produção. Os dois shows de abertura serão feitos
por bandas do Oi Novo Som.
 
Com o patrocínio da novíssima OI FM o Gig Rock 7 tem curadoria de
Vitor Lucas e Marcelo Ferla. Como nas outras edições, terá o
bate-papo Todo Rock, debate sobre a cena roqueira independente
nacional com convidados especiais. Durante o dia rola o Mercado B,
com bazar, assessórios de rock, lojinhas e afins e as palestras. A
partir das 17h se iniciam os shows.
 
Os ingressos antecipados já estão à venda nos seguintes pontos de
venda: Lojas Oi - Centro (Rua dos Andradas, 1273 loja 05/06) e
Iguatemi e a King 55 (Dna. Laura 78). Clientes Oi tem 50% de
desconto em 2 ingressos por pessoa.
 
O Gig Rock está cotado como um dos festivais de médio porte que
acontecem pelo país. A escolha da programação de cada edição é
feita de forma a atender os artistas de maior destaque e grupos que
têm um bom show a ser mostrado. Também são usados critérios de
circulação nacional e internacional. Atualmente a procura pra
participar do Gig Rock é muito grande e músicos e produtores de
todo o Brasil procuram o Festival buscando este espaço para mostrar
seus trabalhos. O outro diferencial está justamente nos debates,
sempre com convidados muito especiais escolhidos pelo jornalista
Marcelo Ferla, onde são discutidos assuntos pertinentes como o
futuro da cena independente, circulação, acesso à mídia e às
questões políticas.
 
 
PROGRAMAÇÃO:</p>
<p>15h - Todo Rock  - debate
sobre a cena roqueira independente nacional, com curadoria de
Marcelo Ferla, gerente artístico da Oi FM Porto Alegre
 
17h - abertura dos shows, com banda Oi Novo Som 
17h40min - banda Oi Novo Som
 
18h - Gullivers
18h30min - Valentinos
 
19h - Hablan por La Espalda (Uruguai)
19h40min - Walverdes
 
20h20min - FENX
20h40min - Dante Inferno (Uruguai)
 
21h20min - Tonho Crocco
22h10min - Mallu Magalhães com participação de Marcelo Camelo
23h10min - Pato Fu
 
0h10min - Graforreia Xilarmônica
1h10min - Os Efervescentes
1h50min - Bidê ou Balde
2h50min - Tenente Cascavel
 
 
E mais:
Mercado B com Bazar, acessórios de rock, lojas
 
 
 
SERVIÇO
 
 
 
GIG ROCK - 7ª edição
Dia 7 de novembro - sábado
Casa do Gaúcho - Parque Harmonia (Rua Otávio F. Caruso da Rocha,
301)
Abertura dos portões às 15h
Debate Todo o rock -  15h
Início dos shows - 17h
 
Ingressos antecipados: R$ 20,00
nas Lojas Oi - Andradas, 1273 loja 05/06 e Iguatemi
e King 55 (Dna. Laura 78)
 
Desconto de 50% para clientes Oi (dois ingressos por pessoa)
 </p>
<p>Patrocínio: Oi Fm
Apoio: Secretaria Municipal da Cultura - Prefeitura de Porto
Alegre
 
 
GIG ROCK é filiado à Abrafin
Realização: Beco 203 Produtora</p>
<p>
 
Confira a programação completa: <a href=
"http://www.beco203.com.br">www.beco203.com.br</a>
 
 
Informações para a imprensa:
Bebê Baumgarten e Kellen Hoher/ BD Divulgação
(51) 3028.4201 / 8111.8703
Nextel - / 7814.2244 - ID 84*39184<a href=
"mailto:bebebaumgarten@terra.com.br">bebebaumgarten@terra.com.br</a></p>
]]></description>			<link>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/213544/Festival-Gig-Rock/</link>			<comments>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/Festival-Gig-Rock-03112009-175507-lp-213544.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/213544/Festival-Gig-Rock/</guid>			<pubDate>Tue, 03 Nov 2009 17:55:07 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[A contribuição judaica à música gaúcha (continuação)]]></title>			<description><![CDATA[<p align="justify"></p>
<p align="justify"></p>
<p align="justify"></p>
<p align="justify">Os movimentos
juvenis em atuação em Porto Alegre (Chazit Hanoar, Dror Habonim,
Betar, dentre outros) também têm desempenhado um papel relevante na
divulgação da música israeli junto às novas gerações. Embora, em
termos de atividades artísticas desenvolvidas por estes grupos,
seja a dança a que tem maior destaque, a música, até porque
intimamente ligada àquela, também encontra o seu espaço (eu mesmo
participei de um espetáculo do Dror Habonim, grupo a que pertencia,
no início dos anos 80, no extinto Teatro Presidente, tocando
violão, em interpretações que fizemos de canções israelis,
entremeadas às apresentações de teatro, dança, humor,
etc.). </p>
<p align="justify">O cineasta
Jaime Lerner, além de sua produção cinematográfica convencional,
também dedica-se à produção de clipes musicais, tendo dirigido, por
exemplo, um clipe de Hique Gomes (Tangos e Tragédias) e outro deste
que vos fala, ambos exibidos na MTV e no
Multishow. </p>
<p align="justify">Poetas e
escritores gaúchos de origem judaica também têm permitido que 
seus poemas sirvam como letras de músicas. É o caso, por exemplo,
de Cíntia Moscovich, Paula Taitelbaum e Celso Guttfreind, os quais
tive a honra de musicar, em disco que deve sair no próximo
ano. </p>
<p align="justify">Como pode-se
ver, a contribuição judaica ao universo da música gaúcha é ampla e
multifacetada. A música corresponde, portanto, a mais um dos campos
em que os judeus gaúchos têm contribuído para a construção da
identidade cultural do Estado do RS, assomando-se à importante
contribuição que seus membros têm dado também aos ramos do teatro,
cinema, literatura, dança, artes plásticas, etc.  Com efeito,
a comunidade judaica gaúcha, através de alguns de seus membros, vem
também dando a sua parcela de colaboração, no sentido de ajudar a
formar e desenvolver o campo musical, irmanando-se, neste tarefa,
aos talentosos indivíduos advindos das mais variadas origens
(portugueses, índios, negros, espanhóis, italianos, alemães,
poloneses, russos, árabes, etc., etc.), que integram o riquíssimo
cabedal étnico do estado mais meridional do Brasil. 
 
 
 </p>
]]></description>			<link>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/211537/A-contribui-o-judaica-m-sica-ga-cha-continua-o/</link>			<comments>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/A-contribuic-o-judaica-a-m-sica-ga-cha--continuac-o--26102009-213725-lp-211537.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/211537/A-contribui-o-judaica-m-sica-ga-cha-continua-o/</guid>			<pubDate>Mon, 26 Oct 2009 21:37:25 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[A contribuição judaica à música gaúcha (parte 1,  veja a continuação em seguida)]]></title>			<description><![CDATA[<p>  </p>
<p> </p>
<p>por Rogério
Ratner </p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">Os judeus
correspondem a uma das muitas etnias que integram o cadinho
populacional gaúcho. Em que pese a comunidade judaica gaúcha,
atualmente,  conte com cerca de 10.000 membros  (sendo,
portanto, de proporções, em número de membros, bem mais modestas do
que as maiores comunidades judaicas do Brasil, especialmente em
relação às do centro do país, São Paulo e Rio de Janeiro ), a sua
contribuição ao universo da música feita no RS pode ser considerada
bastante significativa. Vamos tentar mapear um pouco desta
contribuição, tanto no campo da música erudita, como na área da
música popular.</p>
<p align="justify">Inicialmente,
antes de adentrarmos em nosso assunto propriamente dito, cumpre
fazer algumas observações mais gerais acerca da relação do povo
judeu com a música. Será útil também nos situarmos dentro do
contexto da colonização judaica no Brasil, a fim de podermos melhor
contextualizar o tema.   </p>
<p align="justify">OS JUDEUS E A
MÚSICA </p>
<p align="justify">A música
sempre teve um papel muito importante para o povo judeu, desde os
primórdios da formação desta etnia, originária do Oriente Médio. A
origem do povo judeu pode ser encontrada na Mesopotâmia, tendo em
vista que o patriarca da religião hebréia, Abraão, nasceu em Ur, na
Caldéia, uma das regiões mesopotâmicas. Para diversos povos daquela
região, a música exercia relevantes funções em suas sociedades, o
que também se refletiu na cultura dos judeus, com desdobramentos
inclusive em sua liturgia. As referências à música são inúmeras no
texto bíblico, podendo-se indicar muitas passagens. Apenas para
exemplificar, basta lembrar que, de acordo com os redatores
bíblicos, as muralhas de Jericó teriam sido derrubadas pelas
famosas trombetas/trompas. Ainda que se compreenda hodiernamente
que o texto bíblico corresponde a um conjunto de relatos de
contornos históricos, mas também em grande medida mitológicos, esta
passagem já serve como uma demonstração da importância da música
dentro da cultura judaica, a ponto de ela ser elevada à condição de
veículo de expressão literalmente consubstanciado em instrumento da
própria vontade divina.</p>
<p align="justify">Outro exemplo
que vale lembrar é o do próprio Rei David, o maior líder
político-religioso do período bíblico, que era músico. Aliás, foi
justamente por ser músico que David teve acesso ao séquito real de
Saul, seu antecessor no trono judaico. Em face dos conhecidos
efeitos terapêuticos &ldquo;para acalmar os nervos&rdquo;, que
desde aquela época já se atribuía à música, David foi convocado
para tocar  sua harpa e entoar melodias com o objetivo de
acalmar o rei Saul, soberano de conhecido humor instável, e que
passava por crises de melancolia. E David foi bem sucedido na
tarefa. Assim, é basicamente através da música que praticamente
começa a história política de David, até chegar à sua ascensão à
liderança do povo.</p>
<p align="justify">Ao nível da
religião  judaica, a música exerceu uma função tão importante
no ritual que no próprio Templo de Jerusalém, construído por
Salomão, filho de David, o serviço envolvia o entoamento de
diversos hinos e rezas pelo sumo sacerdote (a cantilena), inclusive
contando com um coro de doze vozes, e um conjunto de doze
instrumentos a acompanhá-lo. Os salmos e os cânticos eram formas
musicais muito comuns no seio do povo judeu.</p>
<p align="justify">Após a
destruição dos dois templos, o de Salomão e o de Herodes, os
rituais litúrgicos passaram para o âmbito das sinagogas, sendo que
a música continuou exercendo um importantíssimo papel em sua
configuração. De um modo geral, o acompanhamento instrumental nas
sinagogas era mais exceção que regra, cabendo ao cantor sacro a
responsabilidade pelo entoar das melodias santificadas. De fato,
todo o culto judaico até hoje envolve uma pessoa que lidera o
serviço religioso (seja o rabino, ou o chazan, que é o cantor
litúrgico), o qual entoa as rezas ritmicamente,  geralmente
valendo-se de notáveis melodias. Assim, o chefe do serviço coordena
o acompanhamento dos fiéis à leitura dos textos sagrados e das
benções, e estes, em determinadas partes das rezas - que seguem a
seqüência prevista nos livros litúrgicos para cada espécie de ato
(rezas da manhã, da tarde, da noite, ou das festas) -, juntam suas
vozes em coro. Com efeito,  muitas destas rezas são adornadas
por belíssimas melodias, que, acrescidas aos cantos milenares,
foram sendo compostas ao longo dos séculos, incorporando inclusive
influências dos mais diversos locais em que os judeus se radicaram,
a partir dos exílios impostos pelos vários povos que conquistaram a
Judéia, e muito  especialmente em face da profunda dispersão
imposta pelos romanos, cerca de um século após a morte de Jesus
Cristo.  Cabe ressaltar que a circunstância de o rito judaico
prever a possibilidade de que a figura de um cantor coordene os
atos religiosos (sejam aqueles ordinários realizados na sinagoga,
seja em casamentos, circuncisões, enterros, etc.), sem que este
detenha necessariamente toda a formação e especialização em
conhecimentos religiosos que é exigida de um rabino, já é bastante
ilustrativa da importância que a música representa para o culto
religioso hebreu. Cumpre observar também que o envolvimento do fiel
judeu com a música também é bastante precoce, uma vez que, além de
poder acompanhar desde pequeno as sessões religiosas na sinagoga
(praticamente desde o berço), já aos treze anos, na cerimônia de
ingresso à maioridade religiosa (Bar Mitzvah), seus dotes vocais
são testados frente à toda a comunidade, seja ele
&ldquo;afinado&rdquo; ou não. No Bar Mitzvah, o menino judeu lê
diversas bênçãos especiais, e uma parte do texto bíblico
diretamente nos rolos da Torá, ocupando o altar da sinagoga e o
centro das atenções. A cerimônia corresponde, guardadas as
proporções, e perdoada a &ldquo;heresia&rdquo;, a um verdadeiro
show musical (costumo dizer, de brincadeira, que o primeiro show
que fiz foi em meu Bar Mitzvah, na sinagoga da União Israelita, em
Porto Alegre; aliás, aproveito para registrar, com muito orgulho,
que fui o primeiro aluno do rabino Efraim Guinsburg, de saudosa
memória para a comunidade judaica de Porto Alegre, a
&ldquo;apresentar-se&rdquo; ao ishuv). Hodiernamente, as meninas
também podem executar um ritual semelhante, aos doze anos, no
chamado Bat Mitzvah. Nas sinagogas mais tradicionais, atualmente
não se costuma utilizar instrumentos musicais no acompanhamento das
rezas, mas um instrumento milenar é convocado nas ocasiões
especialíssimas que são o Iom Kipur (dia do perdão) e o Rosh
Hashaná (ano novo judaico): o shofar, que consiste em um chifre de
carneiro oco (podem ser utilizados também chifres de cabras,
gazelas e antílopes), que é soprado vigorosamente, gerando sons
muito peculiares e estridentes. O momento do toque do shofar é o
ponto culminante destas cerimônias tão importantes dentro do
calendário religioso judaico.</p>
<p align="justify">A importância
da música dentro da cultura religiosa e tradicional judaica também
cresceu muito com a consolidação da cabala e do movimento
chassídico. Com efeito, para o chamado misticismo judaico, a música
tem um caráter divino, e é uma das formas primazes de integração do
fiel à divindade, sendo um dos melhores caminhos que se pode
utilizar para chegar  ao êxtase religioso e à comunhão com o
sagrado. Para os &ldquo;chassidim&rdquo;, a conjugação da música
com a dança, de caráter alegre, são dos principais meios ideais
para chegar-se ao &ldquo;nirvana&rdquo; espiritual, ao contato
direto com o divino. De outro lado, o movimento reformista, que
surgiu no rastro da chamada &ldquo;haskalá&rdquo;, ou iluminismo
judaico - a partir da idéia acerca possibilidade de integração
maior dos judeus à sociedade cristã, antevista especialmente a
partir do final do século XVIII, e que sofreu um duríssimo golpe na
Europa com o advento do Holocausto -, foi bastante influenciado, em
termos rituais, pelo culto das igrejas cristãs, reincorporando, de
uma certa forma, o acompanhamento instrumental aos serviços
religiosos judaicos. Também a complexidade melódica e de arranjos
apresentadas na música litúrgica cristã passaram a ter grande
relevância nos rituais das sinagogas vinculadas a esta linha.
Aliás, cumpre assinalar aqui que, no aspecto musical, como, de
resto, em tantos outros, os pontos de contato do judaísmo com o
cristianismo são muito grandes, tendo havido intercâmbios culturais
mútuos ao longo da história. De fato, os rituais das igrejas
cristãs primitivas em muito se assemelhavam aos das sinagogas,
tendo os cristãos herdado, por exemplo, o canto salmódico. O mesmo,
sem dúvida, pode-se dizer da religião muçulmana, que também tem na
música um de seus elementos rituais importantes. Enfim, o que
cumpre sublinhar é que praticamente não existe ritual religioso
judaico que não conte com elementos de música.</p>
<p align="justify">A música não
voltada para fins especificamente religiosos também sempre foi
muito cultivada pelos judeus. Na Europa, até a chamada Emancipação,
já no limiar da Idade Moderna (por meio da qual  passaram a
ter a possibilidade de se integrar de forma mais efetiva, em maior
ou menor grau, à sociedade cristã), os judeus construíram um
repertório de música laica em seus locais de morada, que geralmente
eram constritos em guetos, schtetels e judiarias. Há notícias
também de músicos judeus atuando nas cortes de reis, em mercados,
em tabernas, etc.</p>
<p align="justify">Sob o ponto de
vista folclórico, pode-se identificar duas vertentes principais
para a música feita na diáspora judaica: a música
&ldquo;ídiche&rdquo;, criada a partir da língua homônima (também
conhecida como idish/yidish/ídich, enfim, a grafia varia),
que  mistura palavras de alemão e hebraico, com alguns
acréscimos, para as populações da Europa Oriental, de expressões
eslavas, e a música sefaradi, feita pelos judeus de origem ibérica,
e que é baseada no ladino, dialeto que mistura fundamentalmente
palavras do espanhol e hebraico.</p>
<p align="justify">A música
ídiche, que mais recentemente vem sendo denominada como klezmer,
mistura diversos elementos da tradicional música oriental judaica
com outros dos países da Europa Oriental, Central e Ocidental,
especialmente da Rússia, da Polônia, da Ucrânia, dos países
bálticos e dos Bálcãs, bem como da cultura cigana. Em verdade, o
klezmer poderia ser melhor definido como uma subdivisão da música
ídiche, pois, em sua origem, estava mais voltada à animação de
festas e celebrações, ou seja, focava-se primordialmente na
produção mais &ldquo;eufórica&rdquo; da música judaica da Europa
Oriental. A música ídiche, em sentido mais amplo, contudo, abrange
ainda uma grande produção de canções lentas e melancólicas, de
muita dramaticidade (meu avô materno, Leão Ratner, com sua bela voz
de barítono, e que chegou a fazer teatro ídiche na Lituânia, antes
de vir para o Uruguai, e finalmente radicar-se no Brasil, cantava
uma infinidade destas melodias, que exigiam uma grande
expressividade do intérprete, especialmente para emular um
quase-choro, tão característico deste cancioneiro). A música
ídiche, em sua divulgação, esteve quase sempre ligada intimamente
com o teatro ídiche, o qual foi muito forte na Europa Oriental (até
o Holocausto) e também nos Estados Unidos. Para ter-se uma idéia da
importância do teatro ídiche neste contexto, basta dizer que George
Gershwin chegou a compor canções para produções do gênero, sendo
que o seu biógrafo Charles Schwartz aponta estudos no sentido de
que a canção &ldquo;S'Wonderful&rdquo;, grande clássico do
cancioneiro americano, é, em verdade, inspirada em uma melodia
ídiche. O grande astro, em termos de composição musical do teatro
ídiche americano, foi Sholom Secunda, com quem, aliás, Gershwin
colaborou. A estrutura dos espetáculos era muito semelhante à da
Broadway do início do século passado, com operetas, musicais,
danças, revistas, etc., além da parte teatral propriamente dita.
Pode-se dizer, sem margem de erro, que o teatro ídiche deu uma
contribuição importantíssima para a formatação do espetáculo
musical moderno americano. Existiu uma vasta produção fonográfica
desta música étnica, cujos discos inclusive chegaram em alguma
quantidade por aqui. Eu mesmo tenho um bom número de
&ldquo;bolachões&rdquo; de música ídiche, que tenho catado por aí
em sebos, os quais venho acrescendo a alguns discos que arrecadei
na casa de meus pais. Nesta produção, verifica-se que houve uma
incorporação bastante ampla de diversos outros elementos estéticos
à cultura ídiche; por exemplo, evidenciam-se influências do tango,
do jazz, da música erudita, etc., além daquelas fontes
&ldquo;tradicionais&rdquo; ao gênero. Há uma estação na internet
produzida por um engenheiro brasileiro que roda somente música
ídiche, e vale a pena visitá-la: <a href=
"http://www.yidishmusic.com.br/" target="_blank"><span style=
"text-decoration: underline;">http://www.yidishmusic.com.br</span></a>
 </p>
<p align="justify">Conforme
referido, a música sefaradi mescla influências hebraicas e
ibéricas, a partir da língua denominada &ldquo;ladino&rdquo;; é de
grande beleza, sendo vastíssimo o repertório criado por seus
criadores. Esteticamente, é muito próxima à sonoridade que se
encontra ainda hoje na música tradicional feita na Espanha e
Portugal, a qual, como é consabido, também sofreu claras
influências orientais, decorrentes, em grande parte, da ampla
influência moura e judaica na formação daqueles países, na mescla
com os povos visigóticos e outros ancentrais autóctones.
Atualmente, no Brasil, a grande &ldquo;embaixadora&rdquo; da música
sefaradi é a cantora Fortuna, que tem gravado belos discos
enfocando esta herança cultural tão profícua.
 </p>
<p align="justify">Cabe sublinhar
aqui que o advento da própria figura do músico como artista
individualizado e reconhecido enquanto tal, exercente de um papel
de destaque nas sociedades ocidentais (seja como compositor, cantor
ou instrumentista), é um fenômeno mais reconhecível e claramente
delineado ao final da Idade Média, o que se configurou ainda com
mais força já na Idade Moderna. Dentro deste contexto, na medida em
que aos judeus foi sendo gradativamente concedida a possibilidade
de maior interação e integração com a sociedade em geral
(integração esta, é bom assinalar, sempre marcada por avanços e
retrocessos, especialmente a partir da Revolução Francesa e da Era
Napoleônica, até a terrível hecatombe do Holocausto), começaram a
surgir nomes de judeus ligados à música feita na sociedade
ocidental.  </p>
<p align="justify">É muito
significativa, neste sentido, a contribuição judaica à música
erudita européia, sendo que podemos citar os seguintes nomes, à
guisa de exemplos, todos da maior importância neste cenário:
Giácomo Meyerbeyer, Felix Mendelssohn, Salomone Rossi, Lorenzo da
Ponte (Emmanuele Conegliano, libretista de óperas de Mozart, como
Don Giovanni e As bodas de Fígaro), os Strauss (Josef I e II),
Jacques Offenbach, Georges Bizet, Gustav Mahler, Arnold Schoenberg,
Bruno Walter, Paul Dessau, Darius Milhaud,  Friedrich
Hollander, Arthur Rubinstein, Otto Kemplerer, Berthold Goldschmidt,
Ernst Bloch, André Previn, Kurt Weil, Andrew Lloyd Weber, André
Previn, Arthur Rubinstein, Arthur Fiedler, Isaac Stern, Jascha
Heifetz, etc. Nos Estados Unidos surgiram também muitos nomes
importantes no campo da música erudita, tais como George Gershwin,
Leonard e Elmer Bernstein, Aaron Copland, Philip Glass,  etc.
 </p>
<p align="justify">Na Europa,
ainda, alguns judeus contribuíram relevantemente com a consolidação
do mercado da música popular, seja na condição de artistas, seja na
de produtores musicais.   </p>
<p align="justify">De outro lado,
a consolidação da música popular enquanto indústria do
entretenimento, no sentido em que a conhecemos hoje, deu-se
praticamente no exato momento em que os judeus justamente estavam
imigrando para os Estados Unidos em grande número, especialmente
saídos da Europa Oriental, e, em menor grau, da Central.
 </p>
<p align="justify">Assim, o
mercado musical americano, em grande parte ligado ao teatro
&ldquo;vaudeville&rdquo;, de operetas, &ldquo;music hall&rdquo; e
de revista, foi um campo fértil para os imigrantes judeus e seus
descendentes, até pelas possibilidades que esta atividade oferecia
de fugir da vida dura de pobreza que a grande maioria estava
passando, chegados do leste europeu no mais das vezes apenas com
&ldquo;a roupa do corpo&rdquo;. Foi especialmente em Nova York,
mais especificamente na Tin Pan Alley (rua que reunia um grande
número de casas editoras de música), e nas inúmeras produções
da  Broadway (entre as quais, por exemplo, ficaram célebres as
Ziegfeld Follies), que um expressivo número de compositores,
músicos e cantores judeus pôde revelar ao mundo o seu talento.
Posteriormente, com o advento da indústria cinematográfica, muitos
compositores, instrumentistas e cantores judeus, eruditos ou
populares, dedicaram-se a participar da produção de filmes
musicais, à frente das telas ou mesmo nos bastidores. A
participação de artistas judeus na construção da música pop feita
nos USA desde então - passando pelo jazz, blues, rock, pop, soul,
rap, etc., -, sem dúvida, é das mais expressivas. </p>
<p align="justify">Neste sentido,
merecem menção (em que pese a enxurrada de nomes de enorme
destaque, a dificultar uma listagem mais digna de demonstrar toda a
amplitude desta contribuição): George e Ira Gershwin/ Irving
Berlin/ Jerome Kern (focalizei estes compositores maravilhosos em
um show que apresentei no Theatro São Pedro e no Teatro Renascença,
em 1994, denominado &ldquo;Três Judeus na Broadway&rdquo;)/ Richard
Rodgers/ Oscar Hammerstein II/ Lorenz Hart/ Harold Arlen/ Burt
Bacharah-Hal David/ Al Cohn/ Sammy Cahn/ Howard Dietz/ Al Johnson/
Mitchel Parish/ Cy Coleman/ Jerry Leiber e Mike Stoller (autores de
vários &ldquo;clássicos&rdquo; do repertório de Elvis Presley)/
Howard Dietz/ Arthur Schwarts/ Stan Getz/ Benny Goodman/ Diane
Warren/ Barry Mann/ Norman Gimbel/ Alan e Marilyn Bergman/ Cynthia
Weil/ Jule Styne/ David Raskin/ Victor Young/ Stephen Sondheim/
Dinah Shore/ Harry Connick Jr./ Bette Middler/ Meredith Monk/ Artie
Shaw/ Mel Tormé/ Paul Anka/ Danny Gottlieb/ Lyle Mays/ Jack
Beckenstein (Spiro Gira)/ Paul Desmond/ Dave Brubeck/ Barney
Kessel/ Shely Manne/ Herbie Mann/ Lee Konitz/ Brothers Brecker/ Les
Brown/ Paul Whiteman/ Zoot Sims/ Gerry Mulligan/ Gene Simmons, Ace
Frehley e Paul Stanley (Kiss)/ Carole King/ Simon e Garfunkel/ Bob
Dylan/ David Lee Roth (Van Halen)/ Geddy Lee (Rush)/ Susane Hoffs
(The Bangles)/ Arlo Guthrie/ Neil Diamond/ Neil Sedaka/ Slash
(Guns)/ Phil Spector/ Paula Abdul/ Barbra Streisand/ Blood, Sweet
and Tears/ Randy Newman/ Neil Sedaka/ Barry Manilow/ Michel Bolton/
Robbie Krieger (The Doors)/ Lisa Loeb/ Alan Paul e Janis Siegel
(Manhatan Transfer)/ Carly Simon/ Helen Shapiro/ Eric Carmen/ 
Neil Diamond/ Barry Sisters/ Davitt Singerson/ Billy Joel/ Danny
Elfman (Oingo Boingo)/ Cass Eliot (The Mamas and the Papas)/
Leonard Cohen/ Paula Abdul/ Chris Barron, Eric Schenkman, Aaron
Comess (Spin Doctors)/ Perry Farrel, Stephen Perkins (Porno for
Pyros e Jane's Adiction)/ Dee Snider (Twisted Sisters)/ Herp
Albert/ Kenny G/ Chris Cornell (Soundgarden e Audioslave)/ J. Geils
Band/ Blue Oyster Cult/ Charles Fox (autor de Killing me
soflty)/  David Brian (Bon Jovi)/ Donald Fagen (Stely Dan)/
Marty Balin e Jorma Kaukonem (Jefferson Airplane)/ Beastie Boys/
Adam Levine (Maroon 5)/ Richard Hell (Television)/ Joey (Ramones)/
Marty Friedman (Megadeth)/ Chris Isaak/ Lou Reed (Velvet
Underground)/ Marc Ratner, etc., etc. </p>
<p align="justify">Judeus também
tiveram um papel fundamental no desenvolvimento das novas técnicas
e tecnologias que estavam surgindo no início do século XX para o
registro de sons, especialmente a partir do advento da
eletricidade. De fato, o primeiro aparelho de registro de som em
discos (gramofone) foi desenvolvido pelo judeu Emil Berliner, que
havia se radicado nos EUA, e que, quando voltou à Alemanha, fundou
a gravadora  Deutsche Grammophon, selo que existe ainda hoje,
e que é especializado em música erudita (durante o período nazista,
o selo foi &ldquo;arianizado&rdquo;). Realmente, a indústria
fonográfica, no início, contou com  importante contribuição
por parte judeus no seu desenvolvimento e consolidação. Alguns
selos fonográficos estavam ligados à indústria de cinema e da
imagem, caso da RCA, da CBS e da Warner. Outros, ainda, foram
surgindo, tais como os <em>labels</em> Verve, Pablo e Blue Note,
especializados em jazz, e outros tais como Chess Records, Geffen
Records, MCA, Arista, Elektra, Atlantic, Rhino, etc., cujas
gravações foram fundamentais para os registros da produção musical
popular americana.  </p>
<p align="justify">É bom
ressaltar que hoje, se formos tentar mapear as características da
música feita pelos judeus no mundo, vamos chegar à conclusão de que
esta é infinitamente multifacetada: além de os judeus estarem
engajados na construção das linguagens musicais autóctones dos
países em que estão radicados, mundo afora, a música feita ao redor
do mundo também influencia enormemente a produção musical do
próprio Estado de Israel.  </p>
<p align="justify">De fato, a
chamada música <em>israeli</em>, composta e executada por músicos
radicados na Terra Santa, é das mais plurais. Tal produção engloba
desde as versões locais para os ritmos ocidentais (tais como o
rock, o blues, o jazz, o reggae, e até mesmo de MPB, etc., etc.),
até os rastros das músicas ídiche e sefaradi, e, muito
especialmente, da música dos países árabes. De fato, a influência
da música feita no Oriente Médio na música judaica moderna,
indiscutivelmente  aprofundou-se a partir da fundação do
Estado Moderno, muito também em face da expulsão de enormes
contingentes de judeus que viviam nos países árabes, em número que,
segundo estimativas, equivale ao de árabes palestinos que deixaram
a Terra Santa quando da invasão desta  pelo exércitos unidos
(Egito, Jordânia, Síria, Líbano, Arábia Saudita, etc.), em 1948,
naquela que foi denominada como &ldquo;Guerra de
Independência&rdquo;. Os chamados judeus orientais (mizrahi),
agregaram fortemente a herança cultural da música que cultivavam
&ndash; em alguns casos, milenarmente - nos países árabes em que
estavam radicados, ao moderno Estado Judaico. Também a imigração de
judeus negros da África para Israel, especialmente os falashas
(que, segundo diz-se, seriam descendentes da rainha de Sabá e do
rei Salomão), trouxe influências da música africana ao cadinho
musical do Estado israelense. Isto além, evidentemente, da própria
influência que a ampla população árabe radicada em Israel oferece.
A música israelense contemporânea, sem esquecer as origens da
música judaica, mas agregando influências da música feita ao redor
do globo, é, sem dúvida, uma das mais variadas, ricas e
polifacetadas de todo o mundo. Neste sentido, basta lembrar que,
por exemplo, Israel é um dos principais pólos da música eletrônica
no mundo, sendo que diversos DJs israelenses têm se apresentado
mundo afora,  vindo inclusive ao Brasil &ldquo;tocar&rdquo; em
festas raves. Podemos indicar como grandes expoentes da moderna
música popular israelense Ofra Haza, Etti Ankri, David D'or,
Matti Caspi, entre muitos outros. Aliás, para quem quiser ter
alguma noção sobre a música judaica mais atual, tanto israeli como
klezmer e sefaradi, um bom início pode dar-se através da escuta dos
lançamentos do selo americano de world music Putumayo (fundado,
aliás, pelo judeu Dan Storber), cujos discos são encontrados nas
Livrarias Cultura, Saraiva e FNAC, e que também são achados pela
internet, inclusive para downloads.    
 </p>
<p align="justify">IMIGRAÇÃO
JUDAICA NO BRASIL </p>
<p align="justify">Com
relação à  imigração judaica ao Brasil, é possível falar
em uma colonização <em>lato sensu</em> e em outra <em>strictu
sensu.</em> Vale dizer, podemos considerar, em sentido amplo, a
imigração judaica iniciada pelos cristãos-novos, ou, em sentido
mais estrito, a daqueles judeus que vieram para o Brasil
especialmente a partir da metade do século XIX, quando o ingresso
desta etnia, publicamente assumida enquanto tal, deixou de sofrer
maiores restrições por parte das autoridades do
império.</p>
<p align="justify">De fato, em
sentido amplo, pode-se dizer que a história do Brasil confunde-se,
em verdade, com a colonização judaica, se levarmos em consideração
que os cristãos-novos, judeus convertidos à força, buscaram refúgio
aqui para as perseguições sofridas na península ibérica, sendo que,
em muitos casos, tentaram retomar sua religião ancestral, de forma
muitas vezes secreta e clandestina, nas novas terras. A ampla
colonização da região pelos cristãos-novos não é um fato aleatório,
pois o descobrimento da América e o do Brasil coincidiram, de forma
quase imediata, com a expulsão dos judeus da Espanha e a conversão
forçada em Portugal, de forma que as novas terras foram um dos
principais refúgios para aqueles que tiveram sua religiosidade de
origem oprimida, ou que, simplesmente, mesmo que relativamente
conformados com a adoção obrigatória da religião cristã, queriam
escapar das perseguições sempre presentes nas metrópoles,
especialmente a partir da consolidação da Inquisição. Assim, e
neste contexto, os cristãos-novos participaram ativamente do
financiamento das expedições portuguesas ao Brasil, e também
tomaram parte diretamente nelas, podendo-se apontar, por exemplo, a
figura de Gaspar da Gama, integrante da tripulação da frota de
Cabral. Já na época da colonização propriamente dita, figuraram com
destaque cristãos-novos tais como Fernando de Noronha, o
bandeirante Raposo Tavares, entre inúmeros outros que povoam a
história do Brasil e figuram abundantemente em nossos livros
escolares. A opção pelas terras brasileiras muitas vezes decorreu
da circunstância de que o simples fato de um judeu ingressar na
cristandade não lhe garantia liberdade pessoal ou mesmo garantia de
vida na metrópole, uma vez que havia uma grande diferenciação
hierárquica entre os cristãos &ldquo;velhos&rdquo; e os
&ldquo;novos&rdquo; dentro das sociedades lusitana e espanhola,
antecipando, em grande medida, o antisemitismo
&ldquo;moderno&rdquo;, de conotações racistas. As acusações dos
cristãos-velhos e da Igreja contra os cristãos-novos, de
infidelidade religiosa e outras &ldquo;perfídias&rdquo;, eram
corriqueiras, movidas por interesses financeiros, inveja, rancor e
fanatismo religioso, dentre outros motivos. Assim, repise-se, o
Brasil foi uma grande opção de refúgio - a princípio seguro - para
os conversos, denominados por seus conterrâneos ibéricos pela pouca
elogiosa expressão &ldquo;marranos&rdquo; (porcos), pelo menos até
que as garras da Inquisição chegassem ao chamado Novo
Mundo.</p>
<p align="justify">É fato que a
maioria dos sobrenomes de colonizadores portugueses é encontrada em
listagens de vitimas da Inquisição no Brasil, em Portugal e na
Espanha.  Isto não deixa de trazer uma grande dificuldade ao
pesquisador, pois, para identificar se a origem de alguém com um
destes sobrenomes é cristã-nova ou velha, muitas vezes é necessário
fazer um levantamento genealógico bastante acurado, incluindo
muitas gerações passadas. Contudo, o certo é que os estudos feitos
por historiadores/pesquisadores especializados  têm apontado
que cerca de 1/3 da população brasileira de origem portuguesa da
época colonial era composta por cristãos-novos e seus descendentes.
Estes imigrantes, acompanhando a própria história da ocupação do
solo brasileiro, no início geralmente  radicaram-se no
Nordeste (Bahia, Pernambuco e arredores). Nesta região,
especialmente, desempenharam um papel fundamental na exploração do
Pau Brasil (chamado na Europa de &ldquo;madeira judaica&rdquo;) e
da cana-de-açúcar, dentre outras atividades. Migraram muitos deles,
posteriormente, para o Sudeste, e para o interior do sertão do
Nordeste, especialmente em face das perseguições religiosas que
começaram a ocorrer também no novo mundo, mormente nas capitais
nordestinas, tendo desempenhado papel primaz na colonização de São
Paulo (muitos dos bandeirantes eram cristãos-novos) e de Minas
Gerais (sua participação no chamado &ldquo;ciclo do ouro&rdquo;
também foi muito significativa).  Esta população, à medida em
que o cerco da perseguição religiosa se estreitou também no Brasil,
através da brutal ação da Inquisição, cada vez mais incisiva,
teve  tolhidas as possibilidades de retornar à adoção de
práticas judaicas, algumas que fossem. De forma que, na medida em
que as gerações de descendentes foram se assomando, poucos traços
destas origens restaram aparentes, embora, em alguns casos,
evidenciem-se em costumes familiares centenários, dos quais, muitas
vezes, sequer os seus praticantes conseguem identificar a origem
exata e a sua razão de ser. Da descoberta de suas origens judaicas
por parte de muitos brasileiros cristãos, tem se consolidado o
fenômeno dos &ldquo;Anussim&rdquo;, ou seja, aqueles que tentam, de
alguma forma, retomar o seu vínculo com a religião de seus
antepassados, ou, ao menos, travar contato com a cultura de seus
ascendentes.  </p>
<p align="justify">Cumpre
ressaltar que grande parte dos sobrenomes de músicos/compositores
brasileiros importantes que povoam a história da música brasileira,
erudita e popular, são também encontrados entre aqueles adotados
pelos cristãos-novos no período colonial. Com isso, repise-se, não
estamos querendo dizer que necessariamente quem tem estes
sobrenomes seja descendente de cristãos-novos, o que, conforme
ressaltado, para ser averiguado de forma conclusiva, demanda
geralmente uma pesquisa detalhada das raízes genealógicas. Mas,
para ter-se idéia a respeito da abrangência desta descendência,
podemos citar um único exemplo, que é, sem dúvida, dos mais
significativos: a ter-se por verdadeira a informação constante do
livro &ldquo;Furacão Elis&rdquo;, de Regina Echeverria, a cantora
Elis Regina, de sobrenome Costa, é descendente de cristãos-novos.
Assim, feitas todas as ressalvas, pode ser de algum interesse
apontar alguns dos inúmeros patronímicos de cristãos-novos, muitos
dos quais secundam os nomes de diversos músicos brasileiros:
Veloso, Seixas, Antunes, Mendes, Costa, Quental, Ribeiro, Silva,
Valença, Ramalho, Rosa, Gonzaga, Vargas, Buarque, Hollanda, Dias,
Pinto, Sampaio, Santos, Barros, Baptista, Franco, Silva, Cardoso,
Bastos, Andrade, Gonçalves, Barbosa, Cortes, Miranda, Souza,
Mesquita, Barroso, Maia, Lopes, Fernandes, Teixeira, Ulhoa, Araújo,
Mesquita, Fonseca, Almeida, Carneiro, Cunha, Nunes, Leão,
Alvarenga, Viana, Jobim, Reis, Coelho, Cordeiro, Freire, Mendonça,
Martins, Bezerra, Veiga, Villela, Tovar, Mendanha, Leitão,
Carrilho, Brito, Ximenes, Peres, Freire, Freitas, Moraes, Ferreira,
Amaral, Azevedo, Abreu, Borges, Chaves, Monteiro, Ribeiro, Moraes,
Freitas, Carvalho, Moraes, Pestana, Duarte, Gonzaga, Galvão, Ramos,
Lago, Gadelha, Ávila, Alencar, Guedes, Valle, Vergueiro, Paes,
Paiva, Aguiar, Sá, Rodrigues, Barbosa, Porto, Furtado, Siqueira,
Brandão, Campos, Cabral, Bastos, Toledo, Telles, Castro, Nobre,
Neves, Machado, Gomes, Cazado, Loureiro, Lima, Lacerda, Coronel,
Medeiros, Moreira, Montes, Moura, Horta, Silveira, Pedrosa, Alves,
Gomes, Limeira, Reis, Cintra, Corrêa, Rocha, Borges, Oliveira,
Pereira, etc., etc.</p>
<p align="justify">Como vê-se, os
sobrenomes de cristãos-novos não se limitam, como inicialmente se
pensava, quando a questão começou a vir à baila nos meios
acadêmicos e na mídia, aos relacionados a árvores e frutos; a bem
da verdade, a grande maioria dos sobrenomes portugueses foram
adotados ou atribuídos aos cristãos-novos. E tudo isto está
amplamente confirmado a partir de estudos e pesquisas realizados em
fontes diversas, e, em muitos casos, a partir de exames diretamente
feitos nos arquivos da Inquisição em Portugal, a partir dos nomes
dos réus arrolados nos processos em que eram acusados de
&ldquo;judaizantes&rdquo;. A professora da USP Anita Novinsky
notabilizou-se nestes estudos, sem dúvida pioneiros, realizados, em
grande parte, na &ldquo;fonte&rdquo;, em Portugal. Também cabe
apontar o trabalho incansável de uma maravilhosa plêiade de
pesquisadores, tais como Paulo Valadares, Rachel Mizrahi, Henrique
Veltman, e instituições como o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro
(que gentilmente colaboraram com nossa pesquisa), Guilherme
Faguelboim, Hélio Daniel Cordeiro, entre muitos outros, que vêm
rastreando as raízes judaicas do Brasil. Além do mais, vários
destes sobrenomes são encontrados ainda hoje em muitos membros de
famílias de judeus sefaradis brasileiras praticantes da religião
mosaica.</p>
<p align="justify">A colonização
judaica no Brasil <em>strictu sensu</em>, a que aludimos acima,
deve ser considerada enquanto tal a partir da abolição da
Inquisição em Portugal pelo Marquês do Pombal. A partir daí, de
forma aproximada, começou  a ser permitida a vinda para o
Brasil de alguns judeus, o que ocorreu especialmente  desde a
metade do século XIX. Radicaram-se no Brasil então judeus franceses
(em geral alsacianos) e alemães, e alguns sefaradis (judeus cujos
antepassados saíram da península ibérica, fixando-se em outras
regiões, justamente quando das conversões forçadas antes aludidas).
A imigração, neste período, foi mais acentuada no centro do país e
na região amazônica (nesta, principalmente por marroquinos).
Pode-se dizer que a partir daí começam a se estruturar as modernas
comunidades judaicas nas principais capitais do país, e em algumas
cidades do interior dos estados, embora o número limitado de seus
integrantes, até, aproximadamente, a década de 30 do século
XX. </p>
<p align="justify">Em termos de
contribuição dada por judeus à música brasileira, em suas mais
variadas tendências (erudita, choro, MPB, rock, jazz, instrumental,
bossa nova, etc.), podemos indicar vários nomes, considerados desde
a época imperial até o momento atual: maestro Isaac Karabtchevski/
maestro Henrique, Eduardo e Jacques Morelembaum/ Louis Moreau
Gottschalk/ Alexandre e Luís Levy/ Haroldo Goldfarb/ Benjamin
Taubkin/ I. Fater/ Henrique, Nelson, Jaques, Michel e Ivan
Nirenberg/ Carlos Acselrad/ Vera Astracan/   Arnaldo
Cohen/ Alberto e Cláudio Jaffé/ Yara Bernette/ Anselmo Zlatopolsky/
Estelinha Epstein/ Clara Sverner/ Jacques Klein/ Salomon Rubin/
Natan Schwartzman/ Eugen Szenkar/ Esther Fuerte Wajman/ Rosinha
Spiewak/ José Alberto Kaplan/ Adolfo Tabacow/ Felícia Blumenthal/
José Kliass/ Martin Krause/ Anna Stela Schic/ Henrique Fedorowsky/
Marcelo Wrona/ Lanny Gordin (guitarrista fundamental na Tropicália,
que tocou com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa)/ Maurício
Einhorn (um dos mestres da bossa nova)/ Tico Terpins (os Baobás e
Joelho de Porco)/ Daniela e Netty Spielman/ Sheila Zagury/ Marcelo
Fromer (Titãs)/ Frejat (cujo pai é árabe e a mãe judia)/ George
Israel (Kid Abelha)/ Elias Mizrachi (Veludo)/ Ricardo Guinsburg
(Equipe Mercado)/ Abrão Levin (Kafka)/ Elias Glik (AgentSS)/ Paul
Liberman/ Leonardo e Alexandre Bursztyn (Móveis Coloniais de
Acaju)/ Maurício Duek/ Jean, Joana e Paul Garfunkel/ Henrique e Léo
Gandelman/ Roberto Sion/ Ithamara Khorax/ Kátia Bronstein/ Flora e
Yana Purim/ Jorge Mautner/ David Tygel (Boca Livre)/ Jacob do
Bandolim (Pick Bittencourt)/ Michel e Bernardo Bessler/ Hélio
Ziskind (grupo Rumo)/ Tânia Grimberg/ Cláudio Goldman/ Juca Chaves
(Jurandir Czackes)/ Michel Freidenson/ Arnaldo Niskier (letrista)/
Morris Albert (Maurício Alberto Kaiserman)/ Ivo e Mauro Perelman/
Sacha Amback/ Alberto Rosenblit/ Daniel Stein/ Michel Haran/ Walter
Weisflog/ Kid Vinil (Magazine)/ Juca Chaves (Jurandir Chakes)/ Ari
Borger/ Sara Cohen/ Cláudio Cohen/ Ricardo Herz/ Roberto Ring/
Eduardo Faigemboim/ Lívio Tragtenberg/ Tuna Dwek/ Patti Ascher/
Henrique Vogeler/ Ronaldo Lupo/ Ronaldo Serruya (letrista)/ Gustavo
Rosenthal/ Claudio Besnos/ Ilana Hazan/ David Assayag/ Silvia
Ocougne/ Carlos Slivskin/ Henrique Levy/ José Kliass/ Ludmila
Ferber/ Roberto Fuchs/ Alberto Rosenblit/ Abrão Altegauzen/ Gustavo
Kurlat/ Estela Govssinsky/ Gabriel Levy/ Daniel Szafran/ Marcelo
Cohen/ Pipo Gratz/ Sérgio Scliar/ Eduardo Hazan/ Renata Jaffé/
Marcelo Jaffé/ Yael Pecarovich/ Marcelo Berman/ Denny Kessaus/
Roberto Kauffman/ Daniel Szafran/ Martin Sarrasague/ Ruben Feffer/
Marcelo Guelfi/ Nicole Borger/ Sima Halpern/ Vicente Falek/ Tânia
Novak/ Varda Usiglio/ Clarita Paskin/ Tânia Grimberg/ Patty Ascher/
Jerzy Milewsky/ Gabriela Geluda/ René Bensausson/ Cláudio Weizmann/
Sheila Hannuch/ Ary e André Sperling/ Bia e André Grabois/ Bruno
Golgher/ Adolfo Tabacow/ Marcus Nissensohn/ Walter Burle Marx/
Michelli Livchitz/ Bernardo Segall/ Anselmo Zlatopolsky/ José
Alberto Kaplan/ Hélio Bobrow (presidente da Hebraica &ndash;SP)/
Simon Blech/ Sonia Goussinsky/ Manu Lafer/ Jacques Sasson e Roberto
Livi (ambos da jovem guarda)/ Bernardo Katz/ Maria Luiza
Corker-Nobre/ Felipe Lozinsky/ Cliff Korman/ Martin Sarrasaguem/
Siney Waissmann/ Cenira Schreiber/ Daniel Kacelnik/ Jair Bloch/
Rubem Feffer/ Gabriela Hess/ Sami Douek/ Pedro Bronfman/ César
Lerner/ Horácio Schaefer/ Márcia Salomon/ Sima Halpenr/ Abigail
Wimer/ Renato Cohen/ Rodrigo Paciornik/ Régis Karlik/ Lev Veksler/
Régis Karlik/ Eliah Sakakushev/ Marcelo Moguilevsky/ Miriam
Weitzman,  etc., etc. Também dedicaram-se à propagação da
música judaica, os grupos Mawaca e Celebrare, dentre
outros. </p>
<p align="justify">No campo da
música típica, em seus vários matizes, podemos citar os seguintes
nomes: Fortuna (música sefaradi), Paulinho Rozembaum (que mistura
samba e outros ritmos brasileiros com temas ortodoxos judaicos), e
os grupos de música ídiche/klezmer Azdi, Zemer, Klezmer 4, Duo
Klezmer, dentre outros. O Coral Israelita Brasileiro, de longa
atuação, também deve ser destacado, assim como o Coral da Sociedade
Hebraica de Niterói, o Coral Litúrgico da CIP, o Coral Sharsheret
(WIZO-SP), e a Orquestra Jovem das crianças da CIP, dentre outras
formações. </p>
<p align="justify">Também cabe
apontar a figura de Fred Figner, fundador da Casa Édison e da
gravadora Odeon, responsável pelas primeiras gravações de música
brasileira no século XX. De fato, Figner pode ser considerado como
um dos principais nomes da história da indústria fonográfica
brasileira, fundamental para o seu desenvolvimento. Outras
gravadoras também desempenharam ou desempenham um papel importante
no mercado fonográfico brasileiro, tais como a Companhia Industrial
de Discos (CID) de Herman e Harry Zuckerman, a Revivendo Discos (de
Leon Barg) e a Rozemblit (selo de Recife, responsável pelo
lançamento de grande parte da produção musical de Pernambuco e do
Nordeste, e inclusive pelos primeiros discos da chamada
&ldquo;psicodelia nordestina&rdquo;, de Zé Ramalho e cia.), e a
Abril Music, do grupo editorial dos Civita.  </p>
<p align="justify">Cabe destacar
aqui a figura do crítico e historiador musical Otto Maria Carpeaux,
outro dos &ldquo;presentes&rdquo; de Hitler à cultura brasileira,
cujos livros são obras indispensáveis para quem quer aprofundar-se
no campo dos estudos teóricos sobre a música erudita. O escritor
Hugo Schlesinger também dedicou-se a escrever sobre música, o mesmo
acontecendo com Cláudio Galperin, dentre tantos outros.
 </p>
<p align="justify">A atuação do
produtor musical Carlos Alberto Sion, no campo da MPB e do rock
brasileiro, é  das mais importantes. Outrossim, Roberto
Medina, criador do &ldquo;Rock In Rio&rdquo;, é figura de grande
destaque na área da produção de shows musicais. Vários outros
produtores destacam-se semelhantemente neste campo. 
 </p>
<p align="justify">Cumpre
destacar, ademais, a atuação de vários judeus no rádio e na
televisão, que, em seus respectivos programas, abrem espaços para a
música, em maior ou menor grau: Sílvio Santos (Senior Abravanel,
criador do SBT), Serginho Groisman, Luciano Huck, Didi Wagner, Kid
Vinil, etc. O apresentador infantil Daniel Azulay também é músico.
 </p>
<p align="justify">A revista e TV
Manchete também abriram importantes espaços para a divulgação da
música. A editora Abril, da mesma forma, vem se destacando pela
atenção que tem dado à divulgação da história musical, sendo
clássicas diversas de suas coleções, como as que abordam a história
da MPB, do jazz, da música erudita, etc.  </p>
<p align="justify">O cineasta Jom
Tob Azulay desempenhou um papel importante no registro visual da
música brasileira, sendo o responsável pelo clássico documentário
&ldquo;Os Doces Bárbaros&rdquo;, show que reuniu os baianos
tropicalistas (Caetano, Gil e Gal, e mais
Bethânia). </p>
<p align="justify">A advogada
Débora Sztajnberg, especializada na área de direitos autorais,
é presidente da ABRAFIN, associação brasileira de festivais
independentes. </p>
<p align="justify">É importante
lembrar aqui a significativa contribuição que os clubes e
associações judaicos deram e dão à difusão da música, em suas mais
variadas formas, abrindo espaços não apenas para apresentações
voltadas à comunidade judaica, mas também para a comunidade mais
ampla. Basta lembrarmos que o primeiro show em que foi utilizada a
expressão &ldquo;Bossa Nova&rdquo;, para definir os artistas que
iriam se apresentar em uma noitada musical, foi na sede da Grupo
Universitário Hebraico, do Rio de Janeiro. Neste sentido, no centro
do país é destacada a atuação de clubes tais como a
&ldquo;Hebraica&rdquo;, bem como  do Centro de Cultura
Judaica, dentre outras entidades.  
 </p>
<p align="justify">IMIGRAÇÃO
JUDAICA NO RIO GRANDE DO SUL 
 </p>
<p align="justify">No caso
específico do Rio Grande do Sul, a imigração, então ainda bastante
rarefeita, começou pelo sul do Estado, região que foi uma das
primeiras a ser ocupada territorialmente de forma mais efetiva no
extremo sul do país. Assim, especialmente a partir do final do
século XIX, começaram a surgir alguns judeus em Pelotas, Rio
Grande, e outras cidades da chamada região sul do Estado, e logo
aportam outros em Porto Alegre, tanto ashkenazis quanto sefaradis.
Contudo, a imigração judaica no hemisfério sul da América teve
realmente como seu grande impulso o fato de o Barão Maurice de
Hirsch ter adquirido colônias agrícolas na Argentina, no Uruguai e
no Rio Grande do Sul, numa tentativa de salvar alguns judeus
assolados pelos pogroms na Rússia e nas regiões eslavas, no início
do século XX, fixando-os como agricultores no Novo Mundo. Assim, em
1903 foi criada a primeira colônia agrícola da ICA (Jewish
Colonization Association) no Brasil, em Filipson, fazenda
localizada hoje no município de Santa Maria, tendo se radicado ali
algumas famílias da Bessarábia. Posteriormente, nas cercanias dos
atuais municípios de Erechim, Getúlio Vargas e Passo Fundo, na
fazenda Quatro Irmãos, foram criadas outras colônias agrícolas,
tais como as de Barão Hirsch e de Baronesa Clara  (este último
nome foi dado em homenagem à esposa do Barão, e a colônia também é
conhecida como Chalé; foi ali que se fixou meu bisavô materno,
Isaac Schuchman e família, incluindo minha avó, Maria
Ratner).</p>
<p align="justify">Devido a uma
série de fatores, dentre eles a má qualidade do solo, que
resultou em várias colheitas frustradas, as pragas que consumiram
lavouras e abateram os animais, a inexperiência em atividade
agrícola de alguns colonos (embora vários deles já exercessem a
agricultura na Europa, caso de meu bisavô), e, especialmente, o
advento da Revolução de 1923 (e depois da de 1930), em que as
colônias foram assaltadas e saqueadas pelas tropas em conflito -
chegando a ter sido morto um dos colonos -, fatos que trouxeram à
lembrança dos moradores as perseguições infligidas aos judeus pelos
cavaleiros cossacos, boa parte deles passou a fixar-se nas cidades
do entorno das colônias;  outros, ainda, vieram a estabelecer
residência em várias cidades do interior do RS, e também na capital
do Estado. Até hoje, contudo, boa parte das terras adquiridas pela
ICA é de propriedade de fazendeiros judeus (um dos quatorze irmãos
de minha avô, o &ldquo;Tio Chico&rdquo; Schuchman, esteve à testa
de suas terras até falecer, há uns anos atrás). A vinda destes
colonos para a capital do Estado &ldquo;engrossou&rdquo;
sobremaneira a comunidade já instalada aqui (que contava
especialmente com ashkenazis, mas também com alguns sefaradis),
gerando ou fortalecendo a maioria das instituições que até hoje se
mantém ativas na comunidade judaica gaúcha (Colégio Israelita
Brasileiro, sinagogas, cemitérios, clubes sociais, movimentos
juvenis, e a própria Federação Israelita). A estes foram se
somando, lá pelos anos 20 e 30, rapazes solteiros e alguns casados
vindos da Polônia e cercanias, que, trabalhando em atividades
geralmente braçais, e, especialmente, no pequeno comércio
ambulante, conseguiram juntar algumas economias, de forma a
possibilitar o envio das &ldquo;cartas de chamada&rdquo; a
familiares que haviam ficado na Europa (foi o caso de meu avô
paterno, Aron Isaac Kirschbaum, que chegou sozinho a Porto Alegre,
e, mascateando, conseguiu juntar o suficiente para trazer a família
que havia ficado em Sokal, na Polônia, por navio, incluindo o meu
pai, Joel Kirschbaum, então com quatro anos). Com o advento do
nazismo, começaram a aportar também na capital gaúcha judeus
alemães, que, embora geralmente tivessem um nível social,
intelectual e cultural bem mais elevado em seu país de origem, em
relação aos judeus do leste europeu, aqui passaram grandes
dificuldades para reestruturar suas vidas, espoliados que foram
pelos nazistas. Após o Holocausto, alguns poucos sobreviventes
vindos da Europa também chegaram a fixar-se aqui. E, com a
perseguição ocorrida nos países árabes, acirrada
especialmente  a partir da criação do Estado de Israel, 
judeus sefaradis, vindos em sua maioria do Egito, completaram uma
das últimas ondas imigratórias de maior expressão, assomada nos
anos posteriores por alguns migrantes vindos de outras partes do
Brasil, e, ainda, por outros imigrantes chegados da Argentina e do
Uruguai. Esta é a origem, em linhas gerais, da comunidade judaica
gaúcha atual, que, naturalmente, dá substrato e lastro à
contribuição feita por elementos a ela vinculados à música do sul
do país,  que pretendemos agora abordar.  
 </p>
<p align="justify">No campo da
música erudita, temos figuras de grande importância. Alguns são
descendentes dos primeiros colonos; outros, vieram para a América
do Sul e o Brasil escapando das hordas nazistas, e já atuavam
profissionalmente como músicos em seus países de origem,
especialmente na Alemanha e na Hungria. Podemos citar, então, nomes
tais como o do maestro Pablo Komlós, que organizou a Ospa
(Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) quando de sua formação, e
esteve à sua testa como regente por décadas; o do maestro Hans
Henrich Peyser (que atuou à frente da orquestra da Rádio
Farroupilha); os de Roberto Szidon, Flávio Chamis (que também foi
maestro da Ospa),  Ida Weisfeld, Boris Waiss, Helena Wainberg,
Dirce e Carla Knijnik, Nei Fialkow, Esther Scliar, Maly Weisenblum,
Norberto Zuckerman, Rodolfo e Gertrudes Meyer, Guilherme Goldeberg,
Maurício Starosta, Daniel Wolff, Marcelo Guerchfeld, Alexandre
Starosta, dentre outros.</p>
<p align="justify">Cumpre
ressaltar que a Ospa já contou com três regentes judeus: além
de Pablo Komlós e Flávio Chamis, atualmente está à sua testa Isaac
Karabtchevsky. </p>
<p align="justify">Em termos de
música popular, a contribuição judaica ao universo musical gaúcho
foi/é  das mais importantes. De fato, em praticamente todos os
movimentos e tendências relevantes da história da MPB e da música
gaúcha, vamos encontrar representantes judeus dando a sua dose de
contribuição. Assim é que, por exemplo, na &ldquo;velha
guarda&rdquo;, encontramos nomes como o do compositor Jayme
Lubianca, que compôs a clássica &ldquo;Porto dos Casais&rdquo;,
gravada por inúmeros cantores, inclusive por Elis Regina e Sílvio
Caldas. Destacaram-se também a orquestra de jazz de Maurício Kahan,
e Maurício Kothlar, saxofonista que participou da orquestra de
Paulo Coelho, este um dos mais destacados nomes da cena musical
gaúcha da primeira metade do século XX. O pianista Herbert Gehr
igualmente foi muito atuante. Os Pipinelas, grupo dos pais e do tio
de Cláudio Levitan, também marcaram presença, especialmente
animando festas (Cláudio, aliás, no CD &ldquo;Minha longa
milonga&rdquo;, fez uma tocante homenagem ao primo do pai, morto no
Holocausto na Lituânia, misturando ritmos próprios da música
gaúcha, como a milonga, com elementos da música ídiche). Na bossa
nova, temos compositores tais como César e Paulo Dorfman, e Manoel
Chotguis (que formavam o Grupo Mutirão, com José Sinovetz, Alberto
Gropocopatel, Moisés do cavaquinho, Renato Axelrud, mais Ivaldo
Roque). Simão Goldman compôs o clássico &ldquo;Hino ao Rio
Grande&rdquo;, interpretado por ninguém mais, ninguém menos, que o
&ldquo;papa&rdquo; do tradicionalismo regionalista, e mentor dos
CTG's, Paixão Côrtes, que serviu de modelo à estátua do
laçador, símbolo universal do gaúcho. Em termos de rock
sessentista, por exemplo, podemos apontar os Bachfuls (banda que se
formou no CIB, de que participou Cláudio Levitan). Mas é, sem
dúvida, no campo do rock gaúcho, do jazz e da MPB, considerados
especialmente a partir dos anos 70, que vamos encontrar uma grande
participação dos netos e bisnetos dos primeiros imigrantes: Levitan
e os Tripulantes (Cláudio e Karina Levitan)/ Charles Master e Nei
Van Sória (ambos do TNT)/  Frank Franklin/ Ilan Himelfarb/ Os
Eles - Leandro Branchtein, Régis Dubin (posteriormente da Off the
Wall), Darwin Gerzson, Léo Henkin (atualmente no Papas da Língua),
Dannie Dubin)/  Carlos Maltz (Engenheiros do Hawaii)/ Grupo
Ensaio - Mauro Rotenberg, Beto Rotenberg, Breno Starosta, Ricardo
Faertes, Keko, José Irineu Golbspan/ Marisa Rotenberg/ Luisinho
(Kruter) Santos/ Rogério Hochlitz/ Dzaghury/ Sidnei Schames
(Sidito, atualmente na Sombrero Luminoso)/ Cláudio Spritzer (Banda
de Banda, editor do jornal Hienas)/ Eliane Strazas/ Os Dorfman:
Paulo, César, Charlote, Michel, Jorge, Lúcio (ex-Engenheiros do
Hawaii)/ Daniel Tessler (Os Efervescentes)/ Lúcio Chachamovich
(Miscelânea K)/ Márcio Grobocopatel (Ultramen)/ Nico Nicolaiewsky
(Saracura/ Tangos e Tragédias)/ Renato Cohen (Motivos Óbvios)/
Arthur Nestrowsky/ Cláudio Bonder (da banda Nethra, e que foi
chazan da SIBRA por muitos anos)/ Sérgio Olivé/  Rogério
Goldman/ Edu Kautz (DJ)/ Clarah Averbuck (mais conhecida como
escritora)/ Israel Tchernin (o Suli, que foi meu professor de
música <em>israeli</em> no CIB, e que está radicado há tempos em
Israel, onde mantém um conjunto de MPB)/ Mauro Kwitko/ Roberto
Meimes (Doctor Jazz band)/ Celso e Fábio Iuck/ Paulo Brody
(10000KPNR)/ Philip Braunstein/ Luis (Neco) Turkienicz/ Dan Berger/
Gilberto (Giba) Skolnikov/ Joel Faerman/ Fernando Maltz/ Clóvis
Soibelman/ Guilherme Procianoy/ Banda Selton &ndash; Ramiro Levy,
Daniel Plentz, Eduardo Dechtliar, Ricardo Fischmann/ Fábio Milman/
Gustavo Hercovits (Os Torto)/ Marcelo Citrin/ Paulina Nudelmann,
dentre tantos outros.  </p>
<p align="justify">A atuação de
apresentadores, radialistas e locutores judeus em programas de
rádio e televisão, de auditório e de estúdio,
também é relevante. Basta lembrar dos nomes de Maurício
Sobrinho (Sirotsky, fundador da RBS),  Pedrinho Sirotsky (com
seu antológico &ldquo;Transasom&rdquo;), Hélio Wolfrid, Guilherme
Sibemberg, Gildo e Túlio Milman, Jayme Copstein, dentre muitos
outros. Júlio Rosenberg, gaúcho de Pelotas, que por muitos anos
esteve radicado no centro do país (até voltar, no início dos anos
70, ao sul), foi um dos apresentadores de programas de auditório
mais importantes do país, sendo um dos primeiros a abrir espaços
para a ainda não assim denominada &ldquo;jovem guarda&rdquo;, nas
figuras dos então iniciantes Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa,
Jerry Adriani, etc.  </p>
<p align="justify">Cumpre
ressaltar também a importantíssima atuação do ator Aron Menda e de
dona Eva Sopher, à testa do Theatro São Pedro, a centenária e
mais importante casa de espetáculos do RS. Dona Eva, que já
desenvolvia um importante papel na difusão da música erudita no RS,
por estar à frente aqui da &ldquo;Fundação Pro-Arte&rdquo;, foi a
&ldquo;grande timoneira&rdquo; da reforma que reergueu o teatro
centenário, e está à testa de sua ampliação, consubstanciada no
&ldquo;multipalco&rdquo;. Impende sublinhar a circunstância, a par
de várias outras, de que, sob sua gestão, diversos projetos
culturais importantes, gratuitos e abertos ao público em geral,
foram criados, ampliando o contato da população em geral com esta
casa de espetáculos que, tradicionalmente, era bastante associada
como espaço privilegiado da elite,  abrindo igualmente
oportunidades a um grande número de artistas locais. Vale invocar,
neste sentido, os projetos &ldquo;O Choro é livre&rdquo;,
&ldquo;Blue Jazz&rdquo; (de que participei algumas vezes) e
&ldquo;Música ao meio-dia&rdquo;, dentre outros.  
 </p>
<p align="justify">Herbert Caro,
além de ser um dos principais tradutores da literatura de língua
alemã  (especialmente Thomas Mann), era grande conhecedor de
música erudita, e mantinha uma importante coluna no Correio do
Povo, então o maior jornal gaúcho. Caro foi um dos integrantes da
comissão que fundou a Ospa. O advogado Miguel Weisfeld foi diretor
e fundador da Ospa. Rubem Oliven também merece destaque pelos
livros e artigos que escreveu sobre a música popular brasileira.
Maurício Rosenblatt, nome que se imortalizou em relação ao mercado
literário gaúcho e brasileiro, em vista de sua atuação junto à
Livraria do Globo e outras editoras, tendo sido um dos
idealizadores da Feira do Livro de Porto Alegre, antes de
dedicar-se ao mercado das letras teve também atuação destacada no
ramo da comercialização de aparelhos fonográficos, tendo gerenciado
a Casa Victor,  loja importantíssima para o desenvolvimento do
mercado fonográfico e inclusive da radiodifusão na capital gaúcha.
No campo do jornalismo cultural, temos nomes como o de Fábio
Prikladnichi, que atuou na revista Aplauso. </p>
<p align="justify">No mercado
fonográfico, deve ser sublinhada a atuação da gravadora RBS Discos,
que deu uma importantíssima contribuição ao registro de diversos
trabalhos no campo da música popular (MPB, rock e nativismo) e
erudita. Mais recentemente, o selo Orbeat, dedicado ao pop rock
gaúcho, desempenhou um forte papel. A gravadora Kives também
realizou alguns lançamentos de música popular
gaúcha. </p>
<p align="justify">Naturalmente,
o papel desempenhado pela RBS, através de seus diversos veículos
(jornais como Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, Diário
Catarinense, etc.; rádios como a Gaúcha, Farroupilha, Atlântida,
Cidade, Porto Alegre; canais de TV como a RBS TV &ndash; antiga TV
Gaúcha &ndash; e a TVCOM), é de grande importância para o universo
da música feita no RS. </p>
<p align="justify">Também
destacam-se produtores que atuam no campo da música, tais como
Ilton Carangacci, e de Renato Sirotsky, responsável pela
organização do Planeta Atlântida, da Rádio Atlântida FM
(RBS). </p>
<p align="justify">Cabe apontar
também lembrar dos programas de rádio especificamente voltados
à comunidade judaica gaúcha, veiculados, no mais das vezes, em
emissoras de grande expressão, e alguns casos ocupando horários
nobres, que tomaram para si a tarefa de  difundir a cultura
judaica junto a seus membros e também à divulgação desta mesma
cultura ao público em geral. O principal deles, e que até hoje vem
prestando um serviço imensurável à comunidade do RS, é a
&ldquo;Hora Israelita&rdquo;, que já passou por várias emissoras. O
programa, ao longo do tempo, foi comandado por diversos locutores
membros da comunidade judaica gaúcha, que, apesar de geralmente
serem amadores, fizeram sempre um trabalho radiofônico da melhor
qualidade. Aproveitamos para homenageá-los na figura do querido
professor David Iasnogrodsky, que, por exemplo, concedeu-me a honra
de um convite para ser entrevistado nos microfones da Rádio
Princesa (Jornal do Comércio) em uma ocasião. O programa, de fato,
sempre abriu espaço para a música feita por membros da comunidade
judaica gaúcha, além de veicular muita música ídiche e israeli.
Atualmente, é apresentado por Roberto Schotkis (Betão), meu
contemporâneo do CIB e da Faculdade de Direito da UFRGS. 
 </p>
<p align="justify">Igualmente,
merecem ser destacadas as formações musicais constituídas dentro da
comunidade judaica, para o seu consumo interno, e, eventualmente,
externo, tais como, por exemplo: a Orquestra de Baronesa Clara
(formada  pelos filhos dos primeiros colonos, e que animava as
festividades na colônia),  o Coro de Passo Fundo (organizado
por Samuel Chmelnitzki), o Conjunto Shalom (do CIB), o Coral Viva
Vida, o Coral Zemer (das Pioneiras), o Coro da Sibra, o Grupo
Lechaim, dentre outros. Também merecem ser lembrados, pela sua
atuação em eventos e festas da comunidade, os irmãos Menashe e
Bioniomin Roitman, e Busi Trachtenberg. Cabe também aqui invocar os
nomes dos regentes de coros, como Josef Neumann, Werner e Kurt
Katz.  </p>
<p align="justify">Vale
registrar, naturalmente, a atuação destacada de inúmeros chazanin
que atenderam à comunidade judaica nas sinagogas e nos
serviços religiosos do RS. Seria evidentemente impossível listar
todos aqueles que atuaram no comando dos serviços religiosos das
diversas sinagogas ao longo de praticamente um século, mas podemos
citar, à título de exemplo, os nomes de  Benzion Spritzer,
Abrão Chuchman, Henrique Soibelman, Maurício Laks, David
Eizerik,  Rubens Turkienicz, Ricardo Brozensky, Moacir
Sibemberg, Benjamin Strazas, Isaac Rubinstein, Júlio Glock, dentre
tantos outros. A SIBRA, - sinagoga de rito liberal que congrega os
judeus de origem alemã -, muito especialmente vem se destacando
pela grande qualidade musical de seus serviços religiosos, que
contam com chazanim (cantores) e instrumentistas de grande
desenvoltura. Se formos homenagear a todos os chazanin em um nome,
Jacob Citrin, sem dúvida, merece sê-lo, por tratar-se de uma grande
figura humana, dotada de muito humor e afeto. Quando do falecimento
de meu pai e de meu avô, em um período em que compareci à sinagoga
do Centro Israelita, a fim de realizar as rezas em sua homenagem,
pude privar um pouco do convívio deste grande personagem, algumas
vezes descendo a rua Fernandes Vieira orgulhosamente de braços
dados com este ícone do judaísmo gaúcho, que deixou muitas
saudades. 
 </p>
<p align="justify">Cumpre
ressaltar que o teatro ídiche exerceu um papel muito importante
para a coesão e a confraternização da comunidade judaica do RS ao
longo do século XX, especialmente até os anos 60. Seguidamente, a
comunidade se mobilizava para trazer à capital gaúcha artistas e
companhias de teatro ídiche internacionais, lotando as dependências
do Theatro São Pedro. Aliás, os levantamentos acerca do conjunto
dos espetáculos realizados no Theatro, até o seu fechamento para
reforma, indicam que o teatro ídiche foi uma das atividades de
maior constância e sucesso de público. Aos artistas destas
companhias, muitas vezes, acresciam-se artistas amadores locais,
que compunham o elenco. Como é sabido, e já ressaltamos
anteriormente, a música é um dos elementos mais importantes na
estética do teatro ídiche. Espetáculos do gênero também eram
realizados no Círculo Social Israelita e no Centro Israelita.
 </p>
<p align="justify">Em termos de
espaços culturais, diversas salas vinculadas à comunidade
judaica exerceram um papel relevante dentro do cenário cultural de
Porto Alegre. O Clube de Cultura e o teatro do Círculo Social
Israelita deixaram a sua marca como importantes locais para a
difusão da música feita na capital gaúcha, abrindo espaços para
muitos artistas, especialmente no campo da música popular.
 </p>
<p align="justify">O Círculo
Social Israelita, pode-se dizer, desempenhou o papel mais
importante em termos sociais dentre os clubes da comunidade judaica
gaúcha (além dele, havia o Grêmio Esportivo Israelita, mais
centrado no esporte, que foi fundido ao mesmo, formando a
Hebraica,  e o Campestre, cuja atuação continua considerável).
Os bailes do clube eram muitíssimo concorridos, até pelo menos os
meados dos anos 70. Nestes bailes, em que geralmente eram
contratados para a animação conjuntos consagrados da capital
gaúcha, muitas vezes ocorriam shows de grandes nomes da música
brasileira e até internacional. Passaram pelo palco do clube nomes
bastante famosos, no auge de sua fama, tais como Chico Buarque,
Jorge Ben, Eliana Pitman, Wilson Simonal, Malcom Roberts,
etc.   </p>
<p align="justify">O CIB (Colégio
Israelita Brasileiro) chegou a realizar alguns festivais de música,
sendo que determinados eventos foram abertos à participação da
comunidade gaúcha em geral. Estes festivais foram importantes como
espaços de abertura aos músicos então iniciantes. Nico
Nicolaiewsky, por exemplo, foi o vencedor do festival de 1974. O
CIB, aliás, sempre teve como proposta proporcionar aos alunos, em
alguma medida, o contato com a música, não apenas judaica, mas
também gaúcha,  brasileira e  universal. Só para dar um
exemplo, assisti, como aluno, um célebre show de Teixeirinha e Mery
Terezinha, ícones maiores da música regional gaúcha, no auditório
do colégio. Também era costumeiro assistirmos a apresentações da
OSPA. Esta proposta continua sendo levada a efeito nos tempos
atuais, estimulando a criação musical e artística do corpo discente
(aliás, cabe dizer que foi num concurso de músicas sobre a
poluição, feito em minha turma, que pela primeira vez experimentei
compor uma música e me apresentar em público, numa parceria
&ldquo;vencedora&rdquo; com o meu amigo e colega Joel Fridman, hoje
presidente da Hebraica-RS).  </p>
<p align="justify"> </p>
]]></description>			<link>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/210485/A-contribui-o-judaica-m-sica-ga-cha-parte-1-veja-a-continua-o-em-seguida/</link>			<comments>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/A-contribuic-o-judaica-a-m-sica-ga-cha--parte-1---veja-a-continuac-o-em-seguida--22102009-233619-lp-210485.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://bandasdorockgauchoforever.musicblog.com.br/210485/A-contribui-o-judaica-m-sica-ga-cha-parte-1-veja-a-continua-o-em-seguida/</guid>			<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 23:36:19 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Uma "banda" pela noite de Porto Alegre]]></title>			<description><![CDATA[<p>  Uma &ldquo;banda&rdquo; pela noite de Porto
Alegre </p>
<p>por Rogério
Ratner 
 </p>
<p align="justify">A noite de Porto
Alegre, atualmente, é bem diversificada, havendo inúmeras
opções em termos de bares, restaurantes, casas noturnas, cafés,
etc. Além disso, a capital gaúcha tem recebido uma infinidade de
shows musicais dos mais diversos estilos, inclusive internacionais,
reunindo uma ampla gama de atrações não raramente na mesma data.
Como se diz, aqui em Porto atualmente &ldquo;há para todos os
gostos&rdquo;. Uma constatação que faço, contudo, é a da grande
volatilidade dos estabelecimentos noturnos em nossa cidade.
Inúmeras casas e endereços vão surgindo continuamente, mas o
desaparecimento da grande maioria em geral também não tarda. Assim,
a memória da vida noturna da capital gaúcha vai vivendo apenas nas
lembranças afetivas de quem freqüentou determinadas casas, que, não
raro, desaparecem sem deixar rastros palpáveis. Por isso, pretendo
aqui relembrar alguns locais que invocam boas lembranças, e que
freqüentei especialmente a partir dos anos 80, período em que vivi
o final da adolescência e o início da vida adulta propriamente
dita, com o objetivo de fazer os meus contemporâneos
&ldquo;viajarem&rdquo; um pouco no tempo, e de os mais novos
conhecerem um pouco do que havia em termos de noite em Porto
Alegre. Cabe esclarecer desde logo que não tenho a pretensão de
fazer aqui um estudo sobre a noite da capital gaúcha, mas apenas
apontar alguns lugares legais que conheci. Neste ponto, é preciso
deixar claro também que, obviamente, havia uma infinidade de outras
opções de lugares pra ir, mas que, por uma razão ou outra, eu não
freqüentava, de modo que este retrato é limitado e parcial. É
necessário considerar que a freqüência a estes lugares que vou
mencionar estava vinculada ao meu perfil pessoal no período, e que,
naturalmente, orientava minhas escolhas e gostos. Assim, estavam
mais ligados às minhas áreas de interesse, especialmente a música,
e ao meu perfil sócio-econômico-cultural, de estudante da UFRGS
vindo da classe média baixa.  </p>
<p align="justify">Eu morava na rua
Jacinto Gomes, portanto, em plenos limites do bairro Bom Fim.
Geralmente, quando ia sair, eu estabelecia uma espécie de roteiro,
sendo que havia duas direções básicas: o Bom Fim ou a Cidade
Baixa.</p>
<p align="justify">No  início dos
80, o Bom Fim vivia repleto de jovens, a lotar seus bares e povoar
suas calçadas, reunindo uma &ldquo;fauna&rdquo; especialmente na
Av. Oswaldo Aranha, que incluía o pessoal universitário (então
fortemente engajado na luta pelo fim da ditadura militar), os
roqueiros (punks, metaleiros, new wavers, góticos, rockabillys, e o
que mais fosse), e mais uma multidão meio indefinível, que de uma
certa forma ecoava o rescaldo dos hippies, incluindo usuários de
drogas e grandes consumidores de álcool, que nós, os
&ldquo;engajados&rdquo;, costumávamos chamar de
&ldquo;lumpens&rdquo; e alienados. Para o pessoal mais
&ldquo;cabeça&rdquo;, de viés intelectualizado, havia o grande
atrativo do cinema, especialmente o Bristol, que ficava nos altos
do cine Baltimore, na Oswaldo. Assisti, ao lado de muitos
universitários contemporâneos, inúmeros filmes no cineminha que era
totalmente &ldquo;cult&rdquo;, e que muitas vezes realizava ciclos
focando determinados cineastas, sendo responsável por formar uma
legião de espectadores voltados ao &ldquo;cinema de arte&rdquo;. Vi
ali ciclos e filmes de Godard, Glauber Rocha, Truffaut, Tarkowsky,
Orson Welles, Eisenstein, etc., etc. O Cinema 1 &ndash; Sala Vogue,
na Avenida Independência (alto Bom Fim) também era muito
frequentado por aquela parcela da juventude, e igualmente
notabilizava-se por exibir filmes de arte. Aliás, numa das últimas
vezes que fui àquela sala, antes de a mesma ser fechada, aconteceu
uma história bem engraçada, da qual eu e minha mulher sempre rimos
quando lembramos: estávamos vendo o filme &ldquo;Nouvelle
Vague&rdquo;, de Godard. Trata-se, sem dúvida, de um dos filmes
mais confusos deste diretor que, de resto, sempre cultuou um estilo
intrincado e obtuso. Ninguém tava gostando, mas não era de bom tom
sair no meio da sessão, era quase uma &ldquo;heresia&rdquo;, e
ninguém queria &ldquo;pagar o mico&rdquo; de ser visto saindo do
cinema antes do fim. O filme arrastava-se indefinidamente, sem pôr
fim à agonia dos espectadores. Eis que um corajoso se levantou, ao
que todo mundo lhe voltou o olhar, em grave desaprovação... o
sujeito, então, começou a gritar bem alto, &ldquo;o que que é, este
filme é uma bosta, vocês não tem coragem de levantar, é porque são
uns trouxas, se acham muito inteligentes, etc., etc&rdquo;, para o
espanto e a gargalhada geral. Aliás, os filmes de Godard me fizeram
passar por bons &ldquo;micos&rdquo;. Participei da famosa passeata
organizada pelo DCE da UFRGS contra a proibição do filme &ldquo;Je
Vous Salue Marie&rdquo;, cuja exibição foi proibida pela Ditadura,
em vista da anatematização da fita pela Igreja Católica. A passeata
foi tensa, pois, embora fosse a fase do &ldquo;degelo&rdquo;, ainda
estávamos em plena Ditadura, e a Brigada Militar acompanhou de
forma ostensiva o protesto. Como ápice, o DCE organizou uma sessão
para passar o filme que era &ldquo;super clandestina e
secreta&rdquo; no auditório da Faculdade de Arquitetura. Aí fomos
para lá, todos muito tensos com a possibilidade de que a polícia
militar invadisse o teatrinho e &ldquo;baixasse o cassete&rdquo;.
Mas nem foi preciso a intervenção da &ldquo;repressão&rdquo;: deu
cinco minutos de filme e o pessoal começou a sair, a princípio aos
poucos, depois massivamente, dada a chatura da película (rss)... eu
saí no meio, e, sinceramente, não sei dizer quantos heróis
&ldquo;agüentaram&rdquo; até o fim. Outro cinema que era bem
freqüentado, neste gênero, era a sala da UFRGS, então
recém-inaugurada, e as da Casa de Cultura Mário Quintana. Na UFRGS,
eu era fã de carteirinha dos shows do Projeto Unimúsica, que na
época ocorriam toda sexta-feira, ao final da tarde, no Salão de
Atos, não perdia um, só com artistas locais, não era como o projeto
de agora. Foi um grande palco para o pessoal da MPG, e os shows
ficavam sempre lotados.    </p>
<p align="justify">O Bom Fim, além do
cinema, tinha como grande atração os seus botecos e bares. Lembro
de ir no Bar Ocidente, logo após a sua inauguração, e já era
realmente um grande &ldquo;point&rdquo; dos alternativos em geral,
sendo, aliás,  habitualmente alvo de &ldquo;batidas&rdquo; da
Brigada Militar, que botava todo mundo para fora para ser
&ldquo;revistado&rdquo;; foi uma barra pesada para o
estabelecimento, pois a marcação era realmente cerrada, mas
felizmente os proprietários &ldquo;agüentaram no osso&rdquo; aquela
fase persecutória, e a casa continua &ldquo;bombando&rdquo; até
hoje. Dos botecos &ldquo;clássicos&rdquo; do Bom Fim, havia o Bar
João (de que o meu pai, como bom jogador de sinuca, era um dos
<em>habitués</em> do &ldquo;turno da tarde&rdquo;, e eu seguido ia
lá para encontrá-lo), o Lola, o Bom Fim... peguei a inauguração da
Lancheria do Parque, que eu e um amigo &ldquo;estreamos&rdquo;
ingerindo sem solução de continuidade três pratos do seu clássico
&ldquo;buffet livre&rdquo;, então uma espécie de novidade nos bares
de antanho (o comum era os almoços chamados
&ldquo;comerciais&rdquo; serem servidos em pratos feitos, ou
&ldquo;PFs&rdquo;, também conhecidos como &ldquo;torpedos&rdquo;).
Havia um outro bar, cujo nome não lembro, que ficava nos altos da
antiga Livraria Baiadeira, hoje tem uma imobiliária funcionando no
térrreo. O Escaler e o Luar, no mercadinho do Bom Fim, ficavam
sempre cheios desta &ldquo;fauna&rdquo; variada a que nos
referimos. O Escaler, aliás, chegou a fazer um circo de lona, no
estilo &ldquo;Circo Voador&rdquo; do Rio, que ficava do lado do
Gigantinho, e onde rolavam uns shows e festas bem legais. Cheguei a
ir numa festa de réveillon e num carnaval lá, baile animado pelo
Zezé, meu professor no Clube do Guitarrista Gaúcho. Houve também um
outro circo, onde uma vez assisti a um show do Bebeto Alves, que
ficava em um terreno próximo ao atual ginásio Tesourinha, que era
muito legal idem.  Pra fazer um &ldquo;rango&rdquo; no
&ldquo;Bonfa&rdquo;, além da &ldquo;Lanchera&rdquo;, tínhamos o Zé
do Passaporte (cujo trailer ficava ainda na calçada onde hoje tem o
postinho da Brigada Militar) e o Kripton, que depois se mudou para
a Goethe. Aliás, em termos de lanches, além do Trianon (que, à
época não era &ldquo;tão limpinho&rdquo; como hoje, consistia em um
boteco com uma chapa e um belo latão de lixo de metal, postado bem
ao lado, onde eram despejadas as cascas de ovo e os talos das
alfaces, as gorduras dos bifes e etc.), a grande sensação era o
Mac'dinhos (o nosso primeiro Macdonald's, só que
&ldquo;made in Porto Alegre&rdquo;), o Cachorro do Rosário (que só
existia lá mesmo, e com os pedintes e mendigos &ldquo;de
brinde&rdquo; de sempre) e os crepes em trailers na Carlos Gomes
(estes já eram num padrão mais &ldquo;sofisticado&rdquo;, opção
mais &ldquo;burguesia&rdquo;). Numa época, no espaço da
churrascaria da Oswaldo, um restaurante de comida israelense, pois
um sabra veio morar aqui um tempo,  depois voltando pra
Israel, muito bom. O antigo Serafim (Fedor), neste período, já
havia pego fogo e saíra de &ldquo;circulação&rdquo;, abrindo apenas
uma espécie de &ldquo;sucursal&rdquo; na Felipe Camarão, perto da
Bento Figueiredo, onde às vezes eu também encontrava o meu
pai.</p>
<p align="justify">Eu costumava ir
muito a shows no Araújo Vianna, que então estava a pleno, sendo um
dos palcos principais do pessoal do rock e da MPG. Vi um sem-número
de shows de todos os tipos lá, de rock, de MPB, de música
instrumental e o que mais fosse. Rolava uma enormidade de shows
coletivos do pessoal da MPG e também do rock gaúcho. Era a época do
fim da ditadura, e toda hora pintava um &ldquo;ato-show&rdquo; em
solidariedade a isto ou aquilo ou de protesto, e também foi o
despontar do rock gaúcho dos 80, então o velho auditório
fervilhava. Foi lá, inclusive, que tive a oportunidade de começar a
me apresentar, nos domingos à tarde, num projeto muito legal do
diretor do auditório da época, o professor Rui, que abria espaço
para os músicos iniciantes. Depois, com diversos amigos, nos
reunimos para realizar o show coletivo &ldquo;7 na 6ª&rdquo; (eram
sete artistas/grupos, e o show era na sexta-feira) lá mesmo, isto
deve ter sido por 1984. Bem na esquina da José Bonifácio com a
Santa Terezinha, tinha o bar Café com Leite. Eu ia bastante ali ver
o Léo Henkin e o Ralfe Peruffo tocarem, e também o Edu Natureza, o
Nando Gross, o Giba Giba, o Toneco, o Galileu Arruda, o Nei Lisboa,
o meu professor de violão Roberto Thiesen, e muita gente boa mais.
Numa ocasião, deu um baita quebra-quebra: num dos shows marcados
pelo Robertinho do Recife, em sua fase metaleira, o espetáculo foi
cancelado, e a metaleirada do Bom Fim, inconformada, quebrou tudo,
os bancos de madeira, foi um escarcéu. Outro show mágico que fui lá
foi o do Hermeto Paschoal, mas realmente foram muitos shows bons
vistos.</p>
<p align="justify">Quanto
à Esquina Maldita, naquela época já estava meio
&ldquo;out&rdquo;, e eu só ia lá de vez em quando com o pessoal da
minha faculdade que era mais engajado, pra tomar um
chopp.</p>
<p align="justify">Adentrando o Bom
Fim, um bar que às vezes eu ia era o Vermelho 23, que ainda
está na ativa, e que sempre tinha boa música. Havia um bar que
ficava às escuras, se não me engano era na Felipe Camarão,
iluminado por velas, acho que o nome era &ldquo;Feito à mão&rdquo;,
mas não tenho certeza. Nas proximidades da Independência ficava o
restaurante Lugar Comum, sempre com música de ótima qualidade,
geralmente instrumental. Posteriormente, no segundo piso da casa,
foi aberta a célebre &ldquo;Sala Jazz Tom Jobim&rdquo;, na qual
cheguei a me apresentar, já nos anos 90. Na independência, era
comum vermos shows nacionais bem legais no Teatro Leopoldina, que
depois virou o Teatro da Ospa. Um outro bar que, a princípio, era
mais de MPB, mas que depois passou a dar espaço a shows de bandas
de rock, e que eu freqüentava, foi o Theatro Mágico, que ficava na
descida da Tomás Flores.</p>
<p align="justify">A minha
&ldquo;rota&rdquo; mais comum, contudo, era a da Cidade Baixa, pois
ali se concentrava de forma mais preponderante o pessoal próximo ao
meu perfil, que era de estudante universitário e fã de MPB. Eu era
frequentador do Bar Marcelina, que ficava originalmente na rua
Sofia Veloso, e depois mudou-se para a José do Patrocínio. Era um
bar muito legal, porque reunia, entremeada entre o público em
geral, uma legião de artistas, a maioria desconhecidos como eu,
propiciando conhecer muita gente legal e talentosa: o bar
formalmente não tinha música ao vivo, mas sempre havia um violão e
fazíamos muitas rodinhas, cada um tocando um som, mostrando as suas
músicas para os amigos, era bem legal. Encontrava-se lá
seguidamente artistas que considerávamos &ldquo;famosos&rdquo;,
como o pessoal do Raiz de Pedra, Wesley Cool, Jimi Joe, e muitos
outros caras que faziam sucesso na cena musical de Porto Alegre
naquele período. E lá eu convivi com muitos amigos queridos e
talentosos como Auriu Irigoite, Glei Soares, Henrique Wendhausen,
Dedéia, Eleu, Iran Rosa, Edmar Fabrício, Cléber Fiorentin, Mário
Marmontel e tanta gente mais. Outro lugar legal de ir era a
Terreira da Tribo, na José do Patrocínio: eu e o Auriu chegamos a
nos apresentar lá, no &ldquo;Bar da Terreira&rdquo;, em um show
acústico. Sinceramente, embora seguidamente eu circulasse na área,
nunca tive coragem de assistir uma peça no Teatro da Terreira, pois
alguns amigos que o haviam feito contavam que haviam servido de
alvo dos atores em cenas escatológicas, não sei se era verdade, mas
na dúvida não queria arriscar. Eles faziam lá uma cerveja
&ldquo;natural&rdquo;, que era bem comparável àqueles remédios da
grife fitoterápica &ldquo;cibecol&rdquo; (lembram? O amargor é
inesquecível). Ali próximo, indo pra direita, ficava o
&ldquo;Caminho de Casa&rdquo; (no segundo andar, onde hoje há uma
imobiliária no térreo), também um lugar legal, em que os músicos
fixos eram geralmente o Xico Mestre e o Daniel Sá, e seguido eu e
minha turma íamos lá &ldquo;dar uma canja&rdquo;. Indo para a
esquerda, havia o João de Barro, que era um bar de música
nativista; isto era uma coisa legal, nos anos 80 o nativismo virou
uma coisa meio pop, e mesmo nós, que éramos bem
&ldquo;urbanos&rdquo;, gostávamos de ir às vezes neste tipo de
lugar, inclusive no Recanto do Tio Flor, na Getúlio Vargas... havia
também um outro bar em que a gente ia, que era perto da Mariante,
senão me engano chamava-se Macanudo, só lembro de ver o Sérgio
Rojas, e o Neto Fagundes, tocarem lá... ali nunca nos deixavam
&ldquo;dar canja&rdquo;, pois tínhamos visual típico de
&ldquo;magrinhos do Bom Fim&rdquo;, e certamente o pessoal tinha
medo que nós déssemos &ldquo;bola fora&rdquo;, saindo do
&ldquo;script&rdquo; e do repertório usual da casa. Na calçada da
José do Patrocínio, também houve, durante um tempo, o bar Delírio
Lilás, que passou a abrigar diversos shows legais do pessoal de
Porto Alegre, lembro de ter visto ali pela primeira vez o Quintal
de Clorofila, da dupla dos irmãos Arbo, de Santa Maria, entre
muitos outros shows. O Zelig, na Sarmento Leite, estava começando,
mas já era uma ótima opção, o que segue ocorrendo. Seguindo em
direção à Venâncio, na José do Patrocínio uma parada obrigatória
era o bar Tigela de Barro (ou será panela?), onde a Adriana
Calcanhotto estava dando os seus primeiros passos, já com muito
sucesso. Ali eu dava &ldquo;canjas&rdquo; também, e fiquei amigo
dela. Indo em frente, mas dobrando à direita, estava o antigo
Opinião, onde muitos músicos tocavam, como Totonho Villeroy, Nando
Gross, Paulo Gaiger, e eu costumava ir lá pra &ldquo;dar uma
canja&rdquo;. Falando em &ldquo;canja&rdquo;, havia, no lado oposto
da José do Patrocínio, bem perto da Sarmento Leite, uma famosa casa
&ldquo;mata-larica&rdquo; que servia o prato, e também qualquer
tipo de sopa, muito frequentada pela galera.  Mas voltando,
mais adiante, já na própria Venâncio Aires, ficava o Pecados
Mortaes, bar em que, segundo a Adriana, naquela época era o seu
&ldquo;sonho de consumo&rdquo; tocar (e em homenagem ao qual chegou
a fazer uma música). Mas, em verdade, este bar não era muito
diferente dos demais: muito barulho, fumaça de cigarros, garrafas
de cerveja nas bandejas dos garçons que iam pra lá e prá cá, uma
certa azaração e um pobre músico tentando &ldquo;fazer a sua
arte&rdquo;, não raramente pra &ldquo;ouvidos moucos&rdquo; (cabe
dizer aqui, para o &ldquo;público leitor nacional&rdquo;, que estes
bares não eram muito diferentes daqueles do Baixo Leblon, no Rio,
ou da Vila Madalena, em Sampa). Aliás, ali  vivi uma história
bem engraçada: como o bar estava lotado, eu estava do lado de fora;
nisto encostaram duas moças bem bonitas, uma loira e outra morena,
vestidas como se fossem sair pra noite, com vestidos e tudo, o que
destoava em muito do figurino do ambiente, bem casual; eu, por
minha vez, vergava  meu habitual traje
&ldquo;chinelão-estudantil&rdquo;: calça jeans comprada na
Voluntários da Pátria surrada, camiseta de movimento estudantil e
tênis velho, cabelos despenteados e barba desgrenhada; pra meu
espanto, uma das moças, muito simpática e bem-falante, puxa assunto
comigo, e papo vai, papo vem, me convida a levá-las pra outro
lugar; eu, lógico, aceitei, embora não estivesse acreditando muito
na minha sorte grande; depois de um certo tempo de conversa no tal
outro bar, eis que a moça abre o jogo: &ldquo;olha só, a gente viu
que tu és um cara &ldquo;do bem&rdquo;, estudante de Direito,
limpeza, é que a gente é da delegacia de narcóticos, e tava dando
uma incerta, sabe como é, nós também somos estudantes de Direito,
etc.,etc... bom, pelo menos tava explicado o &ldquo;prêmio de
loteria&rdquo;... evidente que eu não &ldquo;me dei bem&rdquo; com
elas, e tão logo deu uma &ldquo;brecha&rdquo;, disse tchau sem
reclamar, agradecendo aos céus por &ldquo;escapar ileso e com
vida&rdquo;. A esmola, quando é demais, o santo
desconfia.</p>
<p align="justify">Já quando da
volta de meu roteiro &ldquo;Cidade Baixa&rdquo;, eu costumava
passar no Pedrini ou no Bar do Beto, este então localizado na
esquina com a rua do quartel, e mais perto do quartel havia o
Fazendo Artes, bar em que também costumava ir ver a Adriana tocar,
num período posterior. Também havia um barzinho legal com música ao
vivo, bem defronte do atual Bar do Beto. Mas voltando pra Cidade
Baixa propriamente dita, o entorno da esquina da Lima e Silva com a
República, que hoje está sempre fervilhando de gente, também tinha
opções legais, como, por exemplo, o Gota D'água, dentre
outros bares. O Gota D'água (hoje onde funciona um café) era
um fenômeno: não sei como conseguia entrar tanta gente num
espaçozinho tão pequeno, mas certamente os copos de vinho branco de
garrafão nos faziam abstrair destes detalhes, para nos
concentrarmos na rodinha de violão. Não era raro que, dependendo da
música, de repente todo o bar parasse com as conversas paralelas e
entoasse em uníssono a música que alguém cantava. O Van Gogh já
estava localizado ali, e é um dos poucos bares daquela época que
continua na ativa, e ainda é praticamente a mesma coisa. Lá pelos
lados da Getúlio Vargas, eu gostava de ir no Viva Maria, onde
tocavam o Plauto Cruz e o João Pernambuco, e também na Cia. de
Sanduíches, ouvir uma boa MPB. Mas havia ali uma série de bares
cujo nome não me lembro, também neste estilo. Outro bar bacana de
ir era o Purpurina, do Jerônimo Jardim, onde eu via tocar o Antônio
Villeroy e o Pedrinho Figueiredo. Havia também o Vinha D'alho
e o Carinhoso, bares de uma boemia mais tradicional, sempre com boa
MPB. Uma vez, a muito custo, eu e uns amigos conseguimos entrar no
Chipp's, que era conhecido como &ldquo;point&rdquo; de
cassação (a palavra, corretamente grafada, deveria ser
&ldquo;caçação&rdquo;, pois vem de caça, mas o corretor do
computador &ldquo;sublinha&rdquo;, e, convenhamos, fica estranho).
É que havia uma &ldquo;reserva de mercado&rdquo; da mulherada por
parte de alguns habitués, em favor dos quais o porteiro não
permitia a entrada de outros &ldquo;machos&rdquo;... a entrada da
mulherada, é claro, era &ldquo;de grátis&rdquo;, pois o local era
de &ldquo;catigoria&rdquo;. Mas sinceramente não gostei muito do
estilo daquela casa noturna, e nunca quis voltar lá. Hoje o
Chipp's é diferente, virou uma danceteria mais voltada para
casais, mas naquela época era um barzinho com música ao vivo à base
de voz e violão. Havia, ali perto, mais pro lado da Venâncio, o
Rocket 88, do Mutuca, onde bandas como os Garotos da Rua
iniciaram.</p>
<p align="justify">Surgiram também,
mais ou menos nesta época, várias danceterias vinculadas ao rock.
Uma que eu costumava ir muito era no Taj Mahal, lá na
Farrapos, descendo a Santo Antônio. Lembro de uma vez em que fui
ver o show da banda argentina Dragon, na qual o Mitch Marini
assumiu o baixo. Eu tava tão duro que, após pagar o valor do
ingresso, tive que tomar a água da pia do banheiro, pois não sobrou
mais nada, e voltar a pé (o que era comum, não tínhamos tanto medo
de ser assaltados, mesmo andando em ruas escuras e ermas na
&ldquo;madruga&rdquo;,  estes infortúnios eram bem mais
raros)... bons tempos. O brinde era o banho de piscina, mas
sinceramente nunca tive coragem de pular lá dentro, mesmo porque
aquela já devia ter sido usada &ldquo;historicamente&rdquo; para
fins escusos, quando o local abrigava casas do gênero tão típico
daquela região da cidade, &ldquo;sabe como é, seguro morreu de
velho&rdquo;. Mas, fora de brincadeira, devia ser limpinha, pois o
Ricardo Barão e Cia. mantinham a casa no capricho; eu é que achava
meio estranha a idéia de pular em uma piscina de madrugada, mas bem
que dava vontade.</p>
<p align="justify">O Porto de Elis (na
subida da Protásio Alves, bem perto do Barranco) também marcou
época, e destacava-se muito pelos shows de qualidade que promovia.
No &ldquo;caminho do meio&rdquo; entre o Bom Fim e Petrópolis,
havia o Tivoli, um bar de estilo &ldquo;boemia das antigas&rdquo;,
mas que também contava com boa música. Já a subida da Protásio
(refiro-me à parte lá pros lados da Carlos Gomes), nesta época,
havia perdido em boa medida o posto de um dos principais
&ldquo;points&rdquo; noturnos de Porto Alegre, que chegou a ter nos
anos 70, sendo um local em que eu ia mais eventualmente. Mas nesta
época chegou a funcionar um bar lá, o Bangalô, onde, ao que parece,
o Nenhum de Nós começou a tocar.</p>
<p align="justify">Na época, a zona
noturna das classes &ldquo;mais privilegiadas&rdquo; preferencial
era a 24 de outubro e seu entorno. Diante do que adiantei no
início, não seria preciso dizer que eu dificilmente ia lá, mas nas
vezes em que fui também encontrei algumas opções boas, como por
exemplo o Kilt Pub e o Kafka (no local depois funcionou o Zappa, e
atualmente está o Bodega). Lá pros lados da Cristóvão Colombo,
também tinha bons bares, mais próprios pra tomar um chopp, como o
Walter, o Vassouras, o Sebastian e o Bar Um. </p>
<p align="justify">Enfim, certamente
estas mal traçadas linhas não servem como um retrato mais fiel da
noite de Porto Alegre do início dos anos 80, e tampouco eu poderia
dizer que os endereços que lembrei correspondiam ao &ldquo;melhor
da noite gaúcha&rdquo;. Longe disto, pois muitos destes lugares não
eram necessariamente tão descolados e muito menos eram
sofisticados. Estas escolhas, como disse, evidentemente passaram
pelo meu gosto pessoal e até pelas condições monetárias para
&ldquo;fichar&rdquo; (que na época eram praticamente nenhumas)...
mas certamente estes lugares evocam lembranças de uma época legal
de minha vida, e, afinal de contas, acho que é isto que interessa,
recordar de endereços em que a gente se sentiu bem.</p>
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<p></p>
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<p></p>
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