<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0">	<channel>		<title>[arteblog.com.br] alexandrehreis : <![CDATA[Alexandre H. Reis - Visões sobre o mundo]]></title>		<link>http://alexandrehreis.arteblog.com.br</link>		<description><![CDATA[Alexandre H. Reis - Visões sobre o mundo]]></description>		<language>br</language>		<copyright>Copyright (c) 2006, Hi-pi</copyright>		<generator>Hi-pi RSS 2.0 generator</generator>		<docs>http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss</docs>		<pubDate>Fri, 18 Apr 2008 20:08:08 +0200</pubDate>		<item>			<title><![CDATA[RESPOSTA À CRÍTICA DO LIVRO VITA]]></title>			<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style=
"color: black; font-family: Verdana;">Recebi um belíssimo presente no início deste ano,
pena que somente agora pude realmente interromper minha jornada de
trabalho, respirar, e apreciar o presente. Trata-se de uma
crítica do livro <em><span style=
"font-family: Verdana; mso-bidi-font-family: Arial;">Vita - breves
pensamentos sobre a vida e a morte,</span></em> que lancei no final
do ano passado, escrita pelo Lúcio Emílio em seu
riquíssimo blog Penetrália. O artigo é, em
verdade, um convite ao debate, com elogios dos quais não sou
merecedor, e críticas que são bem-vindas por provocar
o diálogo que move e faz renascer o espírito
filosófico.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"color: black; font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="color: black; font-family: Verdana;">Não me surpreende que minha primeira
crítica tenha comparado meu livro com o estilo de Nietzsche
e que tenha respirado ali um ar pró-vindo do século
XIX. Talvez este seja o século do qual mais me influencio,
com o qual mais dialogo. A provocação da clonagem do
estilo é bem humorada, bem informada, e alimenta uma boa
discussão. Agradeço imensamente ao Lúcio por
isso. Eu diria, no entanto, que Nietzsche não é a
única influência na parte estrutural de meu livro.
Incluiria aí um Schopenhauer, um La Rochefoucauld, um
Pascal, um La Bruyère, talvez Heráclito e até
mesmo o impressionante Aníbal Machado. Mas, digamos, meus
escritores prediletos não escreveram apenas aforismos, nos
legando um estilo que muitas vezes se apresenta ou experimenta
outras tantas formas de expressão.</span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="color: black; font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"font-family: Verdana;">O estilo aforismático não foi escolhido
devido à leitura desses grandes mestres da pena, mas sim
pelo objeto do qual se escolheu tratar. Sempre me pareceu um
contra-senso falar sobre a morte. Mas, digamos, esse problema
não me deixou em paz um minuto sequer em minha
formação filosófica. Não cabe aqui, nem
mesmo cabe em mim, fazer uma auto-biografia, mas, digamos, esse
é um problema que sempre habitou minha casa. Talvez eu tenha
escolhido a filosofia, na insensatez da adolescência, apenas
para lidar com o problema da morte. Talvez esta seja uma verdade
para a qual ainda não abri os olhos. E talvez a morte tenha
me conduzido ao contra-senso de não me calar diante dela,
que insistiu em bater à porta de minha casa por três
vezes. Não é o lugar nem a idade para uma
autobiografia. Quero apenas com isso dizer que o tema não
foi "escolhido" propriamente, mas talvez imposto pelas
terríveis e admiráveis Euríneas, e o aforismo
me pareceu ser o estilo mais apropriado pela recusa da linguagem
conceitual ou sistemática, uma vez que entendo que a
complexidade do tema não cabe nas roupagens de um
conceito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"font-family: Verdana;">Meu caríssimo Lúcio Emílio pode aqui
me dizer, e com razão, que essa tese é propriamente
nietzscheana, uma vez que a preocupação com o modo de
expressão esteve presente em toda a obra do filho do pastor
alemão. Nietzsche teria escolhido o aforismo, por exemplo,
em <em>Humano, demasiado humano,</em> numa tentativa de romper com
a tradição filosófica mais sistemática
e conceitual. Isso se recusarmos a tese de Eugen Fink que nos diz
que ele só escreveu aforismos por que não tinha
saúde para elaborar um texto de fôlego, devido
às constantes crises de cefaléia causadas por sua
doença (sífilis). Mas não me parece, contudo,
que a originalidade seja algo possível ou mesmo
desejável. O nietzscheano Heidegger nos legou um aforismo
que carrego comigo, como se este aforismo revelasse para mim uma
verdade na qual teimo em acreditar: Danken ist denken! Pensar
é agradecer! E com isso entendo que qualquer
consciência filosófica não surge do nada,
não surge sem um diálogo com os grandes mestres e com
os amigos, que sempre proporcionam a arte de pensar. E aqui
faço um agradecimento público ao meu grande amigo
Ramon Maia e ao brilhante (o blog Penetrália justifica o
adjetivo) Lúcio Emílio. O primeiro encorajou-me ao
debate, ao aceitar publicar meu livrinho; o segundo deu-a honra do
debate.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"font-family: Verdana;">Gostaria de fazer uma defesa do meu infortunado aforismo
144. Para tanto, cito o texto do Lúcio que já traz o
pobre fragmento:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style=
"font-family: Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt; text-align: justify; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;">
<em><span style="font-family: Verdana;">&ldquo;O outro ponto problemático
foram alguns elogios a Hitler no aforisma número
144:</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 0pt 72pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;">
<em><span style="font-family: Verdana;">Comércio exterior. A Alemanha teve
o seu Führer na desastrosa figura de Hitler, que era astuto,
relativamente inteligente, mas não auto-suficiente: os
Estados Unidos souberam tirar proveito deste fato, aumentando seu
poder econômico sob as máscaras de sua propaganda
anti-hitlerista e emprestando suas admiráveis maquininhas
para a contabilidade e reconhecimento dos judeus (REIS, 2007, p.
79).&rdquo;</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 0pt 72pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;">
<em><span style="font-family: Verdana;"> </span></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt; text-align: justify; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;">
<em><span style="font-family: Verdana;">Penso que Hitler foi notável
unicamente em seu uso da razão instrumental, pois conseguiu
controlar os impulsos de sua natureza para a
destruição durante relativamente muito tempo, o tempo
de sua carreira política: pior para a Alemanha. No fim das
contas, fez com a Europa o que fez com sua prima Geli Raubal, quem
sabe seu único amor heterossexual: levou-a ao
suicídio. A Europa Unida deve a ele sua fraqueza, sua
dependência em relação aos Estados
Unidos.&rdquo;</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt; text-align: justify; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;">
<span style="font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
Aqui podemos ver a riqueza do estilo aforismático: ele pode
ser lido de diversas perspectivas, não apenas de uma. Por
isso tal estilo foi escolhido para se falar da vida e da morte.
&ldquo;O sentido se constrói pelo leitor&rdquo;, dizia-me
meu grande amigo e editor, Ramon Maia. E este sentido, o que
vê no aforismo 144 elogios a Hitler, foi criado pela
crítica do Lúcio. Vejamos se consigo contrapor a esse
olhar um outro possível. <em>Comércio exterior</em>.
Assim se intitula o aforismo, dizendo em seguida que Hitler foi
&ldquo;astuto&rdquo;, a qualidade da raposa elogiada pelo divino
Maquiavel, &ldquo;relativamente inteligente&rdquo;, o que
não me parece propriamente elogioso e, finalmente,
&ldquo;não auto-suficiente&rdquo;, o que leva as
afirmações seguintes no aforismo. Mas, de quais
afirmações se trata? O aforismo apenas aponta,
parecendo ocultar alguma
informação.</span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style=
"text-justify: inter-ideograph; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;">
<span style="font-size: 13pt; font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
Sabemos hoje que, sobretudo com as afirmações de
Edwin Black, que o Holocausto só foi possível,
inteiramente, pela tecnologia criada por uma empresa americana, a
IBM, que criou um sistema de cartões perfurados (que
nós chamamos de &ldquo;Hollerith&rdquo; aqui no Brasil),
usados pelo nazismo no reconhecimento e contabilidade dos judeus. O
cartão continha o nome, o número da pessoa e um
carimbo. É possível ver um destes cartões em
um museu do Holocausto, em Washington. Os cartões
possuíam de vinte a oitenta colunas em dez ou mais linhas,
que possibilitavam uma grande diversidade de
configurações. Para quê serviam estes
cartões? Para o senso racial, classificando cada
alemão quanto ao nome, raça, endereço,
religião, cor, local do trabalho, avós,
bisavós, etc. Enfim, o sistema desenvolvido pela IBM e
vendido aos alemães possibilitou o reconhecimento de 6
milhões de judeus, aproximadamente. Sabemos hoje que a IBM
tinha exclusividade a da produção e
comercialização tanto do cartão quando da
máquina que fazia operar o cartão. Sem esta
máquina, o número de judeus reconhecidos não
passaria de 500 mil. <span style=
"mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
Assim, o aforismo, de forma a deixar para o leitor a possibilidade
do sentido, provoca o olhar sob diversos ângulos. &ldquo;Mas,
por que não se informou no livro <em>Vita</em>, o que foi
dito acima?&rdquo; Por aqui, meus caros, o texto assumiria um
estilo jornalístico ou denunciativo, o que não
é nem um pouco defendido por mim, em se tratando de um livro
de aforismos. Espero que com isso eu tenha esclarecido o
ângulo com o qual olho o meu próprio aforismo,
convencido de que não admiro Hitler, nem mesmo pela
arquitetura (no sentido literal) criada pelo odor cadavérico
de sua vontade de dominação. O Holocausto é um
dos momentos mais incompreensíveis de nossa história,
uma loucura coletiva para a qual até mesmo a
inteligência de Heidegger se manteve cego, no período
em que foi reitor da universidade de
Berlim.</span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
No mais, acredito no velho ditado, que diz que &ldquo;o advogado
que faz sua própria defesa tem por cliente um idiota&rdquo;.
E cá estou eu, me defendendo uma interpretação
possível. Mas, digamos, não é pela defesa que
estou a escrever estas linhas, e sim para agradecer, embora
tardiamente, a crítica ou homenagem que o Lúcio
Emílio fez ao meu livro, cumprindo com um dos mais
importantes mandamentos da vida colorida pela literatura ou pela
filosofia. A crítica, dizia meu velho professor e mestre
José Henrique Santos, não é apanágio de
inimigos, mas é, antes de tudo, um dos deveres da
amizade.</span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
O blog Penetrália:</span> <span style=
"font-family: Verdana;"><a href=
"http://penetralia-penetralia.blogspot.com/">http://penetralia-penetralia.blogspot.com/</a></span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"> </span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
A crítica do Lúcio:</span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-spacerun: yes;"> </span><a href=
"http://penetralia-penetralia.blogspot.com/2007/12/clone-se-si-mesmo-ou-breves-consideraes.html">
http://penetralia-penetralia.blogspot.com/2007/12/clone-se-si-mesmo-ou-breves-consideraes.html</a></span></p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
 </p>
<p style="text-justify: inter-ideograph; text-align: justify;">
<span style="font-family: Verdana;"><span style=
"mso-tab-count: 1;">       </span>
Sobre Edwin Black e as relações entre a IBM, O
governo americano e o Holocausto,
ver </span> <span style=
"font-family: Verdana;"><a href=
"http://www.edwinblack.com/">http://www.edwinblack.com/</a></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
]]></description>			<link>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/57761/RESPOSTA-A-CRITICA-DO-LIVRO-VITA/</link>			<comments>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/RESPOSTA-a-CRiTICA-DO-LIVRO-VITA-15042008-234734-lp-57761.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/57761/RESPOSTA-A-CRITICA-DO-LIVRO-VITA/</guid>			<pubDate>Tue, 15 Apr 2008 23:47:34 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[Sobre nossas vidas contemporâneas]]></title>			<description><![CDATA[<p>Creio que este pequeno parágrafo do meu mestre dá
o que pensar sobre as nossas vidas contemporâneas:</p>
<p> </p>
<p>&ldquo;No mundo administrado, até mesmo as igrejas
aprenderam a cobrar ingressos, sem os quais não se abrem as
portas das salas interiores. Na falta de utopias
disponíveis, sempre é melhor crer em algo, nem que
seja no diabo, e fechar o corpo com o exorcismo adequado; como
também é bom ler o horóscopo antes de sair e
precaver-se de todos os males. Chega a ser conveniente renovar a
cada semana a carga de fervor que os dízimos e os exorcismos
propiciam, para que os bens de consumo caiam sobre nossas
cabeças. O sucesso paga todas as graças
alcançadas. Quando só as soluções
importam, parece de bom aviso evitar toda questão
inquietante &#59450; a Eternidade, o Absoluto, o Inaudito &#59450;
que suscita mais dúvidas do que certeza. A cada dia basta
seu cuidado.&rdquo;</p>
<p>SANTOS, José Henrique, O trabalho do negativo, ensaios
sobre a Fenomenologia do Espírito, São Paulo,
edições Loyola, 2007, págs. 21 e 22.</p>
]]></description>			<link>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/42976/Sobre-nossas-vidas-contemporaneas/</link>			<comments>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/Sobre-nossas-vidas-contemporaneas-25012008-143442-lp-42976.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/42976/Sobre-nossas-vidas-contemporaneas/</guid>			<pubDate>Fri, 25 Jan 2008 14:34:42 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[A ARTE DA SOLIDÃO]]></title>			<description><![CDATA[<p align="justify">
           
Ao convidar meus alunos de &ldquo;Filosofia e Ética&rdquo; a
ouvir algumas lições de Sócrates,
confrontei-me com uma sabedoria que se mostra demasiado simples: o
que temos a aprender verdadeiramente com nós mesmos? O que
tenho entendido, nestes primeiros dias de setembro, é que o
retorno a si mesmo, o voltar o olhar para cada um de nós,
é tarefa penosa que revela um bocado daquilo que sempre
permanece esquecido em nosso dia-a-dia. Não compreendemos
verdadeiramente quem somos se não experimentamos a
solidão. E o que é mais difícil de afirmar
é a necessidade de que devemos estar a sós em meio a
uma multidão que cega nossos olhos para uma interioridade
que, temo, está desaparecendo em meio a um mundo cada vez
mais acelerado e mais convidativo para o entretenimento. Creio,
assim, que o entretenimento é o grande flagelo de nossos
tempos modernos. Com nossa inteligência dispersa em uma
série de problemas sociais e de prazeres coletivos, acabamos
de olhos bem fechados para nós mesmos.</p>
<p align="justify">       
Sócrates, o velho tagarela que sempre interrogava seus
compatriotas sobre a verdade de seus conhecimentos, parece ter
deixado algumas lições imprescindíveis para a
verdadeira sabedoria: coloca-te sob suspeita! Mas, o que este
duvidar de si mesmo pode nos dar? Quem está, hoje, dois mil
e quatrocentos anos após a sua morte, disposto a abrir
mão de todo prazer imediato, de todos os convites que o
mundo moderno tem a nos ofertar, para se voltar para si mesmo e
buscar, a partir de si, um conhecimento que seja ao mesmo tempo
simples e revelador?</p>
<p align="justify">       
 O nosso mundo parece ter transformado a arte em
entretenimento: a arte já não é a
revelação do espírito, e sim o seu mais fugaz
passa-tempo. A música, que educada o espírito para o
sentimento sublime, é hoje um barulho que agita o corpo, e
torna a alma ainda mais estranha a si mesma. Nossa
educação tem se tornado um treinamento que promete
uma profissão, nada mais. Neste sentido, penso estarmos
muito ocupados para compreender realmente o que Sócrates
propunha: o conhecimento de si mesmo é a suprema tarefa
capaz de libertar o homem de suas amarras sociais, capaz de
libertá-lo da prisão das convenções
sociais, esta falsa noção de verdade que tem se
tornado a grande mentira das sociedades de massa. Rir de si mesmo,
assim compreendo toda grande sabedoria. Mas o riso, insisto, este
não se levar a sério, nos dá, primeiramente, a
grande angústia que pode nos despertar para o pensamento. O
riso nos dá, para além deste primeiro momento
angustiante de se descobrir um ser vazio, toda possibilidade de
alegria. É preciso, assim, inicialmente convidar-se a si
mesmo para o debate, para a revisão dos próprios
valores que guiam nossas ações, e, num segundo
momento, quando se descobre a fragilidade de nosso próprio
ser, enfrentar o mundo e suas mentiras para, no final, descobrir a
verdadeira arte de se estar no mundo, a sublime e divina arte de
sorrir!</p>
<p align="justify">
         
Sócrates, se levado a sério, deixará cada um
de nós confuso e em estado de perplexidade, e é
aí que se dá o início de uma aventura que
poucos hoje em dia se dispõem a buscar: a aventura do
pensamento, a arte de pensar.</p>
]]></description>			<link>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/22198/A-ARTE-DA-SOLIDAO/</link>			<comments>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/A-ARTE-DA-SOLIDaO-02092007-214543-lp-22198.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/22198/A-ARTE-DA-SOLIDAO/</guid>			<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 21:45:43 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[ÉLIDA, A DAMA DO MAR]]></title>			<description><![CDATA[<p align="justify"> </p>
<p align="justify"><span style="font-size: 10pt">Sempre acreditei
que a vida seria impossível sem a arte, sem uma
criação de sentido que a envolva e a distancie de sua
banalidade e mediocridade dadas. A vida só é
possível se for reinventada longe de tudo que é
natural, imediato e cansativo.</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 10pt">           
Viver sem a arte é, assim, simplesmente viver. Felicitou-me
muito que meu domingo tenha sido investido de um ar vindo do
século XIX, frio, chuvoso que nos descansa do tropicalismo.
 </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: 10pt">Hoje reli pela
terceira vez <em>A dama do mar</em>, uma belíssima
peça do dramaturgo Ibsen, o  autor mais encenado na
Europa do século XIX. Essa peça parece-me um drama em
que todas as falas possuem um duplo sentido. A impressão que
tenho é que existe sempre um duplo sentido: não me
parece um drama realista, mas a máscara que acoberta a
experimentação. Voltarei a isso. Depois de <em>A casa
de bonecas,</em> Nora foi celebrada como a salvadora da sociedade,
dando a Ibsen um lugar garantido na cabeceira das feministas.
Haveria alguma ingenuidade nisso? Mas, poderíamos perguntar
com o próprio Ibsen, o que aconteceria se Nora, ao
invés do grande e sagrado sacrifício (ela é um
personagem nietzscheano, um <em>espírito livre</em>, um
espírito de afirmação) ficasse em seu lar? A
resposta veio em <em>Os espectros</em>, em que encontramos a
loucura como resultado da submissão ao marido e ao casamento
já falido. Ibsen acreditava no compromisso que o
indivíduo tinha com a verdade e com a sociedade.  Eis a
tarefa de auto-realização. Eis, inclusive, a mais
importante proposição filosófica, a
única que realmente vale a pena mencionar sempre:
<em>conheça-te a ti mesmo.</em></span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: 10pt">  </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: 10pt">A
composição de <em>A dama do mar</em> agrada-me pela
leveza, não apenas no pensamento e na
descrição das imagens e das cenas, mas na
composição de cada frase. Fiquei feliz ao reler e,
como das outras vezes, lembrei-me da poetiza russa, na verdade mais
alemã do que russa, Lou-Andréas Salomé. Lou
é talvez a grande heroína da virada para o
século XX. Nietzsche escreveu a ela: "trago comigo algumas
coisas que não se podem ler em meus livros e para isso
procuro a terra mais bela e mais fecunda". A paixão de
Nietzsche experimentará o poder misterioso da mulher: "tive
de silenciar porque falar de você me teria derrubado cada
vez". A relação entre os dois é uma
página importante para compreender forças poderosas.
Ela escreveu: "Em alguma profundeza oculta de nossa natureza,
estamos inteiramente distanciados um do outro. Na sua natureza,
como numa velha fortaleza, Nietzsche tem muitos calabouços
escuros e porões escondidos que não são
percebidos num encontro superficial, mas que podem conter o mais
pessoal dele. Estranho, recentemente me ocorreu, com súbita
intensidade, que alguma vez poderemos até nos defrontar como
inimigos." Os dois se distanciarão definitivamente. Parece
que o impacto da separação marcará um caminho
(deliberado?) de solidão. Nietzsche tornar-se-á um
ermitão. Ela demonstrou-se mais forte do que ele, mais
livre, mais leve, mais independente. Ele vagará
solitário pelo mundo: sobretudo pelas cidades italianas. Ela
tornar-se-á o que ele vislumbrou em seu pensamento: um
<em>espírito livre</em>.</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 10pt">           </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: 10pt">O que mais me
chamou a atenção em Elida foi a compreensão de
que havia uma necessidade de independência para afirmar a sua
escolha livre. Renunciar ao casamento, pedir o divórcio para
realmente escolher livremente. Eis a grandeza de Elida. Pouco
importa o que ela escolherá: o misterioso estrangeiro, que
atrai e apavora, que seduz pela proximidade, pela distância,
pela ameaça que propõe a quebra da banalidade, ou a
singela descoberta de que a amor pode se dar pela
tranqüilidade, pela descoberta da simplicidade que revela um
sentimento que, longe da grandeza poética, pode ser
verdadeiro na banalidade do dia-a-dia. Pouco importa tudo isso. O
que importa, o que devemos aprender com a dama do mar, é que
o desejo deve ser afirmado a cada dia. A independência
é a única possibilidade de afirmação do
desejo. </span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 10pt">           </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: 10pt">Teria Elida
renunciado ao seu desejo? A afirmação de que a
liberdade é imprescindível para a escolha, isso me
pareceu a mais difícil de todas as afirmações.
Lou-Andreas Salomé representa a possibilidade de
mudança. E Elida? Não representa a mesma coisa? Ou
estaria a mudança apenas na aceitação do
estrangeiro? Elida descobre, ao meu ver, que a grande
mudança está em quebrar seus laços com o
passado, com o sublime que a ameaça no presente. Ela nunca
mais será a mesma: se se esconde um retorno à
civilização em sua escolha, parece-me uma
afirmação interessante, mas ela não pode nos
deixar cegos para o outro ponto de vista: Elida descobriu a
simplicidade do amor, não como a aceitação do
grandioso, do sublime, mas como a novidade possível da
afirmação de seu destino. Ela aceitou a sua vida, e
isso é a grande mudança que a tornará uma
grande mulher. Acredito, assim, que conseguimos ver coisas
diferentes e importantes em nossas leituras. A
negação do desejo? A afirmação do
desejo? Numa palavra eu diria, a independência de
espírito. É tudo.</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 10pt">Alexandre.</span></p>
<p align="justify"> </p>
]]></description>			<link>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/21645/ELIDA-A-DAMA-DO-MAR/</link>			<comments>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/eLIDA--A-DAMA-DO-MAR-30082007-215920-lp-21645.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/21645/ELIDA-A-DAMA-DO-MAR/</guid>			<pubDate>Thu, 30 Aug 2007 21:59:20 +0200</pubDate>		</item>		<item>			<title><![CDATA[VITA - breves pensamentos sobre a vida e a morte]]></title>			<description><![CDATA[<p align="justify"><strong><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
     Deixo disponibilizado
o Prefácio do livro que será lançado em
outubro, demorou, mas ficou pronto! Espero que o Prefácio
cumpra a sua função e motive a
leitura...</span></strong></p>
<p align="justify"><strong><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
um abraço a todos.</span></strong><strong><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Courier New'">
 </span></strong><strong><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Courier New'">
   </span></strong></p>
<p align="left"><strong><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Courier New'">
REIS, Alexandre H.</span></strong> <strong><em><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
Vita - breves pensamentos sobre a vida e a
morte</span></em></strong><strong><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
, Belo Horizonte, Mundo de Cetim, 2007.</span></strong><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span></p>
<p align="left"> </p>
<p align="center"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Courier New'">
Prefácio</span></p>
<p align="center"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
I</span><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
            
As palavras que caem em suas mãos, caro leitor, são
frutos da impertinência. Somente assim posso conceber o que
é apresentado aqui. A seriedade com a qual se abre esse
pequeno volume, quando se expõem temas de suma
importância, sem com isso garantir, talvez, a capacidade do
autor em digerir refeição tão lauta,
não parece ser a seriedade dos homens que fazem da filosofia
uma profissão. O leitor sisudo pode aqui se queixar da falta
de academicismo ou da proximidade excessiva entre as
asserções e o próprio gosto do autor, e
certamente não será encontrado aqui mais do que pode
comportar um aforismo. A seriedade do aforismo está em
aceitar o riso, em aceitar a possibilidade de se contradizer e de
rir de si mesmo. Não lhe apresento, portanto, meu caro
amigo, um tratado sobre a vida e a morte, mas sentenças nas
quais elas se tornam objeto de uma profunda reflexão:
não se assuste, no entanto, se muitas vezes tais
reflexões encontrarem o sentido de profundidade na
própria superfície. É que o tema aqui tratado
não permite um longo discurso: se algum dia se disse uma
palavra verdadeira sobre a vida ou sobre a morte, tal palavra feriu
um princípio elementar: tais verdades, ao serem ditas,
tornam-se mentiras, isso porque a linguagem não é o
lugar da verdade, mas sim das simulações e das
representações. E a representação
é, por excelência, uma atriz
talentosa.</span></p>
<p align="justify"><span style="color: black"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>            
O propósito desse opúsculo, repito, é
impertinente. E assim o é porque não se deve falar
sobre a morte ou sobre a vida. Vive-se e morre-se. Mas a
prática do filósofo é, muitas vezes, pensar o
absurdo. E suponho que a morte seja mesmo uma dessas mulheres
difíceis, que não caem nos gracejos do galanteador. O
homem contemporâneo, dotado de uma racionalidade instrumental
capaz de pôr o próprio planeta a seu serviço,
já não é mais capaz de seduzir a morte, de
atraí-la para sua sabedoria de vida, para seu
saber-viver-bem: faltam-lhe elogios e gracejos capazes de
conquistá-la. A morte, ignora o homem de nossos tempos,
só tem olhos para a vida, e os homens têm gastado um
bocado de suas energias pensando em como satisfazer sua vontade de
poder. O animal racional, bípede implume, é um
escravo de seus desejos. A morte, digo isso apenas em voz baixa,
é o veneno dos desejos. E é esse veneno que proponho
oferecer ao pensamento, pois pensar é, para o
filósofo, a lenha que move sua vida. O veneno, no entanto,
se converterá em água. A morte, que à primeira
vista pode significar o carvão do pensamento, torna-se
abrasiva quando tomada por ele, que exige sempre que seu objeto
preste contas à razão e ao exercício da
razão.</span></p>
<p align="justify"><span style=
"color: black">      
     </span> <span style=
"color: black">Pensar é sempre um exercício que exige
um tratamento da morte. <em>Só deixamos de pensar na
morte</em>, dizia mesmo Marcel Conche, <em>quando deixamos de
pensar</em>. E pensar a morte é pensar o não-objeto,
pensar o obscuro, quando a luminosidade da razão vai se
acasalando com as trevas...</span><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span></p>
<p align="justify"> </p>
<p align="center"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 II</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           
As presentes páginas <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: Symbol">
<span>¾</span></span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
que um espírito insolente exigiu extrusar, extraindo de si
mesmo o agradecimento à tradição</span>
<span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: Symbol">
<span>¾</span></span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
, pretendem justificar a liberdade que o autor tomou para si,
permitindo se distanciar de seu tempo, numa clássica
impertinência de juventude, para que pudesse enxergar o mais
humano de todos os problemas, que dá à própria
condição humana o seu sentido e identidade
existenciais: a <em>morte</em> define a própria vida do
homem.</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           
O leitor que, deitado em sua cama, a fitar o teto, já tenha
se perguntado sobre o significado da vida e que já tenha se
estremecido diante da possibilidade da morte, talvez encontre aqui
sentenças que lhe caibam no espírito. O que significa
morrer? Quem morre? Talvez a tradição
filosófica possa apresentar algumas palavras a esse
problema, e talvez ela possa nos emprestar suas ferramentas para
criticar suas próprias respostas, suas
exposições. Pois, se me lembro bem das
lições do mestre, José Henrique Santos,
é sempre com o aprendizado da tradição que
aprendemos a habilidade da crítica, submetendo-a ao seu
próprio tribunal.</p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           
O contra-senso de se pronunciarem palavras quando se pede apenas o
silêncio, contudo, permanece em cada linha das páginas
que se seguem. Mas o que importa realmente a coerência?
Não é, no final das contas, um imenso contra-senso
falar em contra-sensos? O silêncio só refuta a si
mesmo. Foi justamente o desprendimento da língua altiva que
levou muitos homens e mulheres a dizerem aquilo que nos era
necessário ouvir. Um barulho prenhe de significados, abala a
sensatez do silêncio. Um barulho
necessário.</p>
<p align="justify"> 
           
Às perguntas levantadas na horizontalidade da
impertinência de se fitar o teto, soma-se ainda uma outra que
me parece ainda mais desafiadora: é possível pensar o
significado da morte? Parece ser esse o propósito
impertinente do qual se falava antes. A resposta a essa pergunta
será aqui dada positivamente, desde que se tenha claro que
esse significado não será descoberto, mas sim
inventado, criado, elaborado pela arte de pensar. O problema aqui
pensado não é, contudo, sobre a possibilidade da
morte, mas sobre a possibilidade de se dar sentido à vida. A
vida, aliás, pode mesmo morrer? Ou apenas os seres viventes
morrem? Por que o espanto sempre se faz presente na face daquele
que presencia o desaparecimento de um ser vivo como se, pela
primeira vez, ocorresse tal acontecimento no mundo? Por que a morte
é sempre familiar e, ao mesmo tempo, sempre algo estranho
para nossa consciência? A minha morte será sempre algo
único e inimitável? A morte de <em>outrem</em> nunca
é trágica e pode ser estudada do ponto de vista das
ciências médicas, sociais, etc, e traz uma
objetividade que impede a tragédia. E já a morte do
<em>outro</em>, do amigo, do irmão, está
próxima: já não é estranha: é
quase um golpe trágico que se afirma em nossa própria
consciência.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="center"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 III</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
Aqui se apresenta uma interrogação que se direciona
ao próprio leitor, uma interrogação que
procura abalar qualquer certeza: a vida que você vive, meu
amigo, caminha necessariamente para a morte. &ldquo;A morte&rdquo;,
dizia Emil Cioran, &ldquo;é a coisa mais segura e firme que
a vida inventou até agora.&rdquo; Quantas vezes paramos no
turbilhão dos acontecimentos de nossas vidas modernas para
pensar seriamente sobre isso? Seria essa a mais infalível
das certezas? Pois muito bem, se a resposta a essa pergunta for
positiva, interroguemo-la, pois assim se faz necessário.
Qual é a concepção de vida que você
possui, meu caro leitor, e qual sua expectativa da morte? Como a
concebe? Falando mais seriamente: a vida e a morte seriam assim
tão díspares? O esterco mal-cheiroso não faz
brotar no quintal o aroma inconfundível de uma flor de
laranjeira? E quantas vezes não nos surpreendemos com a vida
se desabrochando em lugares que, a não ser em nossa
esperança, suscitaria apenas o silêncio mortal do
inaudível? A vida não pressupõe, muitas vezes,
o alimento colhido nas prateleiras geladas da morte? E qual
é o alimento da morte?</span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
Convoco você, amigo leitor, a pensar o significado da vida
&#8213;, e a pensar o significado da morte. Quem morre? É
possível a vida morrer? Ou a morte seria, em nosso caso,
apenas de um corpo e de uma consciência individuais? É
possível exercitar tais pensamentos?</span><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span></p>
<p align="justify"> </p>
<p align="center"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
IV</span><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 O livre pensamento aqui escrito não apresenta nenhuma
teoria consistente, ou mesmo uma tese abissal sobre o problema da
morte. Neste livro se acha, no entanto, um <em>subsolo</em>, um
caminho que talvez tenha sido interrompido em nossos tempos, e por
isso mesmo tenha se deslocado para debaixo de nossos pés,
como o lençol freático no qual a água se
acomoda tão divinamente, que nossas esperanças ainda
se preenchem de um suspiro que nos anima, mesmo que nossos olhos
percebam o quão cega é nossa inteligência
prática para as questões mais importantes da vida
sobre a terra.</span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
Não quero lhe convencer, meu paciente amigo, de nenhuma
verdade, de nenhuma audaciosa busca de sentido, pois o caminho para
a verdade, o caminho que leva a um preenchimento desse vazio que
nossa época nos presenteou, só pode ser percorrido na
companhia de si mesmo</span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: Symbol">
<span>¾</span></span> <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
, como aquela imagem vinda do século XIX, em que o
<em>andarilho e sua sombra</em> rumavam unicamente na companhia de
bons e leves pensamentos. Ainda será necessário
redescobrir o sentido do conselho délfico, o sentido daquele
caminho que só pode ser percorrido na solidão, quando
se é capaz de elevações que encontram a
verdadeira linguagem do mundo, a verdadeira linguagem que
repetidamente silencia a própria
gramática.</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           
<span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
Muitas vezes deparei com pensamentos sobre o problema da morte que
me pareciam, era essa minha opinião, descabidos e
artificiais, outros, no entanto, pareciam ter saído de mim
mesmo, tal era minha identificação para com eles. Em
muitos pensadores da tradição, a morte se apresenta
como um pensamento vivo, como a luz que ilumina o próprio
pensar, como se aquela velha afirmação de
Platão, que afirma ser o início da filosofia o
<em>deixar admirar-se</em>, pudesse ser agora refutada e, ao
invés, devêssemos afirmar que a filosofia se principia
com o perturbar-se. Mas, no final das contas, nossa maior
admiração não se contrapõe
definitivamente à angústia de não compreender
o que poderia ser claro para nós. A admiração,
no fundo, é um tipo de perturbação, mas um
tipo passional e menos parcial, na medida em que nos projetamos
mais ao objeto admirado do que a nós mesmos, ao passo que a
perturbação, no sentido de uma perplexidade, é
o afastamento do objeto em direção a um <em>si
mesmo.</em></span></p>
<p align="justify"> </p>
<p align="center"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 V</span><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"> </span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; line-height: 150%"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           </span>
  <span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 Estes <em>breves pensamentos sobre a vida e a morte</em>,
coletados mais em minha experiência de pensar do que em
minhas pobres vivências, se é que é
possível fazer tal separação, nada mais
são do que uma perplexidade diante da morte, diante da
consciência do limite, e da impossibilidade de se exprimir,
em linguagem adequada, o que poderia haver para além desse
limite, o que já se configuraria como objeto da
Religião. A experiência mais importante, buscada por
um Tolstói ou por um Wittgenstein, e que a
tradição revela terem vivido um Joacob Boehme ou um
San Juan de la Cruz, dificilmente pode ser comunicada. Kant
demonstrara no século XVIII os limites da razão, ou,
ao menos, os limites do conhecimento racional, excluindo da
ciência as perguntas mais importantes. Pois, no final das
contas, não parece ser aquela indagação de
Tolstoi, <em>o que devo fazer de minha vida?</em>, a mais
importante das interrogações? O que buscaram todos
esses homens acima citados senão uma experiência que
lhes pudesse responder a essa difícil
questão?</span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
<span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
<span>          </span></span>
A apresentação de meus pensamentos sobre a vida e a
morte segue a linguagem do aforismo. Sendo assim, meu caro leitor,
não apresento aqui conceitos que captem a essência de
meus problemas. Não é um lançador de redes que
aqui escreve. As redes, se as lanço, são para sentir
por entre seus nós e losangos a textura da água,
não para capturar o peixe. O aforismo sempre olha de
perspectiva, é sempre expressão da <em>doxa</em>, da
opinião, que recusa a seriedade do conceito, a linguagem
profissional, acadêmica, científica.</span>
<span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
O subsolo que sustenta a superfície de meus pensamentos
é, em verdade, uma suspeita. Uma perplexidade diante da
banalidade da vida no século XXI. É esse o meu
desespero. A morte diária, anunciada e presente em nossos
lares, que invade a cada instante nossos olhos, parece ter perdido
seu sentido-ritual. O próprio tempo, condição
necessária à morte, tornou-se tempo de ponteiro. O
próprio homem já não tem mais
consciência de sua humanidade. Deus, que sustentou a cultura
do Ocidente nos últimos milênios, parece ter sido
interrompido pelo barulho das máquinas de nossa
revolução industrial. E isso já há
alguns séculos. Não seria agora o Homem, com sua
técnica e domínio digital, a vítima mais
recente dos tempos modernos? A necessidade de olhar para
trás, para nossa história, e para adiante, para
além de nós mesmos, não deve ser novamente
objeto de nossos pensamentos? Paremos por um minuto,
esqueçamos as obrigações de nosso dia-a-dia,
de nossa vida aprisionada em seu tempo, para convocarmos ao
combate, ainda que brevemente, esses pensamentos sobre a vida e a
morte. Pois, ao final, não pensar a própria morte
é sempre o verdadeiro significado de se estar
morto.</span>  <span>   </span>                         <span>
         </span>  <span>
 </span></p>
<p align="justify"><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
<span><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           </span> 
<span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
 </span>           </span>
 
                        
<em><span style=
"font-size: 12pt; color: black; line-height: 150%; font-family: 'Times New Roman'">
Belo Horizonte, outono de
2007.</span> <span>    </span></em></p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify"><em><span>        
          VEJA AS
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SEGUINTES     </span> </em></p>
]]></description>			<link>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/6486/VITA-breves-pensamentos-sobre-a-vida-e-a-morte/</link>			<comments>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/VITA---breves-pensamentos-sobre-a-vida-e-a-morte-10052007-205511-lp-6486.php#lienpermanent</comments>			<guid>http://alexandrehreis.arteblog.com.br/6486/VITA-breves-pensamentos-sobre-a-vida-e-a-morte/</guid>			<pubDate>Thu, 10 May 2007 20:55:11 +0200</pubDate>		</item>	</channel></rss>