<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0">	<channel>		<title>[arteblog.com.br] artemar2007 : <![CDATA[Artemar 2007]]></title>		<link>http://artemar2007.arteblog.com.br</link>		<description><![CDATA[Artemar 2007]]></description>		<language>br</language>		<copyright>Copyright (c) 2006, Hi-pi</copyright>		<generator>Hi-pi RSS 2.0 generator</generator>		<docs>http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss</docs>		<pubDate>Wed, 19 Mar 2008 18:35:19 +0200</pubDate>		<item>			<title><![CDATA[Arte-educação não é arte-embromação.]]></title>			<description><![CDATA[<p>Faço de minhas turmas verdadeiras equipes de
produção pensante e prática. É claro
que a história da arte possui seus encantos, mas para quem
é acadêmico e está querendo ouviar mais
complexidades sobre o assunto.</p>
<p>No caso de adolescentes, é complicado por algumas
razões: primeiro, por que geralmente não querem estar
ali, segundo que procuram um prazer constante, nem que for dando
risadas de uma tacada de boloinhas de papel e terceiro, querem
inconscientemente serem ensinados de maneira dinâmica, por
mais que sejam nivelados por provas e mais provas...</p>
<p>Bem, no meu caso é um pouco desesperador quando se fala
de Arte, o que vem a cabeça deles é coisinhas fofas
pra se jogar no lixo depois ou para serem admiradas e
posteriormente jogadas fora.</p>
<p>Procuro alertá-los que toda a tecnologia está
baseada na constante pesquisa pensante do ser humano em adequar-se
ao ambiente que vive, suas necessidades, suas buscas incessantes...
A tecnologia é filha da Arte, ainda fora das
concepções atuais de arte propriamente dita e
aí é que eles se assustam! Quando falo de Leonardo da
Vinci, que desenhava toda a anatomia humana para descoberta de
articulações, órgãos, músculos e
posteriormente tentou assíduamente pôr em
prática todas as suas idéias como parafusos,
hélices e outras engenhocas, baseado no que o homem utiliza
sempre. Enfim...tudo que temos hoje, tiramos da natureza, tudo!</p>
<p>É com esse princípio básico que vivencio,
estudo e busco sempre toda forma de construir uma ponte entre a
Arte, tecnologia, ciência, física, matemática,
literatura e outras disciplinas que podem ser exploradas de formas
muito dinâmicas e que por meio desses experimentos e
construções, os alunos possam visualizar melhor o
"osso" das produções e processos...Como? Posto aqui
alguns projetos que apliquei em sala de aula e que foram bem
recebidos. É claro que nem tudo são flores, dá
muito trabalho, às vezes a direção escolar
pode não concordar, mas procuro adequar a essa ou aquela
escola, para que assim a Arte possua um papel fundamental para a
vivência desses adolescentes, que estão muito plugados
na velocidade das informações, mas muitas vezes
não sabem como processá-las de forma mais fragmentada
ou questioná-las através de outros
ângulos.</p>
<p> </p>
<p>Profa. Márcia Tomobe.</p>
]]></description>			<link>http://artemar2007.arteblog.com.br/52870/Arte-educacao-nao-e-arte-embromacao/</link>			<comments>http://artemar2007.arteblog.com.br/Arte-educac-o-n-o-e-arte-embromac-o--19032008-180309-lp-52870.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://artemar2007.arteblog.com.br/52870/Arte-educacao-nao-e-arte-embromacao/</guid>			<pubDate>Wed, 19 Mar 2008 18:03:09 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Visite mais blogs afins! http://artemar2007.blogspot.com   http://cienciaseartes.blogspot.com]]></title>			<description><![CDATA[<p><a href=
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<p><a title="http://artemar2007.blogspot.com/" href=
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nciaseartes.blogspot.com/2008/03/clique-nos-link://cienciaseartes.blogspot.com</a></p>
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<div style=
"border-right: medium none; border-top: windowtext 1.5pt double; margin-left: -9.75pt; border-left: medium none; margin-right: 0cm; border-bottom: windowtext 1.5pt double; padding: 0cm">
<strong><span style=
"font-size: 11pt"><span>  </span> A CHEGADA DO V&#205;DEO NO
BRASIL<span>                                                                                                                                                        </span></span></strong>
<span style=
"font-size: 11pt">O v&#237;deo chegou relativamente cedo ao Brasil
e muito rapidamente se tornou um dos principais meios de
express&#227;o das gera&#231;&#245;es que despontaram nesta segunda
metade do s&#233;culo.</span></div>




<span style="font-size: 11pt"><span>                                                                                                                                                      </span>
<span>                        </span>J&#225;
no final da d&#233;cada de 60, apenas dois ou tr&#234;s anos
ap&#243;s seu lan&#231;amento comercial no exterior, os primeiros
modelos port&#225;teis de video tape come&#231;aram a aparecer no
Brasil. Esse equipamento havia sido colocado no mercado pela
ind&#250;stria eletr&#244;nica japonesa para uso privado nas
empresas, com vistas ao treinamento de funcion&#225;rios, mas nada
p&#244;de impedir que, em determinadas circunst&#226;ncias, as
expectativas industriais fossem superadas. A simples
disponibilidade desse equipamento abriu espa&#231;o para o
surgimento daquilo que Ren&#233; Berger (1977: 206-221) chamou de
microtelevis&#227;o, uma televis&#227;o radical, produzida e
difundida em circuito fechado, independente dos modelos
econ&#244;micos e culturais da televis&#227;o broadcasting
convencional.<span>             </span>
<span>                                                                                                                                      </span>
<strong>Primeira gera&#231;&#227;o: os pioneiros</strong> Os
relatos referentes &#224;s primeiras experi&#234;ncias com
v&#237;deo no Brasil s&#227;o obscuros e contradit&#243;rios. De
concreto, sabemos que o primeiro brasileiro a mostrar publicamente
obras de v&#237;deo-arte foi possivelmente Ant&#244;nio Dias, mas
isso aconteceu no contexto italiano, onde ele vivia. Entre os
cr&#237;ticos, h&#225; um consenso de que o v&#237;deo, encarado
como um meio para a express&#227;o est&#233;tica, surge
oficialmente no Brasil em 1974 (cf. Zanini, 1997: 239), quando uma
primeira gera&#231;&#227;o de artistas, convidada para participar
de uma mostra de v&#237;deo-arte na cidade norte-americana de
Filad&#233;lfia (cf. Delehanty, 1975), realizou aqui os primeiros
video tapes, parte dos quais sobrevive at&#233; hoje. Embora o
convite tivesse sido extensivo a artistas brasileiros em geral, na
&#233;poca apenas os cariocas conseguiram viabilizar a
produ&#231;&#227;o, gra&#231;as &#224; intermedia&#231;&#227;o de
Jom Tob Azulay, que acabara de trazer um equipamento portapack dos
Estados Unidos e o colocou &#224; disposi&#231;&#227;o de alguns
artistas do Rio de Janeiro (S&#244;nia Andrade, Fernando
Cocchiarale, Anna Bella Geiger e Ivens Machado). A esse grupo
somou-se ainda Ant&#244;nio Dias, que produziu com os meios que
conseguiu levantar em Mil&#227;o. Logo a seguir, outros artistas
vieram engrossar a primeira gera&#231;&#227;o de realizadores:
Paulo Herkenhoff, Let&#237;cia Parente e M&#237;riam Danowski,
todos ainda ligados ao contexto carioca. Em S&#227;o Paulo, os
primeiros trabalhos come&#231;am a aparecer em 1976, quando o
MAC-USP, dirigido por um entusiasta da v&#237;deo-arte (Walter
Zanini), adquire um equipamento portapack e o disponibiliza aos
artistas da cidade. Regina Silveira, Julio Plaza, Carmela Gross,
Donato Ferrari, Gabriel Borba, Marcelo Nitsche e Gast&#227;o de
Magalh&#227;es s&#227;o os primeiros a experimentar essa nova
tecnologia em S&#227;o Paulo, mas &#233; preciso considerar
tamb&#233;m o caso isolado de Jos&#233; Roberto Aguilar, que trouxe
do Jap&#227;o o seu pr&#243;prio equipamento. Na verdade, n&#227;o
se podia ainda classificar tais autores como videomakers, no
sentido em que hoje empregamos esse termo. Eles eram, na sua
maioria, artistas pl&#225;sticos preocupados com a busca de novos
suportes para a produ&#231;&#227;o. Como se sabe, a partir de
meados da d&#233;cada de 60, muitos artistas tentaram romper com os
esquemas est&#233;ticos e mercadol&#243;gicos da pintura de
cavalete, buscando materiais mais din&#226;micos para dar forma
&#224;s suas id&#233;ias pl&#225;sticas. Alguns sairam para as ruas
e produziram interven&#231;&#245;es na paisagem urbana. Outros
passaram a utilizar o pr&#243;prio corpo como suporte
art&#237;stico e converteram suas obras em performances no
espa&#231;o p&#250;blico. Outros ainda procuraram mesclar os meios
e relativizar as fronteiras entre as artes, produzindo objetos e
espet&#225;culos h&#237;bridos como as instala&#231;&#245;es e os
happenings. E houve tamb&#233;m aqueles que foram buscar materiais
para experi&#234;ncias est&#233;ticas inovadoras nas tecnologias
geradoras de imagens industriais, como &#233; o caso da fotografia,
do cinema e sobretudo do v&#237;deo. Nos anos 70, H&#233;lio
Oiticica introduziu a id&#233;ia fertil&#237;ssima do quase-cinema
(cf. Canongia, 1981), para designar um campo de experi&#234;ncias
transgressivas dentro do universo das m&#237;dias ou das imagens e
sons produzidos tecnicamente. Num certo sentido, &#233;
imposs&#237;vel compreender a primeira v&#237;deo-arte fora desse
movimento de expans&#227;o das artes pl&#225;sticas ou de
reapropria&#231;&#227;o dos processos industriais, que j&#225;
havia antes acumulado experi&#234;ncias no terreno do
&#225;udio-visual (proje&#231;&#227;o de diapositivos) e do cinema
de 16 mm ou Super-8 (Ant&#244;nio Dias, Barrio, Iole de Freitas,
Lygia Pape, Rubens Gerchman, Agrippino de Paula, Arthur Omar,
Ant&#244;nio Manuel e o pr&#243;prio Oiticica). Na verdade, o
v&#237;deo foi uma tecnologia particularmente privilegiada nesse
movimento, em decorr&#234;ncia do seu baixo custo de
produ&#231;&#227;o, de sua absoluta independ&#234;ncia em
rela&#231;&#227;o a laborat&#243;rios de revela&#231;&#227;o ou de
sonoriza&#231;&#227;o (que funcionavam como centros de
vigil&#226;ncia da produ&#231;&#227;o na &#233;poca da ditadura
militar) e sobretudo pelas caracter&#237;sticas l&#225;beis e
anam&#243;rficas da imagem eletr&#244;nica, mais adequadas a um
tratamento pl&#225;stico. A v&#237;deo-arte nasce, portanto, como
um fen&#244;meno est&#233;tico inicialmente circunscrito ao
universo das artes pl&#225;sticas e cujo espa&#231;o de
exibi&#231;&#227;o se restringia ao circuito sofisticado dos museus
e galerias de arte (as &#250;nicas exce&#231;&#245;es foram os
trabalhos de Rita Moreira e Norma Bahia, mais afinados com o
document&#225;rio de cr&#237;tica social, por&#233;m circunscritos
ao ambiente nova-iorquino). Naturalmente, essa &#233; uma
caracter&#237;stica particular da v&#237;deo-arte brasileira, mas
n&#227;o uma tend&#234;ncia universal, uma vez que em outros
pa&#237;ses a hist&#243;ria pode ter sido completamente diferente.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a v&#237;deo-arte j&#225; nasceu
estreitamente ligada &#224; m&#250;sica de vanguarda (Paik e outros
pioneiros eram originalmente compositores) e tamb&#233;m &#224;
dan&#231;a, ao teatro e ao cinema experimental, al&#233;m de, desde
os prim&#243;rdios, ela j&#225; ter conseguido encontrar um
espa&#231;o privilegiado de exibi&#231;&#227;o na pr&#243;pria
televis&#227;o (cf. Machado, 1988). De qualquer maneira, toda a
primeira gera&#231;&#227;o brasileira de criadores de v&#237;deo
era constitu&#237;da de nomes em geral j&#225; consagrados no
universo das artes pl&#225;sticas ou em processo de
consagra&#231;&#227;o, como foram os casos de Ant&#244;nio Dias,
Anna Bella Geiger, Jos&#233; Roberto Aguilar, Ivens Machado,
Let&#237;cia Parente, S&#244;nia Andrade, Regina Silveira,
J&#250;lio Plaza, Paulo Herkenhoff, Regina Vater, Fernando
Cocchiarale, Mary Dritschel, &#194;ngelo de Aquino, M&#237;riam
Danowski, Paulo Bruscky e tantos outros. O v&#237;deo nasceu,
portanto, integrado ao projeto de expans&#227;o das artes
pl&#225;sticas, como um meio entre outros, mas no processo criativo
do artista ele nunca chegou a ser encarado com exclusividade.
&#192;s vezes, era mesmo dif&#237;cil compreender os trabalhos de
v&#237;deo-arte fora do conjunto da obra do autor. N&#227;o se
buscava ainda explorar possibilidades de linguagem pr&#243;prias do
v&#237;deo, a n&#227;o ser em um ou outro caso isolado. Mas &#233;
preciso considerar que, naquela &#233;poca, os recursos
tecnol&#243;gicos de que dispunham os artistas brasileiros para
trabalhar com v&#237;deo eram m&#237;nimos. Entre outras coisas,
n&#227;o havia possibilidade de edi&#231;&#227;o: editava-se
diretamente na c&#226;mera durante a grava&#231;&#227;o ou com
l&#226;mina de barbear posteriormente, ou ainda concebia-se o
trabalho num &#250;nico plano cont&#237;nuo, tomado em tempo real,
para que n&#227;o houvesse necessidade de edi&#231;&#227;o.
Enquanto autores como Paik ou Emshwiller, nos Estados Unidos,
trabalhavam como artistas residentes em laborat&#243;rios
eletr&#244;nicos de institui&#231;&#245;es universit&#225;rias ou
de redes p&#250;blicas de televis&#227;o, com a ajuda de
engenheiros e especialistas em tecnologia, no Brasil, os pioneiros
do v&#237;deo n&#227;o podiam contar sen&#227;o com um conjunto de
c&#226;mera e monitor de v&#237;deo. Essa situa&#231;&#227;o
s&#243; seria modificada muito mais tarde, com a evolu&#231;&#227;o
da tecnologia e quando novas gera&#231;&#245;es, mais comprometidas
com a explora&#231;&#227;o exclusiva da imagem eletr&#244;nica,
entrassem em cena. A maioria dos trabalhos produzidos por essa
primeira gera&#231;&#227;o de realizadores de v&#237;deo consistia
fundamentalmente no registro do gesto perform&#225;tico do artista.
O dispositivo b&#225;sico do primeiro v&#237;deo brasileiro
consistia, portanto, quase que exclusivamente no confronto da
c&#226;mera com o artista. A t&#237;tulo de exemplo, num dos
trabalhos mais perturbadores do per&#237;odo, a artista
Let&#237;cia Parente bordou as palavras "Made in Brazil" sobre a
pr&#243;pria planta dos p&#233;s, apontada para a c&#226;mera num
big close up. Num certo sentido, a experi&#234;ncia dos pioneiros
brasileiros faz eco com uma certa ala do v&#237;deo norte-americano
do mesmo per&#237;odo, representada por gente como Vito Acconci,
Joan Jonas, Peter Campus etc., cuja obra consistiu - como observou
na &#233;poca Rosalind Krauss (1978: 43-64) - em colocar o corpo do
artista entre duas m&#225;quinas (a c&#226;mera e o monitor), de
modo a produzir uma imagem instant&#226;nea, como a de um Narciso
mirando-se no espelho. Apesar da prec&#225;ria tecnologia, alguns
trabalhos muitos fortes foram produzidos no per&#237;odo.
S&#244;nia Andrade, por exemplo, realizou quase uma dezena de
experimentos de curta dura&#231;&#227;o que podem ser
inclu&#237;dos entre os mais maduros de sua gera&#231;&#227;o. Ora
temos o rosto da artista totalmente deformado por fios de nylon,
ora ela se imp&#245;e pequenas mutila&#231;&#245;es, tosando os
cabelos do corpo com uma tesoura, ora ainda ela prende a
pr&#243;pria m&#227;o numa mesa com pregos e fios. S&#227;o
trabalhos de uma auto-viol&#234;ncia latente, meio real e meio
fict&#237;cia, atrav&#233;s dos quais Andrade discorre sobre os
t&#234;nues limites entre lucidez e loucura que caracterizam o ato
criador. Um outro aspecto do trabalho da artista &#233; a
interven&#231;&#227;o cr&#237;tica sobre a pr&#243;pria
televis&#227;o, abrangendo tanto os seus aspectos estruturais
quanto ideol&#243;gicos. A <strong>Morte do Horror</strong> (1981),
por exemplo, &#233; uma reflex&#227;o metaling&#252;&#237;stica
sobre o pr&#243;prio ato de enuncia&#231;&#227;o televisual. Nos
seus seis epis&#243;dios brev&#237;ssimos, que mais parecem haicais
&#225;udio-visuais, a tela da televis&#227;o nos mostra, antes de
mais nada, a moldura de uma outra tela de televis&#227;o dentro da
nossa. Ao longo desses epis&#243;dios, a tela vai sendo
sucessivamente esvaziada de seus conte&#250;dos habituais, at&#233;
n&#227;o restar sen&#227;o uma infinidade de aparelhos receptores
colocados uns dentro dos outros, como nas contru&#231;&#245;es em
abismo da her&#225;ldica (cf. Machado, 1985: 58-66). Na mesma
dire&#231;&#227;o situa-se tamb&#233;m o trabalho de Let&#237;cia
Parente, embora com uma perspectiva mais ir&#244;nica: muitas
vezes, trata-se, na obra videogr&#225;fica desta artista, de tornar
sens&#237;vel, atrav&#233;s do absurdo das situa&#231;&#245;es
colocadas em cena, as conven&#231;&#245;es da
representa&#231;&#227;o e a hegemonia de modelos ic&#244;nicos que
nos s&#227;o impostos pela cultura de massa. Essa veia ir&#244;nica
aparece tamb&#233;m nos v&#237;deos de Anna Bella Geiger, que
chegam muitas vezes a assumir abertamente a invers&#227;o
par&#243;dica como forma criativa, &#224; medida que as
implica&#231;&#245;es ideol&#243;gicas do universo das artes e do
contexto pol&#237;tico v&#227;o sendo colocadas cada vez mais
enfaticamente em discuss&#227;o. Desde as s&#233;ries
<strong>Declara&#231;&#227;o em Retrato</strong> e
<strong>Passagens</strong> (ambas de 1975) at&#233; a
v&#237;deo-instala&#231;&#227;o realizada para a XVI Bienal de
S&#227;o Paulo (<strong>Mesa, Friso e V&#237;deo Macios</strong>,
1981), a artista vem estendendo para o v&#237;deo experi&#234;ncias
iniciadas antes no &#226;mbito das artes pl&#225;sticas. Seus
<strong>Mapas Elementares</strong> (1976 a 1977), por exemplo,
s&#227;o jogos ir&#244;nicos envolvendo mapas do Brasil e da
Am&#233;rica Latina ou aberturas de telejornais, onde se explora a
plasticidade do mapa-mundi, objetos lembrando a forma do continente
latino-americano e os pr&#243;prios trabalhos da artista sobre o
assunto (como as suas famosas fatias de p&#227;o com falhas no
miolo imitando o mapa de Brasil). Nesses jogos de fundo conceitual,
Geiger procura discutir o modo como se formam determinados
clich&#234;s ideol&#243;gicos e explorar certas similitudes
sem&#226;nticas ou formais ("antropomorfismos", no dizer da
pr&#243;pria artista) entre o gesto pict&#243;rico e determinados
ritmos musicais. Jos&#233; Roberto Aguilar, por sua vez, &#233; o
primeiro a trazer para a cena do v&#237;deo toda uma
(anti)est&#233;tica tropicalista e underground, que j&#225; tomava
forma, por exemplo, no cinema (J&#250;lio Bressane, Rog&#233;rio
Sganzerla, Andrea Tonacci, Arthur Omar, entre outros) e no teatro
(Z&#233; Celso, Antunes Filho e o argentino Victor Garcia). Os
primeiros trabalhos de Aguilar, realizados parte no Brasil e parte
nos Estados Unidos ou Jap&#227;o, seguem a linha conceitual dos
tapes cariocas, com planos longos e "perform&#225;ticos", editados
com corte mec&#226;nico e fita adesiva. Posteriormente, o trabalho
de Aguilar foi se tornando mais complexo e voltado para a
explora&#231;&#227;o de possibilidades instalativas. <strong>Divina
Com&#233;dia Brasileira</strong> e <strong>Sonho e Contra-sonho de
uma Cidade</strong> (ambos de 1981) s&#227;o trabalhos estruturados
como concerto de v&#237;deo-arte, em que se utilizam dois
gravadores e dois monitores sincronizados em contraponto,
"dialogando" entre si sobre o sentido da arte. Um pouco depois da
experi&#234;ncia carioca e da experi&#234;ncia paulistana do
MAC-USP, mais exatamente a partir de 1977, Roberto Sandoval,
retomando o elo com a v&#237;deo-arte internacional, despontaria
como o primeiro v&#237;deo-artista brasileiro a explorar imagens
inteiramente abstratas (na s&#233;rie <strong>Segmentos</strong>,
produzida entre 1979 e 1981), ao mesmo tempo em que a sua escola de
arte em S&#227;o Paulo (a Aster) e logo depois a sua produtora de
v&#237;deo (a Cockpit) se converteriam nos principais p&#243;los de
aglutina&#231;&#227;o e de suporte instrumental para toda uma
gera&#231;&#227;o de v&#237;deo-artistas paulistanos. Justamente
por dispor de recursos pr&#243;prios e mais sofisticados do ponto
de vista tecnol&#243;gico, Sandoval acumulou um repert&#243;rio de
tapes e cassetes dos mais amplos. E o fato de dispor de uma ilha de
edi&#231;&#227;o permitiu-lhe desenvolver uma t&#233;cnica de
montagem acelerada, com planos brev&#237;ssimos cortados em ritmo
sincopado, t&#233;cnica essa que acabou por identificar o seu
estilo particular. Em <strong>Aleat&#243;rio</strong> (1982), por
exemplo, Sandoval edita em paralelo o ritual de estrangulamento de
uma galinha e a banalidade de uma cena de cabelereiro, acentuando a
ironia da associa&#231;&#227;o atrav&#233;s do ritmo fren&#233;tico
da edi&#231;&#227;o. Em <strong>Matem&#225;gico</strong> (1983),
ele toma a imagem de um artista de circo fazendo
evolu&#231;&#245;es com uma tira de papel colorido e desmonta os
movimentos originais atrav&#233;s do corte r&#225;pido, de modo a
fazer o artista desenhar no espa&#231;o coreografias in&#233;ditas.
Desgra&#231;adamente, por&#233;m, toda a obra de Sandoval e de
grande parte dos outros artistas de seu c&#237;rculo de
influ&#234;ncias desapareceu numa das catastr&#243;ficas enxentes
da cidade, que inundou a produtora Cockpit, onde estava depositada.
Do grupo ligado a Sandoval, quem produziu um dos trabalhos mais
originais foi Regina Silveira, autora de v&#237;deos rigorosos como
uma equa&#231;&#227;o matem&#225;tica. <strong>Sobre a
M&#227;o</strong> (1980), <strong>A Arte de Desenhar</strong>
(1980) e <strong>Morfas</strong> (1981) est&#227;o entre os
melhores trabalhos produzidos pelos pioneiros do v&#237;deo
brasileiro. O &#250;ltimo, particularmente, d&#225; continuidade
&#224; desmontagem dos c&#243;digos convencionais de
representa&#231;&#227;o, que a artista vem realizando atrav&#233;s
de suas obras pict&#243;ricas nas &#250;ltimas d&#233;cadas. Morfas
&#233; uma sucess&#227;o de panor&#226;micas sobre objetos banais
da vida caseira (escova de dentes, sabonetes, pentes,
utens&#237;lios de cozinha etc.), apresentadas de tal forma que o
recorte extremamente fechado do quadro e a proximidade exagerada da
c&#226;mera lhes d&#227;o uma fisionomia estranha, como se os
objetos formassem um besti&#225;rio sobrenatural. <strong>O
Per&#237;do de Transi&#231;&#227;o</strong> Da primeira
gera&#231;&#227;o de realizadores, a maioria logo desistiu do
v&#237;deo e partiu para outras experi&#234;ncias pl&#225;sticas.
Poucos foram os que se mantiveram fi&#233;is aos seus
princ&#237;pios b&#225;sicos e continuaram a sua tradi&#231;&#227;o
ao longo das d&#233;cadas seguintes. Dentre aqueles que deram
continuidade ao projeto est&#233;tico dos pioneiros (simplicidade
formal, uso moderado de tecnologia, inser&#231;&#227;o
"narc&#237;sica" do pr&#243;prio realizador na imagem,
auto-exposi&#231;&#227;o p&#250;blica), o nome mais importante foi,
sem d&#250;vida, o de Rafael Fran&#231;a. Fran&#231;a ocupa,
entretanto, uma posi&#231;&#227;o intermedi&#225;ria dentro da
hist&#243;ria da v&#237;deo-arte brasileira, ou melhor dito: uma
posi&#231;&#227;o de passagem. De um lado, ele &#233; um artista
deslocado em rela&#231;&#227;o ao movimento brasileiro da
v&#237;deo-arte, pois surge fora do eixo Rio-S&#227;o Paulo (ele
&#233; ga&#250;cho de Porto Alegre), onde se concentravam as
produ&#231;&#245;es, e realiza boa parte de sua obra
videogr&#225;fica em Chicago, para onde foi inicialmente estudar e
depois lecionar. Ademais, ele &#233; contempor&#226;neo da segunda
gera&#231;&#227;o do v&#237;deo brasileiro, conhecida mais
genericamente como a gera&#231;&#227;o do v&#237;deo independente,
que tinha entre suas metas principais a conquista de espa&#231;o na
televis&#227;o. Ao contr&#225;rio desta outra vaga, Fran&#231;a se
manteve fiel a sua vis&#227;o cr&#237;tica da televis&#227;o e
achava, como toda a gera&#231;&#227;o dos pioneiros, que o
v&#237;deo era uma coisa bem diferente da televis&#227;o, algo
assim como uma opera&#231;&#227;o de radicalidade e densidade
significante, que jamais poderia penetrar sem concess&#245;es na
tela dom&#233;stica. Fran&#231;a desconfiava tamb&#233;m do
principal circuito de difus&#227;o constitu&#237;do pelos
independentes, o dos festivais de v&#237;deo, que lhe parecia pouco
s&#233;rio, pouco preocupado com conceitos est&#233;ticos e mais
voltado para a revela&#231;&#227;o de talentos para o mercado.
Nesse sentido, embora surgindo num per&#237;odo posterior ao da
primeira gera&#231;&#227;o, Fran&#231;a foi um dos poucos a dar
continuidade &#224; tradi&#231;&#227;o dos pioneiros ao longo de
toda a d&#233;cada de 80. Como acontecia em quase toda a obra da
primeira gera&#231;&#227;o, o personagem principal dos v&#237;deos
de Fran&#231;a &#233; quase sempre ele mesmo, seja figurando
pessoalmente como protagonista, seja se fazendo projetar num outro.
Fran&#231;a encontrou no v&#237;deo um meio adequado para meditar e
especular sobre seus pr&#243;prios conflitos interiores, sobretudo
sobre sua obsess&#227;o maior: a fatalidade da morte. Sua obra, de
cunho bastante pessoal, esteve tamb&#233;m centrada numa
indaga&#231;&#227;o dram&#225;tica sobre a quest&#227;o da
homossexualidade. Talvez seja poss&#237;vel dizer que
<strong>Without Fear of Vertigo</strong> (1987) ocupe um lugar
estrat&#233;gico em sua obra. Nesse v&#237;deo, o pr&#243;prio
Fran&#231;a e v&#225;rios amigos brasileiros e norte-americanos
discutem as experi&#234;ncias do suic&#237;dio e do enfrentamento
da morte, exatamente num momento em que a AIDS come&#231;a
vagarosamente a aparecer como um flagelo, mas um flagelo restrito
(at&#233; aquele momento) &#224; comunidade dos homossexuais. No
final do mesmo trabalho, o artista mostra uma suposta
acarea&#231;&#227;o policial de Peter Whitehall, condenado a cinco
anos de pris&#227;o nos Estados Unidos por ter colaborado no
suic&#237;dio de seu companheiro Yann Bondy. Fran&#231;a morreu em
1991, v&#237;tima da AIDS, depois de ter nos presenteado com um dos
testemunhos mais aut&#234;nticos de fidelidade a si pr&#243;prio.
Seu &#250;ltimo v&#237;deo, <strong>Prel&#250;dio de uma Morte
Anunciada</strong> (1991), terminado alguns dias antes de sua
morte, &#233; uma verdadeira celebra&#231;&#227;o dos valores que
nortearam sua vida e dos quais ele jamais abriu m&#227;o, nem mesmo
nos momentos de maior agonia de sua doen&#231;a. No v&#237;deo, o
pr&#243;prio Fran&#231;a troca car&#237;cias com seu companheiro
Geraldo Rivello, enquanto aparecem na tela os nomes de todos os
amigos brasileiros e norte-americanos que foram vitimados pela AIDS
e a trilha sonora deixa correr uma dilacerante
interpreta&#231;&#227;o de La Traviata pela soprano brasileira Bidu
Sai&#227;o, gravada em 1943. A &#250;ltima coisa que aparece no
v&#237;deo &#233; o texto: "Above all they had no fear of vertigo"
(Apesar de tudo, eles n&#227;o tiveram nenhum medo da vertigem),
que claramente interliga Without a Prel&#250;dio. Se, de um lado,
Fran&#231;a dar&#225; continuidade, nos anos 80, ao projeto
est&#233;tico dos pioneiros, em termos de postura existencial,
radicalidade da empreitada e recusa de subordina&#231;&#227;o aos
valores do mercado, por outro lado, ele ser&#225; tamb&#233;m um
dos primeiros a romper com esse projeto no que ele tem de
indiferen&#231;a semi&#243;tica, avers&#227;o a quest&#245;es
relativas &#224; ret&#243;rica do meio e uma certa
concep&#231;&#227;o meramente instrumental do v&#237;deo (o
v&#237;deo como simples dispositivo de registro). De fato,
Fran&#231;a ser&#225; um dos primeiros videastas brasileiros a se
dedicar seriamente &#224; pesquisa dos meios expressivos do
v&#237;deo e a apontar caminhos criativos para a
organiza&#231;&#227;o das id&#233;ias pl&#225;sticas e
ac&#250;sticas em termos de adequa&#231;&#227;o ao meio. Essa
preocupa&#231;&#227;o jamais foi marginal em sua obra, malgrado o
fato dos aspectos sem&#226;nticos, t&#227;o fortes e impositivos,
muitas vezes saltarem ao primeiro plano com maior &#234;nfase,
obscurecendo as inova&#231;&#245;es no plano sint&#225;tico.
Vejamos um exemplo eloq&#252;ente. Desde as origens da
v&#237;deo-arte, na d&#233;cada de 60, uma das discuss&#245;es mais
complicadas e ainda hoje n&#227;o inteiramente resolvida diz
respeito ao problema da fic&#231;&#227;o no meio eletr&#244;nico.
J&#225; houve mesmo quem defendesse a id&#233;ia de que o
v&#237;deo n&#227;o &#233; um meio adequado a propostas narrativas,
afirma&#231;&#227;o essa que, malgrado contest&#225;vel no plano
te&#243;rico, &#233; corroborada pela pr&#225;tica efetiva do meio.
De fato, nos seus pouco menos de 40 anos de hist&#243;ria, a arte
do v&#237;deo acumulou poucas experi&#234;ncias narrativas
realmente dignas de aten&#231;&#227;o, enquanto a televis&#227;o
demonstrava, por outro lado, que as formas narrativas (s&#233;ries,
novelas) propostas para a tela pequena nunca passaram de
estiliza&#231;&#245;es ou dilui&#231;&#245;es de modelos dados pelo
cinema. Um dos aspectos mais ricos da obra de Rafael Fran&#231;a
&#233; justamente a experimenta&#231;&#227;o de alternativas
criativas para a fic&#231;&#227;o videogr&#225;fica. Pode-se mesmo
dizer que, excetuando-se justamente os dois trabalhos acima citados
- Prel&#250;dio e Without, raros exemplos de registros documentais
na obra de Fran&#231;a - os demais trabalhos s&#227;o sempre
experi&#234;ncias de inven&#231;&#227;o de novas formas narrativas
para o v&#237;deo, sem perder, todavia, o seu aspecto confessional
ou auto-testemunhal mais b&#225;sico. N&#227;o se espere, todavia,
encontrar nos v&#237;deos de Fran&#231;a narrativas cl&#225;ssicas,
&#224; maneira de uma certa literatura ou de um certo cinema, que
nos habituaram com alguns modelos can&#244;nicos de
fic&#231;&#227;o. As narrativas de Fran&#231;a s&#227;o totalmente
experimentais, absolutamente el&#237;pticas e descont&#237;nuas,
explorando coisas como o contraste din&#226;mico entre cortes muito
r&#225;pidos e muito lentos, seq&#252;&#234;ncias inteiras
apresentadas quadro-a-quadro (como se fossem proje&#231;&#245;es de
slides), faux raccords com planos seccionados em plena
dura&#231;&#227;o de uma frase, imagens fora de foco, aus&#234;ncia
de sincronia entre som e imagem, di&#225;logos apresentados de
tr&#225;s para a frente, uso de diferentes texturas de cores ou
preto e branco e assim por diante. <strong>O Sil&#234;ncio Profundo
das Coisas Mortas</strong> (1988), por exemplo, &#233; uma
hist&#243;ria de amor e trai&#231;&#227;o entre dois amantes
homossexuais, onde presente e passado, realidade e mem&#243;ria,
experi&#234;ncia e desejo s&#227;o misturados de forma intrincada e
contaminados ainda pela intromiss&#227;o do social, do urbano (a
cidade, o tr&#226;nsito, o carnaval) na intimidade dos amantes.
<strong>Reencontro</strong> (1984) parece uma
interpreta&#231;&#227;o moderna (ambientada nos duros tempos da
ditadura militar, com refer&#234;ncias expl&#237;citas a
m&#233;todos de tortura) da par&#225;bola de William Wilson,
c&#233;lebre narrativa de Poe sobre um personagem perseguido pelo
seu alter ego e que termina se matando para fugir de si mesmo.
<strong>Getting Out</strong> (1985) &#233; uma narrativa tensa e
claustrof&#243;bica sobre uma mulher que simula a
situa&#231;&#227;o de estar trancada em casa num edif&#237;cio que
se incendeia. <strong>Combat in Vain</strong> (1984) e
<strong>Fighting the Invisible Enemy</strong> (1983), por sua vez,
trabalham com uma absor&#231;&#227;o criativa do efeito zapping
(colagem ca&#243;tica de imagens e sons, semelhante &#224;
varredura r&#225;pida dos canais de televis&#227;o), de modo a
sugerir narrativas estilha&#231;adas, a um passo da completa
dissolu&#231;&#227;o. A esse esfor&#231;o de repensar a
fic&#231;&#227;o no meio eletr&#244;nico, deve-se somar outro,
igualmente sistem&#225;tico, de reinterpretar os recursos
t&#233;cnicos do v&#237;deo numa perspectiva autoral e inventiva.
Ao contr&#225;rio de boa parte de seus companheiros da
gera&#231;&#227;o do v&#237;deo independente, Fran&#231;a n&#227;o
se deixava seduzir pelas m&#225;quinas de efeitos, cada vez mais
freq&#252;entes nos meios eletr&#244;nicos, mas tamb&#233;m
n&#227;o as rejeitava simplesmente. Ele foi, ao contr&#225;rio, um
dos poucos criadores que se empenharam seriamente em pesquisar a
funcionalidade expressiva de cada um desses efeitos, em termos de
rentabilidade dram&#225;tica. Em <strong>Ins&#244;nia</strong>
(1989), por exemplo, uma adapta&#231;&#227;o livre de um texto de
Graciliano Ramos, novamente ambientada no mundo homossexual,
pode-se ver uma utiliza&#231;&#227;o bastante contida e quase
minimalista de certos efeitos digitais utilizados na
televis&#227;o, como a compress&#227;o da imagem ou a
multiplica&#231;&#227;o de telas dentro do quadro
videogr&#225;fico. Fran&#231;a chegou a fazer uma vers&#227;o desse
trabalho para video-wall, um dispositivo caracterizado pela
apresenta&#231;&#227;o excessiva e espetacular, utilizado quase que
exclusivamente na esfera publicit&#225;ria. Nessa vers&#227;o, ele
consegue o que at&#233; ent&#227;o parecia imposs&#237;vel: uma
utiliza&#231;&#227;o intimista, concentrada e reflexiva do
video-wall, logrando, dessa forma, coloc&#225;-lo a servi&#231;o da
narra&#231;&#227;o e n&#227;o da ostenta&#231;&#227;o
tecnol&#243;gica (cf. Machado, 1997a: 75-81). No per&#237;odo de
transi&#231;&#227;o do v&#237;deo brasileiro, deve-se citar ainda a
interven&#231;&#227;o diferenciada de Artur Matuck, que tamb&#233;m
desenvolveu parte de sua obra nos Estados Unidos. Ao todo, o
trabalho de Matuck compreende pouco mais de uma dezena de
v&#237;deos, dos quais uma parte significativa tem
inspira&#231;&#227;o ecol&#243;gica.
<strong>Emanatio-Profanatio</strong> (1977), por exemplo, trata do
sacrif&#237;cio de bezerros por um fazendeiro do estado de
Wisconsin movido por raz&#245;es pol&#237;ticas, enquanto
<strong>Brahminicide</strong> (1977) mostra o processo
tecnol&#243;gico de matan&#231;a de porcos na cidade de Iowa. Numa
perspectiva mais politizada, Matuck fez tamb&#233;m
<strong>Maur&#237;cio Prisoner</strong> (1981),
reconstru&#231;&#227;o fict&#237;cia do lento processo de
enlouquecimento de um militante tupamaro numa pris&#227;o uruguaia.
Para a realiza&#231;&#227;o desse trabalho, Matuck utilizou apenas
um ator, um pequeno quarto com uma escada e os objetos comuns ali
encontrados. As imagens do mundo exterior v&#227;o se
transfigurando lentamente em proje&#231;&#245;es interiores da
fantasia alucinada do prisioneiro. Ainda em 1981, Matuck fez
<strong>Ataris Vort in the Planet Megga</strong> (primeira
vers&#227;o; haveria ainda uma segunda, preparada para a Bienal de
S&#227;o Paulo, em 1983), um enredo experimental de
fic&#231;&#227;o cient&#237;fica, onde o autor usa fartamente os
efeitos eletr&#244;nicos a que teve acesso na Universidade de San
Diego. Esse v&#237;deo daria in&#237;cio a uma s&#233;rie de
experi&#234;ncias, que se desdobrariam durante toda a d&#233;cada
de 80 e come&#231;o dos 90, envolvendo uma estranha esp&#233;cie de
fic&#231;&#227;o cient&#237;fica videogr&#225;fica, com
explora&#231;&#227;o de recursos eletr&#244;nicos at&#233;
ent&#227;o in&#233;ditos. <strong>Segunda gera&#231;&#227;o: o
v&#237;deo independente</strong> No come&#231;o dos anos 80, uma
nova vaga de realizadores viria reorientar a trajet&#243;ria do
v&#237;deo brasileiro. Trata-se da gera&#231;&#227;o do v&#237;deo
independente, constitu&#237;da em geral de jovens rec&#233;m
sa&#237;dos das universidades, que buscavam explorar as
possibilidades da televis&#227;o enquanto sistema expressivo e
transformar a imagem eletr&#244;nica num fato da cultura de nosso
tempo. O horizonte dessa gera&#231;&#227;o &#233; agora a
televis&#227;o e n&#227;o mais o circuito sofisticado dos museus e
galeriais de arte. Muito sintomaticamente, essa outra vaga se
op&#245;e &#224; v&#237;deo-arte dos pioneiros pela tend&#234;ncia
ao document&#225;rio e &#224; tem&#225;tica social. Com sua entrada
barulhenta em cena, o v&#237;deo come&#231;a a sair do gueto
especializado e conquista seu primeiro p&#250;blico. Surgem os
festivais de v&#237;deo, aparecem timidamente as primeiras salas de
exibi&#231;&#227;o e se come&#231;am a esbo&#231;ar
estrat&#233;gias para romper o feudo das redes comerciais de
televis&#227;o. Mas essa televis&#227;o ousada e criativa, que
trazia &#224; luz temas muitas vezes inc&#244;modos, permaneceu,
durante muito tempo, ausente da televis&#227;o propriamente dita.
Esta &#250;ltima ignorou sistematicamente a produ&#231;&#227;o
independente, essa produ&#231;&#227;o que, paradoxalmente, se
prestava de forma perfeita &#224; tela pequena, utilizava com
adequa&#231;&#227;o o tempo televisual e usava criativamente os
recursos eletr&#244;nicos de est&#250;dio. As possibilidades
criativas da televis&#227;o s&#243; puderam, portanto, ser
exploradas fora da televis&#227;o, em circuitos (fechados)
alternativos. Mas a marginaliza&#231;&#227;o do v&#237;deo
independente lhe dava maior intensidade. Menos comprometido com a
centraliza&#231;&#227;o de interesses e com o alto custo do capital
verific&#225;veis no modelo broadcating de televis&#227;o, o
v&#237;deo independente, produzido e difundido fora dos circuitos
oficiais, podia investir no aprofundamento da fun&#231;&#227;o
cultural da televis&#227;o, avan&#231;ando na
experimenta&#231;&#227;o das possibilidades da linguagem
eletr&#244;nica, dando resson&#226;ncia aos graves problemas
sociais do pa&#237;s e buscando exprimir as inquieta&#231;&#245;es
mais agudas do homem de nosso tempo. Ele podia executar, portanto,
uma fun&#231;&#227;o cultural de vanguarda, no sentido produtivo do
termo: ampliar os horizontes, explorar novos caminhos, experimentar
outras possibilidades de utiliza&#231;&#227;o, reverter a
rela&#231;&#227;o de autoridade entre produtor e consumidor, de
modo a for&#231;ar um progresso da institui&#231;&#227;o
convencional da televis&#227;o, demasiado inibida pelo peso dos
interesses que s&#227;o nela colocados em jogo. Se fosse
poss&#237;vel contar todos os grupos e talentos individuais que
surgiram na onda do v&#237;deo independente &#233; poss&#237;vel
que eles somassem por volta de uma centena. Uma vez que seria
imposs&#237;vel tratar isoladamente da experi&#234;ncia de todos
esses grupos, vamos nos deter no exame das experi&#234;ncias que se
revelaram mais f&#233;rteis e que tiveram maior n&#250;mero de
seguidores. A primeira &#233; a de um grupo estreitamente ligado
aos meios vanguard&#237;sticos da cidade de S&#227;o Paulo e que
despontou, no in&#237;cio dos anos 80, com propostas renovadoras de
indiscut&#237;vel impacto. Conhecido pelo nome inventivo de TVDO
(l&#234;-se "TV Tudo"), esse grupo (constitu&#237;do pelos
videomakers Tadeu Jungle, Walter Silveira, Ney Marcondes, Paulo
Priolli e Pedro Vieira) talvez tenha sido a melhor
tradu&#231;&#227;o para a m&#237;dia eletr&#244;nica do
esp&#237;rito demolidor e an&#225;rquico do cinema de Glauber
Rocha. TVDO &#233; tamb&#233;m respons&#225;vel pelas
experi&#234;ncias mais radicais do ponto de vista da
inven&#231;&#227;o formal e da renova&#231;&#227;o dos recursos
expressivos do v&#237;deo. Nesse sentido, seus trabalhos se
aproximam estreitamente de atitudes e procedimentos da
v&#237;deo-arte dos pioneiros e s&#227;o muitas vezes confundidos e
consumidos como tal. No entanto, a familiaridade do grupo com a
televis&#227;o e com as formas em geral da cultura de massa, a sua
resoluta decis&#227;o de operar na fronteira entre a cultura
popular e a erudita (conforme, por exemplo, Ivald Granato in
Performance/ 1984, um "v&#237;deo de artista" trabalhado como se
fosse um espet&#225;culo circence, ou, inversamente, Caipira In/
1987, uma festa popular desconstru&#237;da e tratada como
mat&#233;ria-prima para uma decanta&#231;&#227;o erudita), bem como
tamb&#233;m a sua vontade de intervir criticamente na realidade do
pa&#237;s, tudo isso acaba contribuindo para tornar mais
"acess&#237;veis" e generaliz&#225;veis conquistas formais e
tem&#225;ticas que se d&#227;o na vanguarda da inven&#231;&#227;o
est&#233;tica, sem incorrrer todavia em dilui&#231;&#227;o. Isso
n&#227;o impede, entretanto, que, vez por outra, o grupo contribua
com trabalhos lim&#237;trofes, sem concess&#245;es a um padr&#227;o
de recep&#231;&#227;o mais amplo. Tal &#233; o caso, por exemplo,
de [Rythm(o)z (1986), dirigido por Tadeu Jungle, um conjunto de
seis pe&#231;as de curta dura&#231;&#227;o, sem qualquer
coment&#225;rio verbal, orquestradas por um rigoroso jogo de
composi&#231;&#245;es, com ritmos metron&#244;micos diversos, e que
exploram emo&#231;&#245;es extremas, beirando o nojo e o espanto.
[Rythmz(o)z &#233; algo assim como uma reinven&#231;&#227;o da
produtividade de certos procedimentos expressivos do v&#237;deo (e
do cinema) tais como o corte, a zoom, o plano-seq&#252;&#234;ncia
ou a (des)sincroniza&#231;&#227;o entre som e imagem. Em cada
segmento, apenas um recurso &#233; utilizado, mas de uma forma
concentrada e fulminantemente adequado ao tema focalizado. A
s&#250;mula do universo fragment&#225;rio sugerido pelo grupo
est&#225;, todavia, num outro v&#237;deo dirigido por Tadeu Jungle:
Non Plus Ultra (1985). O que &#233;, afinal, esse v&#237;deo? Um
pouco de tudo: a performance de uma atriz (Maria Alice Vergueiro
interpretando Brecht), a peregrina&#231;&#227;o de um fict&#237;cio
diretor italiano de filmes classe B (Paulo Maia), entrevistas com
personalidades, tais como Fernando Henrique Cardoso (em
franc&#234;s) e Wesley Duke Lee (em ingl&#234;s); depoimentos
exaltados de artistas como J&#250;lio Bressane e Z&#233; Celso;
fragmentos de encena&#231;&#227;o de Ubu Rei pelo grupo
Ornitorrinco; pseudo-reportagens de rua, com Tadeu Jungle criando
situa&#231;&#245;es ins&#243;litas com os transeuntes; quase
v&#237;deo-clipes com o grupo Ultrage a Rigor; Walter Silveira,
paran&#243;ico, correndo infinitamente numa paisagem industrial; e
mais gritos, galinhas, favelas, bananas, mar, Noris Lisboa
repetindo infinitamente "Desespoir!" e pentecostais falando
l&#237;nguas estranhas. Uma verdadeira salada tropical, sem
qualquer outro nexo amarrando os planos a n&#227;o ser uma
no&#231;&#227;o puramente musical de ritmo. A experi&#234;ncia
radical do fragmento &#233; a resposta das novas gera&#231;&#245;es
&#224;s tentativas de totaliza&#231;&#227;o hist&#243;rica e de
s&#237;ntese teleol&#243;gica das gera&#231;&#245;es intelectuais
anteriores, obsecadas pelo projeto ut&#243;pico de
constru&#231;&#227;o de uma "identidade nacional". Agora, o
esp&#237;rito par&#243;dico e o humor c&#237;nico corroem tudo: as
"ra&#237;zes" rurais populistas e os valores urbanos "importados",
o nacionalismo tropical ufanista e o cosmopolitismo predador, o
grotesco da cultura de massa e o ran&#231;o das sobreviv&#234;ncias
eruditas. Como o v&#237;deo n&#227;o pode mais explicar coisa
alguma, Non Plus Ultra radicaliza a experi&#234;ncia da
dispers&#227;o e da d&#250;vida. "&#201; o primeiro v&#237;deo de
um outro tempo: o filiarcado" -- diz um dos letreiros iniciais,
numa refer&#234;ncia expl&#237;cita &#224; derrocada do patriarcado
(ou seja, da autoridade do Pai, do Mestre ou do Guardi&#227;o da
Verdade), em benef&#237;cio da prole e da multiplicidade infinita
de alternativas (cf. Machado, 1991: 30-33). Para se avaliar
corretamente a contribui&#231;&#227;o do v&#237;deo independente
seria necess&#225;rio identificar a natureza do olhar diferenciado
que ele lan&#231;a sobre o Brasil e sobre o seu povo. Essa nova
gera&#231;&#227;o passa agora a rejeitar as
representa&#231;&#245;es totalizadoras, deixa patente nas obras as
suas pr&#243;prias d&#250;vidas e a parcialidade de sua
interven&#231;&#227;o, interroga-se sobre os limites de seu gesto
enunciador e sobre a sua capacidade de conhecer realmente o outro.
Aquele que aponta suas c&#226;meras para o outro n&#227;o se
encontra mais necessariamente numa posi&#231;&#227;o privilegiada
como produtor de sentidos, n&#227;o est&#225; mais autorizado a
dizer toda a verdade sobre o representado, nem est&#225; apto a dar
uma coer&#234;ncia imposs&#237;vel &#224; cultura enfocada. Os
pr&#243;prios realizadores n&#227;o se encontram mais ausentes do
"texto" audiovisual, nem se escondem mais atr&#225;s das
c&#226;meras, de modo a sugerir uma pretensa neutralidade. A
produ&#231;&#227;o de sentidos e a legibilidade dos novos produtos
videogr&#225;ficos v&#227;o depender agora de uma capacidade de
criar novos processos de rela&#231;&#227;o entre as partes em
quest&#227;o. E o que agora se busca realmente &#233; menos dizer a
verdade sobre o outro, revel&#225;-lo, "traduzi-lo" aos nossos
c&#226;nones de inteligibilidade, do que tentar construir uma ponte
entre as culturas, para que elas possam finalmente dialogar.
Diferentes grupos experimentaram diferentes estrat&#233;gias para
obter isso. TVDO, por exemplo. Examinemos Caipira In (Local Groove)
(1987), v&#237;deo de que colaboraram tamb&#233;m alguns
realizadores de fora do grupo, como Roberto Sandoval e Cacilda
Teixeira da Costa. &#192; primeira vista, tudo parece indicar um
desses trabalhos de preserva&#231;&#227;o da cultura popular,
encomendado por alguma institui&#231;&#227;o oficial de arquivo de
imagens ou de elabora&#231;&#227;o da mem&#243;ria nacional. A
id&#233;ia aparente &#233; registrar uma festa religiosa popular
que ocorre anualmente no pequeno povoado de S&#227;o Lu&#237;s do
Paraitinga (SP). Mas o v&#237;deo nega a fun&#231;&#227;o de
registro da c&#226;mera, estabelece uma dist&#226;ncia entre
sujeito e objeto ou entre observador e observado e apaga quase
inteiramente as vozes e os enunciados daqueles sobre quem fala.
Efeitos eletr&#244;nicos de est&#250;dio corroem as imagens tomadas
in loco pelas c&#226;meras, a montagem desintegra qualquer
coer&#234;ncia poss&#237;vel capaz de "explicar" o evento, at&#233;
mesmo os sons gravados diretamente por ocasi&#227;o da festa
s&#227;o processados eletronicamente para que deles n&#227;o reste
sen&#227;o p&#225;lidos vest&#237;gios. Na verdade, Caipira In
&#233; menos um "document&#225;rio" sobre uma festa folcl&#243;rica
do que uma reflex&#227;o sobre a dist&#226;ncia entre duas culturas
irreconcili&#225;veis, ou mais exatamente, uma
demonstra&#231;&#227;o da nossa impossibilidade de vivenciar a
experi&#234;ncia do outro enquanto tal. A "leitura" se revela uma
vers&#227;o entre infinitas outras poss&#237;veis. Os realizadores
interferem, se mostram ostensivamente como uma presen&#231;a
deformante: ao focalizar a cultura do outro, eles n&#227;o se
negam, n&#227;o renunciam ao seu mundo, aos seus pr&#243;prios
valores e &#224; sua cultura, nem se deixam dissolver naquela
outra. Nenhuma pretens&#227;o de objetividade esconde o fato de que
o sujeito da representa&#231;&#227;o, ao se defrontar com a festa
alheia, traz consigo o seu pr&#243;prio mundo, o seu passado e as
suas refer&#234;ncias culturais, a partir das quais e com o filtro
das quais ele aborda o outro. Caipira In &#233;, na verdade, o
relato dessa dist&#226;ncia, a tomada de consci&#234;ncia dela, o
questionamento mesmo da inser&#231;&#227;o do analista numa
realidade que n&#227;o &#233; a sua. Trata-se de um v&#237;deo de
desconstru&#231;&#227;o da ilus&#227;o documental, um v&#237;deo em
que a interven&#231;&#227;o do sujeito enunciador se torna
cr&#237;tica em rela&#231;&#227;o a si mesma. Como ent&#227;o
imaginar uma estrat&#233;gia que permita estender uma ponte entre
duas culturas? Um outro grupo de realizadores vai tentar obter uma
resposta a essa quest&#227;o e, nesse sentido, caminhar&#225; numa
dire&#231;&#227;o bastante diferente de TVDO. Esse outro grupo
&#233; o Olhar Eletr&#244;nico (cuja configura&#231;&#227;o foi
vari&#225;vel ao longo do tempo, mas o seu n&#250;cleo central era
constitu&#237;do basicamente por Marcelo Machado, Fernando
Meirelles, Renato Barbieri, Paulo Morelli e Marcelo Tas). O que vai
buscar o Olhar n&#227;o &#233; mais a separa&#231;&#227;o radical,
mas uma "negocia&#231;&#227;o", uma troca, a possibilidade talvez
de um di&#225;logo, um exerc&#237;cio de polifonia que permita
restituir a multiplicidade de vozes. Agora, aquele que representa
visa inscrever o seu trabalho dentro de um processo de
comunica&#231;&#227;o em que ele &#233; apenas uma dentre as muitas
vozes em conflito. Assim, o Olhar Eletr&#244;nico vai buscar, em
seus trabalhos mais conseq&#252;entes, quebrar qualquer
rela&#231;&#227;o de saber ou de autoridade que possa existir entre
o realizador e o sujeito enfocado, evitando sobrepor &#224;s
imagens deste &#250;ltimo um pretenso discurso da verdade e criando
dispositivos para que o enfocado possa responder ele pr&#243;prio,
com autonomia, &#224;s indaga&#231;&#245;es do primeiro. Trata-se,
fundamentalmente, de inverter o esquema viciado das reportagens das
redes comerciais, que reduzem toda a diversidade ideol&#243;gica,
cultural, ling&#252;&#237;stica, &#233;tnica e religiosa do povo
que habita o pa&#237;s a um discurso integrador e normalizador, o
discurso da institui&#231;&#227;o televisual. Devolver a palavra ao
povo, deixar que o enfocado se coloque livremente, fazer com que as
t&#233;cnicas de produ&#231;&#227;o se tornem transparentes aos
protagonistas -- tais s&#227;o alguns dos princ&#237;pios
norteadores do trabalho do Olhar, que podem ser identificados, por
exemplo, em Do Outro Lado de Sua Casa (1986). Nessa obra exemplar,
os realizadores enfocam o universo cotidiano de um grupo de
mendigos que vivem mais ou menos &#224; margem da sociedade.
N&#227;o h&#225; aqui, entretanto, mais nada daquele sentimento de
comisera&#231;&#227;o ou de culpa que marca uma certa maneira
crist&#227; ou cat&#243;lica de se encarar as popula&#231;&#245;es
humildes. Pelo contr&#225;rio, &#224; medida que o v&#237;deo
evolui, os indigentes come&#231;am a impor o seu pr&#243;prio
discurso e a colocar com autonomia a singularidade de sua
vis&#227;o de mundo. Um dos mendigos, inclusive, acaba por assumir
a pr&#243;pria enuncia&#231;&#227;o do trabalho e, de microfone em
punho, passa ele mesmo a dirigir as entrevistas com seus
pareceiros. Aqui, numa virada perturbadora, o objeto da
investiga&#231;&#227;o passa para tr&#225;s das c&#226;meras e se
torna tamb&#233;m sujeito da investiga&#231;&#227;o, impedindo
qualquer abordagem humilhante para os enfocados (cf. Machado, 1993:
253-274). O Olhar n&#227;o se descuidava, por&#233;m, das
inova&#231;&#245;es formais. Tal como TVDO, foi um dos grupos que
mais ajudaram a sacudir o bolor da m&#237;dia eletr&#244;nica,
experimentando solu&#231;&#245;es arrojadas e jamais antes
encontradas na rotina televisual. O Olhar come&#231;ou realizando
v&#237;deos brev&#237;ssimos, de tr&#234;s ou quatro minutos de
dura&#231;&#227;o, nos quais experimentava uma linguagem de extrema
concentra&#231;&#227;o e explorava de forma inventiva aquilo que os
americanos chamam de machine-gun cut (corte-metralhadora). Na
verdade, a t&#233;cnica da montagem acelerada, com planos bastante
breves e cortados em ritmos sincopados, havia sido introduzida no
Brasil por um pioneiro da v&#237;deo-arte, Roberto Sandoval; o que
fez o Olhar foi dar-lhe conseq&#252;&#234;ncia como forma
po&#233;tica. Assim aconteceu, por exemplo, em Tempos (1982), um
pisca-pisca eletr&#244;nico com imagens "pirateadas" da
televis&#227;o e editadas praticamente no quadro-a-quadro; ou
tamb&#233;m em Marli Normal (1983), o dia-a-dia de uma
escritur&#225;ria, narrado atrav&#233;s de planos rapid&#237;ssimos
em ritmos alternados, por muitos considerado o melhor trabalho do
Olhar. Numa outra linha de experimenta&#231;&#227;o, o Olhar buscou
tamb&#233;m quebrar os modelos de representa&#231;&#227;o que nos
s&#227;o impostos sutilmente atrav&#233;s dos aparatos de
codifica&#231;&#227;o (c&#226;meras, ilhas de edi&#231;&#227;o) e
pelos canais de difus&#227;o. Veja-se o caso de Bras&#237;lia
(1982), um pequeno experimento realizado por Fernando Meirelles. As
imagens que preenchem esse estranho "document&#225;rio" s&#227;o as
paisagens estereotipadas da cidade de onde emana o arb&#237;trio
pol&#237;tico (recordemo-nos de que o v&#237;deo foi realizado em
plena ditadura militar): clich&#234;s, tomadas de cart&#227;o
postal de pal&#225;cios, edif&#237;cios e catedrais, com seus
vitrais coloridos e seus jardins babil&#244;nicos. Nada haveria de
especial nesse trabalho e ele poderia mesmo ser tomado como uma
"vis&#227;o po&#233;tica da cidade" (como foi anunciado num
cat&#225;logo de v&#237;deo) se a sua edi&#231;&#227;o n&#227;o
estivesse arruinada por cont&#237;nuos rompimentos, vazios
estruturais que quebram a continuidade das cenas, deixando a tela
branca v&#225;rias vezes e durante muitos segundos. Esses
"buracos", essas lacunas abalam a coer&#234;ncia figurativa das
imagens, essas imagens que, num outro contexto, poderiam parecer
t&#227;o perenes e familiares, e isso causa uma certa
irrita&#231;&#227;o no espectador, quando n&#227;o a
sensa&#231;&#227;o de que alguma coisa est&#225; errada com esse
v&#237;deo. Como se isso n&#227;o bastasse, os hinos
patri&#243;ticos que preenchem a trilha sonora e que constituem uma
esp&#233;cie de som oficial da cidade encontram-se tamb&#233;m
fragmentados e desarticulados, como se fossem feitos de um tecido
esgar&#231;ado ou tivessem sido corro&#237;dos por alguma estranha
esp&#233;cie de predador (cf. Machado, 1984: 34-42).
<strong>Terceira gera&#231;&#227;o: o v&#237;deo de
cria&#231;&#227;o</strong> A terceira gera&#231;&#227;o de
videomakers brasileiros n&#227;o representa propriamente uma virada
radical de estilo, forma e conte&#250;do em rela&#231;&#227;o
&#224;s outras duas fases j&#225; vividas pelo v&#237;deo. Na
verdade, essa nova gera&#231;&#227;o, que desponta publicamente nos
anos 90, tira proveito de toda a experi&#234;ncia acumulada, faz a
s&#237;ntese das outras duas gera&#231;&#245;es e parte para um
trabalho mais maduro, de solidifica&#231;&#227;o das conquistas
anteriores. A maioria dos representantes dessa nova
gera&#231;&#227;o vem do ciclo do v&#237;deo independente. Muitos
tomaram parte do movimento e integraram grupos no per&#237;odo,
preferindo optar, a partir dos 90, por um trabalho mais pessoal,
mais autoral, menos militante ou socialmente engajado, retomando
portanto certas diretrizes da gera&#231;&#227;o dos pioneiros.
Percebe-se tamb&#233;m nesta terceira gera&#231;&#227;o um certo
afrouxamento das preocupa&#231;&#245;es locais, a fixa&#231;&#227;o
em tem&#225;ticas de interesse universal e um v&#237;nculo mais
direto com a produ&#231;&#227;o videogr&#225;fica internacional.
Alguns realizadores (como &#233; o caso de Sandra Kogut) passam a
produzir fora do Brasil, para poder ter acesso a maiores recursos
financeiros e tecnol&#243;gicos, enquanto outros (como Eder Santos)
utilizam indistintamente materiais gravados no Brasil e fora dele.
Nomes como Sandra Kogut e Eder Santos acabam por se consagrar
internacionalmente, enquanto outros, como Lucilla Meirelles, Walter
Silveira e Arnaldo Antunes, malgrado menos conhecidos no exterior,
resultam bastante respeitados no panorama cultural brasileiro. O
&#250;nico compromisso que une todos os representantes desta
&#250;ltima gera&#231;&#227;o &#233; a investiga&#231;&#227;o de
formas expressivas espec&#237;ficas para o v&#237;deo e a
explora&#231;&#227;o de recursos estil&#237;sticos afinados com a
sensibilidade de homens e mulheres deste final de s&#233;culo. Eder
Santos talvez seja o mais conhecido e difundido dos atuais
realizadores brasileiros de v&#237;deo. Esse fato chega a ser
surpreendente, porque talvez n&#227;o exista atualmente no Brasil
uma obra &#225;udio-visual mais dif&#237;cil e desafiadora do que a
de Santos. Na verdade, pode-se caracterizar os v&#237;deos desse
realizador mineiro como as experi&#234;ncias mais radicais e mais
isentas de concess&#245;es de toda a produ&#231;&#227;o
videogr&#225;fica brasileira. Tanto no que diz respeito aos temas
abordados, quanto aos recursos estil&#237;sticos invocados, a obra
de Santos &#233; de uma originalidade a toda prova e desafia
continuamente os nossos modelos convencionais de leitura. Dentre as
raz&#245;es principais da dificuldade, podemos citar o fato de tais
obras serem constitu&#237;das predominantemente de ru&#237;dos,
interfer&#234;ncias, "defeitos", dist&#250;rbios do aparato
t&#233;cnico e, &#224;s vezes, ro&#231;am mesmo os limites da
visualiza&#231;&#227;o. Em muitas de suas
video-instala&#231;&#245;es, Santos faz projetar imagens de
v&#237;deo sobre paredes texturadas e rugosas, ou ainda sobre dunas
de areia ou ch&#227;o irregular, de modo a perturbar a
inteligibilidade das imagens ou corromper a sua coer&#234;ncia
figurativa. Na video-instala&#231;&#227;o The Desert in My Mind
(1992), por exemplo, os espectadores deviam caminhar sobre as
imagens, com toda a carga sem&#226;ntica desmistificadora que pode
existir no ato de pisar nas imagens. N&#227;o satisfeito com isso,
Santos introduz ainda manchas de luz pulsantes sobre a
superf&#237;cie da tela, ru&#237;dos visuais simulando os
arranh&#245;es caracter&#237;sticos dos velhos filmes
cinematogr&#225;ficos, compromete a estabilidade da imagem
atrav&#233;s de interfer&#234;ncias sobre o sinal de controle
vertical ou atrav&#233;s de uma c&#226;mera "tremida", que lembra
os exerc&#237;cios ing&#234;nuos dos amadores. Embora tudo isso
seja, na verdade, resultado de processamento da imagem em
sofisticadas m&#225;quinas de efeitos digitais, o que se v&#234; na
tela n&#227;o lembra nem de longe os produtos ass&#233;pticos que
normalmente se obt&#233;m com tais recursos. &#192;s vezes, Santos
reprocessa in&#250;meras vezes uma mesma imagem para que, ao longo
das sucessivas gera&#231;&#245;es de c&#243;pias, o sinal
figurativo original obtido pela c&#226;mera entre em processo de
degenera&#231;&#227;o. A verdade &#233; que, pelo menos nos casos
lim&#237;trofes, quase nada sobra para se ver, a n&#227;o ser
p&#225;lidos vest&#237;gios de imagens. Nas tr&#234;s obras em que
essa postura existencial est&#225; melhor colocada - N&#227;o Vou
&#224; &#193;frica porque Tenho Plant&#227;o (1990), Essa Coisa
Nervosa (1991) e Enredando a la Gente (1995) - uma
interfer&#234;ncia deliberada sobre o dispositivo t&#233;cnico
(wipes sucessivas e muito r&#225;pidas, simulando perda constante
do sincronismo vertical dos frames) faz com que as imagens oscilem
o tempo todo diante do olhar do espectador, tornando dif&#237;cil -
&#224;s vezes imposs&#237;vel - a visualiza&#231;&#227;o. J&#225;
em Poscatidevenum (1993), espet&#225;culo multim&#237;dia concebido
em conjunto com o m&#250;sico Paulo Santos (do grupo Uakti) e para
o qual Santos concebeu as imagens projetadas e um v&#237;deo de
documenta&#231;&#227;o (se &#233; que se pode dizer isso de um
v&#237;deo de Eder Santos), a imagem se reduz a puros grafismos
nervosos, riscos e manchas destitu&#237;dos de qualquer homologia
com formas conhecidas do mundo vis&#237;vel. Nesse trabalho, como
tamb&#233;m em muitas das suas instala&#231;&#245;es mais recentes,
Santos opera como um Pollock da era eletr&#244;nica, fazendo uma
arte em que a imagem &#233; mais um gesto iconizado do que o
&#237;ndice de alguma coisa reconhec&#237;vel em termos de
verossimilhan&#231;a. Ademais, a indiferencia&#231;&#227;o
t&#233;cnica entre imagens videogr&#225;ficas e
cinematogr&#225;ficas (eletr&#244;nicas e fotoqu&#237;micas) produz
uma desconcertante varia&#231;&#227;o de texturas pl&#225;sticas,
no lugar da convencional e reconfortante homogeneidade da imagem
industrial a que estamos habituados. O resultado disso tudo &#233;
o envolvimento do espectador numa situa&#231;&#227;o de desconforto
visual e de dispepsia espectorial que ser&#225; fundamental para o
seu enfrentamento da tem&#225;tica proposta. Compreende-se bem essa
f&#250;ria descontrutiva com rela&#231;&#227;o ao
&#225;udio-visual: Santos ataca em seus v&#237;deos justamente a
perda de vitalidade das imagens, sua redu&#231;&#227;o a
clich&#234;s gastos pelo abuso da repeti&#231;&#227;o e, nessa
investida contra a atual degenera&#231;&#227;o das imagens, ele se
mostra implac&#225;vel como poucos. A trivialidade da vida
cotidiana, o comportamento estereotipado, o turismo de massa e a
futilidade dos cart&#245;es postais s&#227;o materiais de que o
realizador lan&#231;a m&#227;o para construir contra eles, mas a
partir deles, uma reflex&#227;o implac&#225;vel sobre a
civiliza&#231;&#227;o contempor&#226;nea. H&#225; um antigo
v&#237;deo de Santos que pode ser considerado o estopim dessa
atitude, digamos assim, desconstrutiva em rela&#231;&#227;o aos
clich&#234;s do mundo das imagens: trata-se de A Europa em Cinco
Minutos (1986). A hist&#243;ria desse v&#237;deo &#233; instrutiva.
Eder Santos foi procurado em sua produtora de v&#237;deo, a
Emv&#237;deo, por um senhor que queria transferir seus antigos
rolos de filmes Super-8 para v&#237;deo. O contato com esse
material foi um choque t&#227;o grande para Santos, que ele decidiu
fazer um v&#237;deo a partir do material registrado em super-8,
v&#237;deo esse que n&#227;o cessa de repercurtir continuamente em
sua obra. Ocorre que o material trazido para transfer&#234;ncia era
constitu&#237;do de uma s&#233;rie de registros (editados
ca&#243;ticamente, sem qualquer ordem) de viagens de turismo, onde
n&#227;o se via outra coisa que monumentos e logradouros
t&#237;picos de cart&#245;es postais, tratados com uma leviandade e
uma superficialidade assustadores. Um "narrador" bomb&#225;stico
comentava ligeiramente as imagens com uma sabedoria digna de
programas de audit&#243;rio. E para que os filmes "n&#227;o
ficassem mon&#243;tonos", o superoitista amador realizava
movimentos vertiginosos, fazendo com que as paisagens
estereotipadas passassem como foguetes diante da c&#226;mera na
m&#227;o. Embora n&#227;o se possa falar, a prop&#243;sito de Eder
Santos, de uma homogeneidade ou de uma unidade discursiva, h&#225;
em sua obra uma tend&#234;ncia inequ&#237;voca de contrapor-se
&#224; atual promiscuidade das imagens, de lan&#231;ar fogo contra
um certo tratamento de superf&#237;cie que predomina na atual vaga
do &#225;udio-visual e de praticar, ao mesmo tempo, uma
esp&#233;cie de ecologia do olhar. Na trilogia j&#225; citada
acima, v&#234;-se o tempo todo ecos d'A Europa em cinco Minutos:
fragmentos de cart&#245;es postais, lampejos de paisagens visitas
por olhos profanos, peda&#231;os inarticulados de discursos. Ao
mesmo tempo, os depoimentos (n&#227;o se sabe sobre o qu&#234;
exatamente; eles est&#227;o fora de qualquer contexto) apontam
insistentemente para as entrevistas da televis&#227;o e do
jornalismo cotidiano. Ali&#225;s, embora a televis&#227;o n&#227;o
esteja explicitamente nomeada nas obras, ela &#233; em d&#250;vida
o alvo principal da investida desses v&#237;deos e filmes. &#201;
com a televis&#227;o e seu fluxo de imagens na maior parte das
vezes prom&#237;scuas que Eder polemiza o tempo todo e &#233; na
televis&#227;o que ele quer, no mesmo &#237;mpeto, retomar uma
certa energia primordial, sufocada pelo tr&#225;fico de lixo
comercial. Em Enredando a la Gente (caso t&#237;pico de
"cinev&#237;deo", filme que utiliza fartamente recursos
eletr&#244;nicos), h&#225; mesmo uma refer&#234;ncia
metaf&#243;rica a "civiliza&#231;&#245;es controladas pelas
imagens", que se deixam invadir por elas, contaminar-se por elas,
mobilizar-se por elas, como as religi&#245;es lograram concretizar
at&#233; algum tempo atr&#225;s. Na dire&#231;&#227;o
contr&#225;ria, uma obra como Jana&#250;ba (1993) mostra o ideal
que Santos busca incansavelmente: recuperar a energia primordial
das artes visuais, restabelecer o sentido e a for&#231;a das
imagens, que se teriam perdido no atual oceano de imagens
industriais. Inspirado remotamente num filme antigo e
mitol&#243;gico do cinema mudo brasileiro (Limite de M&#225;rio
Peixoto), Jana&#250;ba &#233; quase um retorno &#224;s origens do
&#225;udio-visual, na tentativa de retomar valores que a
civiliza&#231;&#227;o olvidou (cf. Machado, 1997b: 94-97). Outra
&#233; a perspectiva do trabalho de Sandra Kogut, que parece
concentrar e exprimir as tend&#234;ncias mais decisivamente
inovadoras da arte do v&#237;deo, ao mesmo tempo em que radicaliza
o processo iniciado por Nam June Paik de eletrifica&#231;&#227;o da
imagem e de desintegra&#231;&#227;o de toda e qualquer unidade ou
homogeneidade discursiva. A t&#233;cnica da escritura m&#250;ltipla
que marca esse trabalho, em que texto, vozes, ru&#237;dos e imagens
simult&#226;neas se combinam e se entrechocam para compor um tecido
de rara complexidade, constitui a pr&#243;pria evid&#234;ncia
estrutural daquilo que modernamente n&#243;s convecionamos chamar
de uma est&#233;tica da satura&#231;&#227;o, do excesso (a
m&#225;xima concentra&#231;&#227;o de informa&#231;&#227;o num
m&#237;nimo de espa&#231;o-tempo) e tamb&#233;m da instabilidade
(aus&#234;ncia quase absoluta de qualquer integridade estrutural ou
de qualquer sistematiza&#231;&#227;o tem&#225;tica ou
estil&#237;stica). Se for poss&#237;vel reduzir a uma palavra o
projeto est&#233;tico que est&#225; pressuposto na obra
videogr&#225;fica de Sandra Kogut, podemos dizer que se trata de
uma procura sem tr&#233;guas dessa multiplicidade que exprime o
modo de conhecimento do homem contempor&#226;neo. O mundo &#233;
visto e representado como uma trama de rela&#231;&#245;es de uma
complexidade inextric&#225;vel, onde cada instante est&#225;
marcado pela presen&#231;a simult&#226;nea de elementos os mais
heterog&#234;neos e tudo isso ocorre num movimento vertiginoso, que
torna mutantes e escorregadios todos os eventos, todos os
contextos, todas as opera&#231;&#245;es. Veja-se o exemplo da
s&#233;rie Parabolic People (1991): recursos de edi&#231;&#227;o e
processamento digital permitem jogar para dentro do quadro
televisual uma quantidade quase infinita de imagens (mais
exatamente, fragmentos de imagens), faz&#234;-las combinarem-se em
arranjos inesperados, para, logo em seguida, repensar e questionar
esses arranjos, redefinindo-os em novas combina&#231;&#245;es. A
t&#233;cnica mais utilizada consiste em abrir "janelas" dentro do
quadro para nelas invocar novas imagens, de modo a tornar a tela um]]></description>			<link>http://artemar2007.arteblog.com.br/37650/A-Chegada-do-Video-no-Brasil/</link>			<comments>http://artemar2007.arteblog.com.br/A-Chegada-do-Video-no-Brasil-19122007-221420-lp-37650.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://artemar2007.arteblog.com.br/37650/A-Chegada-do-Video-no-Brasil/</guid>			<pubDate>Wed, 19 Dec 2007 22:14:20 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[PROV.PROJ19 016]]></title>			<description><![CDATA[]]></description>			<link>http://artemar2007.arteblog.com.br/37645/PROV-PROJ19-016/</link>			<comments>http://artemar2007.arteblog.com.br/PROV-PROJ19-016-19122007-220755-lp-37645.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://artemar2007.arteblog.com.br/37645/PROV-PROJ19-016/</guid>			<pubDate>Wed, 19 Dec 2007 22:07:55 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Autores do Teatro Brasileiro]]></title>			<description><![CDATA[



 











<strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">NELSON
RODRIGUES</span></strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Nelson
Rodrigues (1912-1980) modernizou o palco brasileiro com a autoria
da pe&#231;a <em>Vestido de Noiva</em>, estreada em 1943. A
montagem do diretor polon&#234;s Ziembinski e a cenografia do
pintor Santa Rosa foram fundamentais, tamb&#233;m, para o processo
de moderniza&#231;&#227;o.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Os tr&#234;s
planos do texto - realidade, mem&#243;ria e alucina&#231;&#227;o -
privilegiaram o subconsciente da hero&#237;na, novidade num teatro
que ainda se movimentava na psicologia tradicional. A <em>Mulher
Sem Pecado</em> (1941), que lan&#231;ou o autor, j&#225; estava
prestes a romper a censura do consciente. Se <em>Vestido de
Noiva</em> &#233; a proje&#231;&#227;o exterior da mente da
protagonista, o mon&#243;logo <em>Valsa n&#186; 6</em> (1951)
incorpora o mundo exterior ao desempenho da hero&#237;na, que
encarna em cena as personagens de seu conv&#237;vio. S&#227;o ainda
exemplos de pe&#231;as psicol&#243;gicas <em>Vi&#250;va, Por&#233;m
Honesta</em> (1957) e <em>Anti-Nelson Rodrigues</em> (1973), mais
aparentadas objetivamente &#224; biografia do
dramaturgo</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">&#192;s duas
primeiras obras psicol&#243;gicas sucedeu a fase que se poderia
denominar m&#237;tica, porque privilegia o inconsciente coletivo,
os arqu&#233;tipos, os mitos ancestrais. Figuram nela
<em>&#193;lbum de Fam&#237;lia</em> (1945), explos&#227;o do
incesto num n&#250;cleo primitivo; <em>Anjo Negro</em> (1946),
abertura da ferida racial; <em>Senhora dos Afogados</em> (1947),
transposi&#231;&#227;o da <em>Or&#233;stia</em>, de &#201;squilo e
de <em>O Luto Assenta a Electra</em>, de O'Neill; e
<em>Dorot&#233;ia</em> (1949), trag&#233;dia do pecado contra o
amor, transmitida por v&#225;rias gera&#231;&#245;es
femininas.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Esgotada a
incurs&#227;o no inconsciente e estimulado pelo &#234;xito popular
dos contos-cr&#244;nicas de <em>A Vida Como Ela &#201;...</em>,
publicados diariamente na imprensa, Nelson Rodrigues procedeu a uma
s&#237;ntese das pe&#231;as psicol&#243;gicas e das m&#237;ticas,
ainda que as fronteiras das v&#225;rias fases nunca se mostrassem
muito n&#237;tidas e funcionem sobretudo para fins did&#225;ticos.
Surgiram, assim, as trag&#233;dias cariocas, bloco mais numeroso e
compacto da dramaturgia rodriguiana, formado por <em>A
Falecida</em> (1953), <em>Perdoa-me por me Tra&#237;res</em>
(1957), <em>Os Sete Gatinhos</em> (1958), <em>Boca de Ouro</em>
(1959), <em>O Beijo no Asfalto</em> (1961), <em>Otto Lara
Resende</em> ou <em>Bonitinha, mas Ordin&#225;ria</em> (1962),
<em>Toda Nudez Ser&#225; Castigada</em> (1965) e <em>A
Serpente</em> (1978).</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Nas
trag&#233;dias cariocas fundem-se, em geral, a realidade,
freq&#252;entemente vinculada &#224; Zona Norte do Rio, e o mundo
interior das personagens, com suas fantasias nutridas de mitos. O
prosa&#237;smo das vidas truncadas, maltratadas por um cotidiano
infeliz, se resgata pela presen&#231;a sempre vigorosa da
transcend&#234;ncia, dando ao destino humano um sentido
superior.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span><strong>
<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">DIAS
GOMES</span></strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Na
seq&#252;&#234;ncia de pe&#231;as que, na d&#233;cada de
cinq&#252;enta, vinham trazendo acr&#233;scimos tem&#225;ticos
&#224; dramaturgia brasileira, Dias Gomes (n. 1922) lan&#231;ou, em
1960, no Teatro Brasileiro de Com&#233;dia</span>  de
S&#227;o Paulo, <em>O Pagador de Promessas</em>, que tem como pano
de fundo o problema do sincretismo religioso. Z&#233;-do-Burro faz
uma promessa a Iansan e pretende pag&#225;-la no interior de uma
igreja de Santa B&#225;rbara, em Salvador - a popular Iansan &#233;
sin&#244;nimo da santa cat&#243;lica. Mas o padre, movido por
intoler&#226;ncia, n&#227;o admite o que julga ser sacril&#233;gio,
provocando uma trag&#233;dia.<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Para a
cr&#237;tica e o p&#250;blico, a estr&#233;ia pareceu a
revela&#231;&#227;o de um autor maduro. A verdade &#233; que Dias
Gomes, aos 15 anos, com <em>A Com&#233;dia dos Moralistas</em>,
j&#225; havia ganho um pr&#234;mio do Servi&#231;o Nacional de
Teatro, e, em 1943, assinou contrato de exclusividade com
Proc&#243;pio Ferreira, considerado ent&#227;o o maior ator
brasileiro. Dos cinco textos que escreveu naquele ano, o dramaturgo
teve tr&#234;s interpretados por Proc&#243;pio.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">A partir de
<em>O Pagador</em>, que recebeu em 1962 a Palma de Ouro do Festival
de Cannes, na vers&#227;o cinematogr&#225;fica, Dias Gomes
construiu uma das mais s&#243;lidas e continuadas carreiras
dramat&#250;rgicas. Alguns de seus t&#237;tulos expressivos
s&#227;o <em>A Invas&#227;o</em>, <em>A Revolu&#231;&#227;o dos
Beatos</em>, <em>O Bem Amado</em>, <em>O Ber&#231;o do
Her&#243;i</em>, <em>O Santo Inqu&#233;rito</em>, <em>Vargas - Dr.
Get&#250;lio</em>, <em>Sua Vida e Sua Gl&#243;ria</em> (em parceria
com Ferreira Gullar) e <em>Amor em Campo Minado</em>.
<em>Campe&#245;es do Mundo</em>, que estreou em 1980, teve uma
import&#226;ncia hist&#243;rica fundamental: foi a primeira
pe&#231;a a fazer um balan&#231;o da pol&#237;tica brasileira,
desde o golpe militar de 1964 at&#233; a abertura de 1979, com
inteira liberdade, sem precisar recorrer a met&#225;foras e
alus&#245;es para iludir a Censura.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Em <em>Meu
Reino por um Cavalo</em>, estreada em 1989, Dias Gomes se desnuda
corajosamente, problematizando a crise da maturidade. S&#227;o
numerosas, tamb&#233;m, as telenovelas que ele escreveu, com grande
aceita&#231;&#227;o popular.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span><strong>
<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">ODUVALDO
VIANNA FILHO</span></strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span><span style="font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">
Em apenas 38 anos de vida, Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) deixou
obra consider&#225;vel, das mais s&#243;lidas da moderna
dramaturgia brasileira. Desde a estr&#233;ia, em 1959, no Teatro
de Arena de S&#227;o Paulo ajudando a consolidar a linha de
prest&#237;gio ao autor nacional, com <em>Chapetuba Futebol
Clube</em>, est&#227;o patentes seus m&#233;ritos: a sensibilidade,
a delicadeza, a finura psicol&#243;gica, o di&#225;logo de bom
n&#237;vel liter&#225;rio e a firmeza ideol&#243;gica na
an&#225;lise dos problemas sociais.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Por meio da
figura do anti-her&#243;i, ele pinta sucessivos conflitos
existenciais, em que impiedosa engrenagem acaba por sufocar o
indiv&#237;duo. O fen&#244;meno ocorre em <em>Corpo a Corpo</em> e
<em>A Longa Noite de Cristal</em>, bem como em <em>Mo&#231;o em
Estado de S&#237;tio</em> e <em>M&#227;o na Luva</em>, vindas a
p&#250;blico depois da morte do autor. Em <em>Mo&#231;o</em>,
assiste-se &#224; dolorosa passagem do idealismo da juventude para
o realismo da maturidade, com seu s&#233;quito de
frustra&#231;&#245;es, sordidezes e compromissos ingl&#243;rios.
Biografia simb&#243;lica n&#227;o s&#243; do intelectual, mas de
parcela ponder&#225;vel dos profissionais
liberais.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">J&#225;
<em>M&#227;o na Luva</em> trata do relacionamento de um casal,
longe do amor piegas, inconsciente, alienado. A hist&#243;ria
sentimental inscreve-se, por&#233;m, no macrocosmo da vida
p&#250;blica dos protagonistas - sobretudo os problemas do homem
como jornalista, a luta para n&#227;o ceder &#224;s press&#245;es
de uma empresa desejosa de majorar as tarifas, a coer&#234;ncia
profissional etc.</span><em><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Papa
Highirte</span></em> <span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">e <em>Rasga
Cora&#231;&#227;o</em>, as duas obras-primas legadas por Vianinha,
foram premiadas em concursos promovidos pelo ent&#227;o
Servi&#231;o Nacional de Teatro e logo receberam o veto da Censura,
levantado depois da abertura pol&#237;tica. <em>Papa Highirte</em>
fixa o ocaso de um ditador latino-americano, &#224;s voltas, no
ex&#237;lio, com as obsess&#245;es e os fantasmas do passado. Por
mais que ele se veja como um homem bom, sua a&#231;&#227;o ou
omiss&#227;o fez um cortejo de v&#237;timas. E o texto se
constr&#243;i em torno do ajuste de contas fatal, quando ele
cogitava do regresso ao seu Pa&#237;s</span><em><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Rasga
Cora&#231;&#227;o</span></em><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">, cujo fim o
dramaturgo ditou no leito de morte, como um testamento espiritual,
realiza um painel social do Brasil nas quatro d&#233;cadas
anteriores, adotando a perspectiva de um militante an&#244;nimo da
esquerda. Desfilam nos epis&#243;dios evocados a esperan&#231;a de
constru&#231;&#227;o de um Pa&#237;s justo, ideal sempre frustrado
pelos sucessivos golpes da direita. E o conjunto se engrandece pela
majestosa arquitetura do texto.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span><strong>
<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">ARIANO
SUASSUNA</span></strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Estreado no
Recife em 1956, o <em>Auto da Compadecida</em> viajou para o Rio de
Janeiro, consagrando Ariano Suassuna (n. 1927), de imediato, como
um dos mais importantes dramaturgos brasileiros. A obra continha um
achado que fundia duas tradi&#231;&#245;es caras &#224;
nacionalidade: o teatro religioso medieval, que nutriu Gil Vicente,
fundador do palco portugu&#234;s, bem como o jesu&#237;ta Jos&#233;
de Anchieta, que inaugurou a cena brasileira; e o popul&#225;rio
nordestino, de riqueza incompar&#225;vel nas personagens e
situa&#231;&#245;es.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Acreditava o
dramaturgo paraibano que se vivia, ent&#227;o, a &#233;poca
elisabetana - "estamos num tempo semelhante ao que produziu
Moli&#232;re, Gil Vicente, Shakespeare etc." Com verve
admir&#225;vel, ele aliou o espont&#226;neo ao elaborado, o popular
ao erudito, a linguagem comum ao estilo terso, o regional ao
universal. A religiosidade aut&#234;ntica de <em>A Compadecida</em>
alimenta-se do melhor sentido que possa ter a palavra
miseric&#243;rdia, guardando uma irrever&#234;ncia voltada contra o
preconceito, ao criar um Cristo negro.</span><em><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">O Arco
Desolado</span></em> <span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">baseou-se na
mesma lenda de <em>A Vida &#233; Sonho</em>, de Calder&#243;n de la
Barca. O <em>Auto de Jo&#227;o da Cruz</em> dramatiza uma aventura
faustiana. E <em>O Santo e a Porca</em>, vers&#227;o brasileira do
tema do avarento, inspira-se na <em>Aulularia (Com&#233;dia da
Panela)</em>, de Plauto, e no <em>L'Avare</em>, de Moli&#232;re,
tornando-se uma moralidade ao sabor do Nordeste.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">A Pena e a
Lei talvez seja a obra mais ambiciosa de Suassuna, na medida em que
&#233; uma s&#237;ntese de contos populares e de exigente
inspira&#231;&#227;o erudita, <em>Commedia dell'Arte</em> e auto
sacramental, s&#225;tira de costumes e arguta mensagem
teol&#243;gica, divertimento nordestino e proposi&#231;&#227;o de
alcance gen&#233;rico, hist&#243;ria concreta e v&#244;o para
regi&#245;es abstratas, mamulengo e metaf&#237;sica - enfim uma
verdadeira s&#250;mula do teatro.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">De volta
agora ao palco, depois de longo intervalo romanesco, Ariano
Suassuna tem muito a oferecer, ainda, &#224; arte
brasileira.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span><strong>
<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">AUGUSTO
BOAL</span></strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Augusto Boal
(n. 1931) tem expressiva obra de dramaturgo al&#233;m de ser
conhecido internacionalmente, com tradu&#231;&#245;es em mais de
vinte l&#237;nguas, de suas teorias acerca do Teatro do
Oprimido.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Depois de
cursar dramaturgia, nos Estados Unidos, com John Gassner, Boal
passou a dirigir no Teatro de Arena de S&#227;o Paulo onde
houve a estr&#233;ia, em 1960, de sua pe&#231;a
<em>Revolu&#231;&#227;o na Am&#233;rica do Sul</em>, protagonizada
pelo homem do povo Jos&#233; da Silva, v&#237;tima de todas as
explora&#231;&#245;es da classe dominante. Com verve
extraordin&#225;ria, que apela para o &#233;pico, a farsa deslavada
e o quase riso circense, as situa&#231;&#245;es alcan&#231;am poder
corrosivo incomum.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Desferido o
golpe militar de 1964, Boal, de parceria com Gianfrancesco
Guarnieri, que inaugurou com <em>Eles N&#227;o Usam Black-tie</em>
a linha nacionalista do Arena, lan&#231;ou <em>Arena Conta
Zumbi</em> e mais tarde <em>Arena Conta Tiradentes</em>, utilizando
dois her&#243;is hist&#243;ricos, sacrificados na luta pela
liberdade, como met&#225;fora contra a opress&#227;o do momento.
Outro texto representativo de Boal &#233; Murro em Ponta de Faca,
dramatiza&#231;&#227;o de seu longo ex&#237;lio, que se seguiu
&#224; pris&#227;o e &#224; tortura.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">V&#225;rios
livros d&#227;o conta do Teatro do Oprimido, assinalando-se os mais
recentes <em>Stop: C'est Magique</em> e <em>O Arco-&#205;ris do
Desejo (M&#233;todo Boal de Teatro e Terapia)</em>. A melhor
defini&#231;&#227;o para ele "seria a de que se trata do teatro das
classes oprimidas e de todos os oprimidos, mesmo no interior dessas
classes". As t&#233;cnicas para desenvolv&#234;-lo compreendem o
teatro invis&#237;vel, o teatro-imagem e o teatro-foro, e visam a
transformar o espectador em protagonista da a&#231;&#227;o
dram&#225;tica e, "atrav&#233;s dessa transforma&#231;&#227;o,
ajudar o espectador a preparar a&#231;&#245;es reais que o conduzam
&#224; pr&#243;pria libera&#231;&#227;o".</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Em
<em>Teatro Legislativo</em>, livro no qual o dramaturgo e
ensa&#237;sta aproveita a sua experi&#234;ncia como vereador do Rio
de Janeiro, encerrada em 1996, o espectador convertido em ator
busca um novo est&#225;dio - o cidad&#227;o se transforma em
legislador</span><strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">O TEATRO DE
ARENA</span></strong><strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span></strong><span style="font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">
A principal caracter&#237;stica do Teatro de Arena, fundado em
S&#227;o Paulo em 1953, tendo &#224; frente Jos&#233; Renato -
egresso, como outros, da Escola de Arte Dram&#225;tica -, foi a de
nacionalizar o palco brasileiro, a partir da estr&#233;ia de
<em>Eles N&#227;o Usam Black-tie</em>, de Gianfrancesco Guarnieri,
em 1958.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">No
in&#237;cio, o grupo, que foi o primeiro na Am&#233;rica do Sul a
utilizar a cena circular envolvida pelo p&#250;blico, visava
sobretudo &#224; economia do espet&#225;culo, adotando as mesmas
premissas est&#233;ticas do Teatro Brasileiro de
Com&#233;dia</span>  com o ecletismo de repert&#243;rio.
Sem a necessidade de cen&#225;rios, atuando em locais improvisados,
o grupo podia abolir muitas despesas.<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">Mesmo assim,
tendo inaugurado em 1955 a sala da rua Theodoro Bayma, o Arena, em
dif&#237;cil situa&#231;&#227;o financeira, preferiu fechar as
portas com uma pe&#231;a de um de seus atores, origin&#225;rio do
Teatro Paulista do Estudante, ao qual se uniu para formar-se o
Elenco Est&#225;vel: Gianfrancesco Guarnieri. <em>Black-tie</em>
n&#227;o s&#243; se constituiu um grande sucesso de mais de um ano
em cartaz, como iniciou a linha de prest&#237;gio da dramaturgia
brasileira, continuada por <em>Chapetuba Futebol Clube</em>, de
Oduvaldo Vianna Filho <em>Revolu&#231;&#227;o na
Am&#233;rica do Sul</em>, de Augusto Boal e outros textos,
aprovados no Semin&#225;rio de Dramaturgia que ali se
criou.</span><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">O Arena, com
a colabora&#231;&#227;o de Augusto Boal, conhecedor das
experi&#234;ncias do Actors'Studio, nos Estados Unidos, empenhou-se
tamb&#233;m na procura de um estilo brasileiro de
encena&#231;&#227;o e de desempenho. A seguir, promoveu a
nacionaliza&#231;&#227;o dos cl&#225;ssicos. Veio depois a fase dos
musicais, expressa por Arena Conta Zumbi</span>  e
<em>Arena Conta Tiradentes</em>, de Guarnieri e Boal. Com o Sistema
Curinga, a&#237; adotado, abrasileirou-se o teatro &#233;pico de
Brecht.<span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana">A
repress&#227;o violenta da ditadura, principalmente com o Ato
Institucional n&#186; 5, de 1968, ainda permitiu a Augusto Boal
fazer a experi&#234;ncia do <em>Teatro Jornal</em>, primeiro passo
de seu Teatro do Oprimido, que se desenvolveu no exterior nas
formas do Teatro Invis&#237;vel e do Teatro-Foro. Mas seu
ex&#237;lio, em 1971, j&#225; afastados outros valores do grupo,
interrompeu a grande trajet&#243;ria do Teatro de
Arena.</span><strong><span style=
"font-size: 10pt; color: purple; font-family: Verdana"> </span></strong>







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