<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0">	<channel>		<title>[bloguepessoal.com] lolita : <![CDATA[DeSaBaFoS]]></title>		<link>http://lolita.bloguepessoal.com</link>		<description><![CDATA[DeSaBaFoS]]></description>		<language>pt</language>		<copyright>Copyright (c) 2006, Hi-pi</copyright>		<generator>Hi-pi RSS 2.0 generator</generator>		<docs>http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss</docs>		<pubDate>Sun, 20 Jul 2008 00:58:48 +0200</pubDate>		<item>			<title><![CDATA[Roupa de feira]]></title>			<description><![CDATA[<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>De há uns
tempos para cá, ligo a televisão, sintonizo a
rádio ou viajo na auto-estrada sem asfalto nem sinais de
trânsito e, automaticamente, sem pedir licença,
penetro numa sala de aula, numa vivência caótica, onde
os alunos e a professora se distinguem apenas pela
idade.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>E hoje, eu
também vou falar de escola, da minha escola, a primeira,
aquela que é a espinha dorsal da minha caminhada
difícil e longa, pela vida, plena de contrastes, de
paradoxos, de dor e de alegria, de fracasso e de sucesso, de
desprezo e de paixão.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>Eu não
frequentei nem o Jardim de Infância nem a Creche. Esses
percursos infantis não cabiam no orçamento do poder
político, totalmente esvaziado pela urbanidade das cidades e
vilas, sempre em franco crescimento, dominadas pela voracidade da
selva cinzenta e áspera. Na minha aldeia como nas outras, o
primeiro dia das nossas vidas de escola era vivido na
família em festa, era uma espécie de ritual,
deixávamos de ser crianças e passávamos a ser
adultos em ponto pequeno, com as primeiras responsabilidades a
baterem à nossa porta.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span><span> </span>A
pequenada vestia as últimas toilettes exibidas na festa do
padroeiro. A minha toilette só era nova para mim, já
que anteriormente havia pertencido a outro corpo, havia acariciado
outra pele, havia ficado impregnada do seu odor. Eu destacava-me
não pelo colorido vivo dos tecidos, mas pelo branco
já meio encardido que o sabão azul e o sol não
conseguiam combater.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>Em frente à
escola, esperávamos, pais e filhos, que é como quem
diz mães e filhos, a chegada dos novos professores. Pela
primeira vez, vinham de fora e sabíamos que formavam um
casal jovem, acabado de
casar.</span> </strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>A algazarra era total.
A pequenada brincava, gritava e ria, alheia ao novo ciclo que se
abria nas nossas vidas. Olhava o meu vestido, virava costas e
desatava a rir. Não porque o vestido fosse feio. Ele
até era bonito. Era branco, caía em leve folhado a
partir do peito e acabava numa barra amarelada, outrora amarelo
vivo, que condizia com o acabamento da cava. Para mim, era um
vestido novo, ainda não habituado à textura da minha
pele, ao aroma do meu corpo exalando a fragância do eucalipto
que, sem o sabermos, transformou os nossos banhos em saunas e deu
às nossas peles este aspecto marmóreo e fresco. A
singeleza do vestido realçava os meus cabelos pretos, longos
e fartos. Para elas, as raparigas, não passava de um vestido
usado, em segunda mão e, ainda por cima, encardido e
desbotado. Um manancial de motivos para a risada geral. Afastada
das candidatas a Barbies, pus-me a fazer o que mais gostava,
observar e gravar na minha memória como se fosse o click de
uma máquina fotográfica. As mães observavam a
cena, mas as conversas entre elas devia ser apaixonante, visto nada
terem feito para darem uma lição de moral e de boa
educação aos seus lindos e mimosos
rebentos.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>À força
de observar, fui a primeira a dar conta da chegada dos professores.
Chegaram num Renault 5 vermelho, o carro sensação na
altura e durante alguns anos. Pararam junto à porta da
escola. Quando a professora sai, os nossos olhos cruzam-se e ficam
como que suspensos e indiferentes a qualquer vontade. Alta, magra,
cabelos pretos, longos e sedosos, eu vi - me ao espelho com quinze
anos de avanço. Desenganem-se, da sua infância, eu
apenas teria a altura, a magreza e</span> </strong> <strong>os
cabelos negros e longos. Havia um mar a separar os nossos</strong>
<strong>berços sociais. Ela era polida, delicada,
amável e jamais levantava a voz. Os olhares esgazeados das
nossas mães percorriam cada traço do marido, com um
planeta de permeio entre ele e os seus maridos, nossos pais,
geralmente baixos e grávidos. Ele, o professor, era a
personificação dos seus sonhos, daqueles sonhos
nocturnos que as mulheres têm durante a noite, que as faz
acordar húmidas e gemendo enquanto os seus maridos,
indiferentes aos mistérios femininos, ressonam ao lado o
sono dos justos ou enveredam pelos devaneios nocturnos da lingerie
e dos cabedais.</strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>Nesse mesmo dia ou
melhor, nesse mesmo momento, eu decidi que ia ser como ela,
professora, com um marido que nem o dela e com um carro exactamente
igual ao dela. Desenganem-se mais uma vez. Não, eu
não sou como ela. Apenas mantenho os cabelos, os olhos e a
magreza. Tudo o resto não passou de um delírio de
criança.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>Na sala de aula,
ficava colada à imagem da professora, só tinha olhos
para ela. De tal modo, que os nossos olhares estavam em constante
sintonia. Conhecia o seu andar, a sua atitude corporal e
física. Cada palavra saída dos seus lábios era
música para os meus ouvidos. Eu queria ser como ela, eu
tinha de ser como ela. Para fasciná-la, cada conteúdo
ensinado era conteúdo aprendido. Cedo, ela se deu conta das
minhas capacidades. Chegava a ensinar como se eu e ela
fôssemos os únicos seres vivos da sala de aula. O
fascínio era recíproco. Eu ficava deslumbrada com
tanta sabedoria, ela com a minha facilidade em aprender.
Formávamos um duo que se respeitava e se
admirava.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>Nos recreios, eu
não brincava. Os meus vestidos não estavam à
altura das exigências das minhas colegas. Pegava num pau e,
no terreno arenoso do recreio, juntava sílabas, as que ia
aprendendo. De tanto as juntar, formava novas palavras. Novas
não, que elas já faziam parte da vivência de
todos nós. Apenas eram estranhas aos nossos olhos e
às nossas bic. Abracei este jogo como uma tábua de
salvação e cedo me dei conta do poder da
palavra.</span>  É que uma levava a outra e assim
sucessivamente. Era como se cada palavra fosse uma porta que uma
vez transposta me oferecia mil
possibilidades.</strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span>Sim,</span> </strong> <strong>eu era
aquilo que elas não queriam ser, pobre, sempre com direito a
roupa nova em segunda mão, encardida e desbotada. Sim, eu
era o oposto das suas bonecas, das heroínas encantadas,
sempre loiras, ricas e belas.<span> </span> Como a dama de
hoje, elegante, perfumada que, no pedestal da sua arrogância,
se recusou a conhecer uma empregada da restauração,
antiga colega de escola, fulminando de cima a baixo o seu aspecto
banal, rematando com desdenhosa graciosidade &ldquo; Olhe bem para
mim e diga-me se tenho o look de conhecer gente que se abastece na
feira&rdquo;.</strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">
<em><strong><span><span> </span>Eu era pobre e pobreza era e continua a ser
crime, ponto final,
parágrafo.</span></strong></em></p>
]]></description>			<link>http://lolita.bloguepessoal.com/69877/Roupa-de-feira/</link>			<comments>http://lolita.bloguepessoal.com/Roupa-de-feira-19072008-225720-lp-69877.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://lolita.bloguepessoal.com/69877/Roupa-de-feira/</guid>			<pubDate>Sat, 19 Jul 2008 22:57:20 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Zapping]]></title>			<description><![CDATA[<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span style="font-size: 14pt;">Estou de volta.
A escrita é mesmo assim. Tem vontade própria, faz
birra e bate o pé. Surge quando menos espero e é mais
teimosa que a minha teimosia. Não surge quando quero, surge
quando quer. Não é como uma lâmpada que posso
ligar e desligar sob o impulso da minha vontade, do meu desejo, do
meu querer. Não, a escrita impõe-se, não a
imponho. Por vezes, basta uma notícia, um facto televisivo e
... zás, jorram os sentimentos em catadupa da minha
breve existência neste mundo caótico, absurdo e
estranho que a escrita verbaliza; outras vezes, apenas o grito
sufocado, mas enraivecido, comanda a nossa pena, a que tem tinta e
a que nos vai na alma.</span></strong></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><em><strong><span style="font-size: 14pt;">Não sei
quando voltarei a ser comandada pela conjugação do
verbo, todavia sei que hoje eu não posso escapar, não
posso fugir por atalhos, não posso mudar de canal ou fazer
zapping, que é bem mais
chic.</span></strong></em></p>
]]></description>			<link>http://lolita.bloguepessoal.com/69874/Zapping/</link>			<comments>http://lolita.bloguepessoal.com/Zapping-19072008-220008-lp-69874.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://lolita.bloguepessoal.com/69874/Zapping/</guid>			<pubDate>Sat, 19 Jul 2008 22:00:08 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[E ... foram felizes para sempre]]></title>			<description><![CDATA[<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><strong><em><span>Na minha aldeia, como em
muitas outras, o campo de futebol era o elemento unificador das
vitórias e das derrotas, dos amores e dos ódios,
principalmente dos ódios. Era aí que, por fim, as
mulheres casadas despejavam o ódio escondido aos seus mais
que tudo. Era aí que chegava o momento de se revoltarem, de
soltarem a raiva estrangulada. Enfim, era o local propício
para se vingarem daqueles que diziam amar com um sorriso até
às orelhas. Era no campo de futebol que o desgraçado
do árbitro apanhava com todos os impropérios
só porque a equipa da terra não sabia jogar. A
léguas estavam eles, o árbitro e os maridos, de
imaginar o prazer camuflado das mulheres ao verem a nódoa da
equipa local. Já os homens, estes ficavam furiosos mas
depressa, à noite, resolviam o trauma, os mais
simplórios na tasca lá do sítio, com malgas de
vinho a martelo que se sucediam umas às outras a depreender
pelo ziguezaguear com que alguns deles preenchiam o caminho de
regresso ao estimado e amado lar; os outros, com carteira recheada,
preferiam apaziguar o drama entre cabedais e saltos altos. 
Era sabido que cada ida à discoteca do Rui implicava de
lá sair com a carteira imaculadamente limpa. Mas que
importava que cada carícia tivesse o seu preço!?
Bastava olhar para as esposas, coléricas, amargas, biliosas,
grossas, rosto contraído e roxo de raiva soltando feroz e
cruelmente a língua envenenada por anos de
frustração. Impossível imaginarmos qualquer
esboço por muito ténue que fosse de sensualidade e
até, porque não, de erotismo. A simples ideia era
hilariante. Chegávamos a fingir que éramos esta ou
aquela esposa, soltávamos alguns ais e a risada era geral.
Como nós, jovens do secundário, compreendíamos
esses maridos famintos de carícias, de
exploração corporal, de palavras mansas murmuradas ao
ouvido, de gemidos que testemunhassem o prazer sublime da posse.
Acabávamos por dizer que faríamos o mesmo se
estivéssemos no lugar deles. Procuraríamos o prazer,
a luxúria, a qualquer
preço.</span></em></strong></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><strong><em><span>Fátima não
era uma dessas mulheres. Foi a minha amizade com a irmã, a
Clara, que nos aproximou. Embora alguns anos mais velha do que eu,
as nossas vidas tinham muito de semelhante. Não no dinheiro.
Ela provinha da classe média baixa, eu da classe pobre.
Sendo a filha mais velha, como eu, precocemente lhe coube a
responsabilidade de ser mãe dos seus irmãos.
Cozinhava, lavava, cosia, engomava, dava-lhes banho, vestia-os,
alimentava-os e, quando sobrava algum tempo, dava-lhes carinho,
não de irmã mais velha, mas de mãe. No meio de
tanta azáfama, ninguém reparava nela, nem ela
própria. Num baile de garagem, num daqueles bailes às
escondidas dos pais e irmãos mais velhos, que nortearam
a nossa juventude, testemunharam os nossos primeiros amores, o
nosso primeiro beijo, o nosso primeiro corpo a corpo ao som dos
Deep Purple, Doors, Rolling Stones,...,</span> </em>
<em>Fátima conheceu um jovem nado na província,
porém criado na capital. Era uma espécie de matador
que pelo simples facto de ser da cidade batia aos pontos o sector
masculino do povoado. Entrou no baile tipo cheguei e deparou com o
olhar fascinado de Fátima. Morena como ele, olhos
profundamente ingénuos e escuros que nem os dele, logo viu
que tinha ali presa fácil. Fátima sentiu-se
contemplada e adulada como nunca pensou que alguma vez pudesse
acontecer, sentiu que algo de maravilhoso estava a acontecer na sua
vida,  quando ele a puxou pelo braço e a levou para o
meio do baile. Ela obedeceu que nem um autómato. Rodeada
pelos seus braços musculosos e sentindo o bafo quente que
ele expelia no seu pescoço e nos seus cabelos, pela primeira
vez sentiu emoções às quais o seu corpo
não era indiferente. Daí à paixão foi
um passo. Uma paixão genuína, intensa, profunda.
Tinha encontrado o homem da sua vida, o homem pelo qual ela estaria
disposta a tudo, até a dar a própria vida. E deu.
Passado algum tempo, o seu corpo começou a sofrer
alterações. A busca incessante do seu corpo para
António se expressar apaixonada e possessivamente
começava a dar frutos. Fátima estava
grávida.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><em><strong><span>Durante a cerimónia do
casamento, a sua cabeça estava longe, nas histórias
de príncipes e princesas que lia às</span> 
irmãs antes de adormecerem. Pensou que o seu destino era
idêntico, tipo e foram felizes para sempre. Casados e
sem necessitarem de se esconder para dar liberdade ao desejo,
viveram dois meses de idílio, procurando-se constantemente
na realização de um prazer carnal que sublimava o
amor partilhado.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><strong><em><span>Pouco tempo depois,
pôs-se a questão do trabalho. O aluguer da casa
já estava atrasado, era preciso pôr comida na mesa e
preparar a vinda do filho. Foi então que o idílio
desapareceu. António sofria de alergia ao mundo do trabalho
e só de ouvir o nome, transformava-se noutra pessoa.
Começou por dizer que não tinha vindo viver para a
aldeia para acabar trolha ou algo parecido. A culpa era dela que
não tinha nada que engravidar. Já muita sorte tinha
ela por ter aceite casar  e ter assumido a paternidade,
tornando-a mulher honrada.  Ao que ela respondia que era o
mínimo que um homem devia fazer quando seduz uma jovem,
desconhecedora dos meandros da sedução. E a
sedução cedeu lugar à pancadaria quotidiana e
desmedida. Metia dó vê-la grávida, com a cara
negra e inchada. Mas não era só a cara, era o corpo
todo, violentado a pontapé. Parecia impossível a
criança sobreviver dentro da mãe até ao
nascimento.</span></em></strong></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><strong><em><span>Fátima, habituada a ser
mãe de suas irmãs e irmão desde tenra idade,
acarinhou e refugiou-se no amor pelo filho. Este passou a ser o
cerne da sua existência e dava graças a Deus sempre
que o marido deambulava dias e dias por outras camas, por outros
corpos, por outras carícias, dando-lhes alguma paz. Para
sobreviver, começou a fazer limpeza nas casas mais ricas do
sítio. Habituada às lidas caseiras, começou
logo a mostrar o brio em tudo o que fazia. O seu filho, deixava-o
agora entregue à Lurdes,</span> </em> <em>mais velha
que Clara e mais nova que Fátima , que a substituiu nas
responsabilidades da casa materna quando decidiu começar uma
vida nova com o amor da sua vida.  Apenas lhe pediu que
retribuísse no seu filho o amor que lhe tinha dedicado. De
quando em vez, o marido vinha resgatar algum dinheiro para tabaco e
álcool, pegar no filho ao colo, seduzi-la para mais uma
noite de amor, de toques e gemidos sensuais. De manhã,
quando o sol já raiava, à hora do almoço,
levantava-se estremunhado, comia e, perante as
reclamações de Fátima, voltava a despedir-se
com mais uma sessão de
pancadaria.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><strong><em><span>Dois ou três anos
após e com a promessa de um novo começo,
 Fátima concordou em partir para a cidade grande. A
ideia de viver num desses prédios de apartamentos no meio do
reboliço entusiasmou-a. Sonhou que tudo ia ser diferente,
que António ia voltar a ser aquele jovem fascinante que ela
conhecera. Até porque tinha sido demasiado duro para ele ter
deixado a capital para se enfiar na pacatez do mundo rural.
Pensando bem, até era compreensível a sua
frustração e, portanto, a sua revolta, a sua ira.
Voltaram a fazer amor como nos momentos mais intensos de que tinha
memória.</span></em></strong></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><strong><em><span>Partiram para Lisboa num dia
primaveril que Fátima interpretou como sendo uma
bênção para um novo rumo. A viagem de comboio
foi longa, quase interminável, mas Fátima estava
fascinada com o movimento das árvores e das casas.
Não tinha pressa em chegar, tinha todo o tempo do mundo para
se apoderar da cidade. Neste momento, maravilhava-se a observar o
mundo para lá dos limites da sua terra natal. Chegaram ao
anoitecer. Os olhos de Fátima faiscavam em
uníssono com a cidade iluminada. Só algum tempo
depois se apercebeu que as luzes deram lugar à
escuridão. Perguntou onde estavam e António
descansou-a dizendo que era só por alguns dias enquanto os
seus haveres não chegavam. No dia seguinte, levantou-se cedo
e logo verificou que aquele amontoado de barracas sem fim nada
tinha a ver com a cidade que a recebeu, cheia de luzes iluminando
os  prédios que lhe pareceram enormes. Mas não
havia problema, era só por alguns dias... meses,
anos.</span></em></strong></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><em><span><strong>Afonso, o filho de Fátima,
é hoje um jovem universitário em busca de um destino
melhor. Um novo rebento testemunha a contínua procura de
António por Fátima. Há muito que deixou de ser
uma procura esperada e desejada. Já não é uma
procura. O corpo de António apodera-se do corpo de
Fátima a seu belo prazer reduzindo-a a uma sufocante
invisibilidade. Este filho, Nuno, é a consequência
trágica de uma família em constante
destruição. Vadio e violento como seu pai, há
muito que Fátima desistiu dele. É que Fátima
vai morrendo. Por dentro.</strong></span></em></p>
]]></description>			<link>http://lolita.bloguepessoal.com/28132/E-foram-felizes-para-sempre/</link>			<comments>http://lolita.bloguepessoal.com/E-----foram-felizes-para-sempre-10022008-233921-lp-28132.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://lolita.bloguepessoal.com/28132/E-foram-felizes-para-sempre/</guid>			<pubDate>Sun, 10 Feb 2008 23:39:21 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Marta]]></title>			<description><![CDATA[<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><span>Na
minha aldeia, igual a tantas outras, o rio era o
local de encontro das tardes de Domingo, no Verão.
Também das noites.  Era lá que os corpos se
libertavam da roupa para exporem os fatos de banho ou os biquinis
da moda, lisos, às bolas, às flores, às
riscas. Sempre realçando as linhas esbeltas, éramos
adolescentes, jovens e belas. Era surpreendente ver como os nossos
corpos se distanciavam dos corpos das mulheres casadas, mesmo das
jovens, pneumáticas e repletas de celulite de tanto tentarem
prenderem os seus ditos cujos pela boca.
Era incrível como os seus olhares furtivos mas
carregados de inveja, de raiva, de ódio, nos causava um
enorme prazer, principalmente quando os olhos dos seus amados
esposos nos penetravam até às entranhas. Mas mais
divertido era ver as tentativas desajeitadas dos nossos
amigos, do Zé, do Carlos, do Quim, do Tó e de muitos
mais. Sim, é que no Verão o círculo de amigos,
não de amigas, quase quadruplicava.  Era um
gozo fazermos a escolha, quando eles não estavam por
perto. Escolhíamos como quem divide rebuçados. Este
é para mim, aquele é para ti e assim sucessivamente.
Era divertido por demais vermos a sensação de triunfo
no rosto deles pela escolha que eles pensavam ter feito. De
tarde,  era o desejo presente nos olhares, nas mãos que
sorrateiramente nos acariciavam, nos seus corpos, que munidos de
vontade própria, roçavam os nossos, que manhosamente
disfarçavam o calor que o sol não conseguia igualar.
É que a cumplicidade feminina correspondia apenas com a
complacência de um desejo que queria ver realizado. De noite,
o rio transformava-se num lugar misterioso e a única
testemunha era a lua. Era sob o efeito da lua que nos
metamorfoseávamos, que os nossos corpos suplicavam de
desejo, que se realizavam nas carícias ardentes, ainda que
desajeitadas. O Zé não grunhia como o meu pai. Era na
respiração cada vez mais ofegante e no palpitar
cardíaco, que mais parecia que o coração ia
saltar pela boca, que o seu prazer se realizava desajeitadamente na
certeza de me agradar. Os meus ais também não se
assemelhavam aos da minha mãe. Os meus expandiam-se no meu
interior e apenas se manifestavam exteriormente por um ou outro
gemido. Todas estas manifestações culminavam numa
explosão de sensações que a água fria
do rio acabava por dissipar. Era preciso apagar qualquer
vestígio que pudesse por a aldeia e as famílias em
alvoroço.  Quando momentos depois aparecíamos,
nós as raparigas, na esplanada do café para marcarmos
a nossa presença, longe estavam as línguas viperinas
de imaginar o motivo pelo qual o brilho da lua estava mais
intenso.</span></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><span>Como nas outras aldeias, muitas jovens ficavam com filhos
nos braços, sem ainda serem adultas, algumas eram apenas
pela via da natureza.</span></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><span>Marta é uma dessas mulheres, discreta,
afável, sem tempo para a crónica alheia. É que
com apenas trinta e cinco anos a vida já lhe 
cobrou  juros de benefícios que ela desconhece.
É a mais velha de duas irmãs.</span></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal"><span>Com apenas quinze anos, já só tinha um
objectivo. Começava e acabava na irmã que apenas
começava a despontar para a puberdade. Percebeu que tinha de
substituir a mãe, cega, surda e muda por
opção. Cuidava da irmã com o esmero de uma
mãe. Em casa, nunca a deixava sozinha. Acordava-a com
ternura, alimentava-a e fazia questão de ter a sua companhia
na lida da casa. À noite, ajudava-a a deitar-se e
despedia-se sempre com um beijo doce no rosto. A irmã
não percebia esta obsessão e até suspirava de
alívio quando partia para a escola. Sendo mais nova, a
família, impulsionada pela Marta, decidiu pô-la a
estudar no liceu do concelho, onde eu e muitas outras jovens da
aldeia estudávamos. Aos dezassete, Marta tem mais um filho.
Este, parido por ela. E a aldeia fica com mais alimento para
várias semanas. Afinal como é que Marta podia parir
um filho sem que se lhe conhecesse namorado. Afinal, de quem
é que tinha estado prenha? Uma coisa era a <em>Maria</em>,
outra coisa era a Marta! Milagres daqueles, só uma vez na
vida e em Belém! De dócil, afável e esmerada
no asseio da casa a vadia sem rei nem roque, foi apenas um passo.
Não se lhe conhecia namorado, ninguém tinha andado de
volta dela a farejar. Não que ela não fosse bonita.
Magra e baixa, o seu rosto afável era rasgado por um olhos
verde azeitona cujo brilho desaparecia de dia para dia.</span>
 Apenas
Inês e Afonso não deixavam que ele se extinguisse para
sempre. Eram eles que davam algum sentido à sua vida. Eram a
prova de que havia vida para além da mãe,
estrategicamente absorta nos seus afazeres, e do pai, bruto, sempre
bêbado, cruel e insaciável. Com vinte anos, já
era mãe de dois filhos, de três se contarmos a
Inês, que se transformava a olhos vistos numa linda mulher e
de quem Marta não desprendia a atenção assim
que ela regressava da escola. Orgulhava-se do seu esmero em cuidar
da irmã. Era para ela uma filha, apesar de apenas quatro
anos as distanciarem. Não se importava nem um pouco com o
conflito cada vez mais aceso que se estabelecia entre elas.
É que Inês não via motivo para não ter o
seu próprio quarto. Até porque a casa, embora
modesta, era grande e o arrumo junto à cozinha podia
facilmente ser transformado em quarto. Mas Marta jamais o
permitiria, jamais. Preferia suportar as birras quotidianas de
Inês e o temperamento cruel e insaciável do pai. 
Os seus dois filhos, o Afonso e o Raul, acabaram por falecer, um
com oito anos, o outro com dez. A natureza, infalível e
cruel, não permitiu a sua
sobrevivência.  </p>
<p class="MsoNormal"><span> </span></p>
]]></description>			<link>http://lolita.bloguepessoal.com/25263/Marta/</link>			<comments>http://lolita.bloguepessoal.com/Marta-27012008-223649-lp-25263.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://lolita.bloguepessoal.com/25263/Marta/</guid>			<pubDate>Sun, 27 Jan 2008 22:36:49 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Rui]]></title>			<description><![CDATA[<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">Na minha aldeia, como nas outras, o café
era o ponto de encontro dos casados e solteiros à noite e ao
Domingo. Apareceu, entretanto, uma concorrente, a discoteca, que
escancarava as portas aos solteiros e solteiras e piscava o olho
aos casados.</p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">As casadas tratavam da casa, das refeições,
das roupas, dos rebentos que ora gritavam de alegria ora gritavam
de birra para desespero das orgulhosas mães que com palmadas
e bofetadas aumentavam ainda mais a gritaria da
pequenada.    </p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">As solteiras, sem rebentos a chatear, ocupavam o seu
precioso tempo a metamorfosearem-se em futuras esposas perfeitas,
dignas dos seus príncipes encantados. Passavam o tempo ora a
bordar, ora a fazer croché, ora a tricotar, ora a apurar o
paladar, fazendo jus ao milenar juízo de que o homem se
prende pela boca.</p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">Rui é oriundo de uma família da classe
média alta. O pai era funcionário público,
sempre em ascensão. Tem um irmão, verdadeiro exemplo
de filho perfeito e marido ainda mais que perfeito, que
nem o tempo verbal. Quantas e quantas mães invejavam
aquela mãe, quantos e quantos pais invejavam aquele pai
e quantas e quantas esposas invejavam e invejam aquela
esposa.</p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">Mas o mundo não é perfeito e a
prová-lo bastava o Rui. É o mais velho dos
irmãos e desde tenra idade prometia ser um mar de cadilhos
para os pais e para o resto do mundo. Estudou nos melhores
colégios, onde as famílias importantes punham os
seus filhos a estudar, na esperança de se tornarem ainda
mais importantes do que eles próprios. Falo no plural,
porque Rui correu-os todos à custa das expulsões
contínuas. Na presença do director, Rui mantinha
a postura possível. Longe da sua vista , maltratava os
professores, oferecendo-lhes porrada enquanto copiava
descaradamente nos testes e os designava dos piores nomes que
havia. Com as colegas era precisamente o contrário. Estava
sempre disposto a aturá-las, a defendê-las, enquanto
as acariciava como quem não quer a coisa. O certo é
que as mãos estavam sempre ocupadas e não era a
folhear os livros ou a tirar apontamentos. As meninas, sentindo a
virgindade ameaçada pelas sedutoras e cada vez mais
apetitosas carícias, queixavam-se, imaculadas, ao
director  e lá ia o Rui oferecer a sua
luxúria a outra freguesia. Como já não havia
mais colégios nas proximidades, acabou por abandonar a
escola sem completar o secundário.</p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">Rui fez-se um homem. Esse facto aumentou
também a sua luxúria e a sua malvadez. Começou
pela sua aldeia natal para vergonha da família e desespero
das solteiras e casadas. Alugou um espaço, transformou-o num
café, à primeira vista semelhante aos outros
cafés. À segunda vista, notava-se que algo de
esquisito se passava. Os machos comentavam o facto entre si e quem
mais criticava mais cirandava à volta do café
aguardando o momento mais propício para penetrar
discretamente. O outro café foi ficando sem a clientela
costumeira, aquela clientela entre os vinte e os cinquenta. O mesmo
é dizer que o café habitual dos encontros nocturnos
ficaram reduzidos a uma espécie de salão
geriátrico. Menos aos Domingos. Neste dia, era importante
manterem-se as virtudes. É que à noite todos os gatos
são pardos, mas de dia...</p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">Vendo que as virtudes masculinas aderiam cada vez em maior
número ao local, Rui decide ampliar as suas
ambições. É que na aldeia existia, há
pouco tempo, uma dessas discotecas para ocupação
domingueira dos namorados e dos que pretendiam vir a namorar, por
isso só funcionava de tarde, para não ferir a moral
estabelecida de pais para filhos, de geração em
geração. Rui convence o dono a arrendar-lhe o
espaço.</p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt" class=
"MsoNormal" align="justify">Nos toilettes a indicação
homem/mulher foi substituída por gato/gata, mais
sensual e, por isso, sexualmente mais indiscreta, para não
dizer atrevida, a menos que não consigamos imaginar
sensualidade e sexualidade entre gato e gata. . E tudo
mudou. A discoteca passa a abrir ao fim-de-semana, que é o
mesmo que dizer que abria de quinta a domingo, sempre após
as onze horas da noite, claro. Os rapazes ficaram sem espaço
para apalparem as suas donzelas enquanto dançavam com elas
na penumbra da pista. Em contrapartida, ganharam o direito a
apalparem e a penetrarem em qualquer saia de cabedal desde que
dispostos a deixarem lá todo o ordenado ganho durante a
semana. O pior foi para as donzelas que perderam o direito
às apalpadelas tão estoicamente deixadas para o
domingo à tarde e não viam agora como resolver a
questão, até porque não perderam apenas o
direito, perderam sobretudo o interesse dos seus príncipes
que preferiam o caminho mais fácil da
penetração ainda que mais caro. E assim se desfizeram
namoros, noivados e até alguns casamentos. Foi o apocalipse.
Mulheres chorando por um lado, homens divertindo-se pelo
outro.</p>
]]></description>			<link>http://lolita.bloguepessoal.com/23504/Rui/</link>			<comments>http://lolita.bloguepessoal.com/Rui-19012008-171850-lp-23504.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://lolita.bloguepessoal.com/23504/Rui/</guid>			<pubDate>Sat, 19 Jan 2008 17:18:50 +0200</pubDate>		</item>	</channel></rss>